- Bruno Alves Pinto

- 20 de nov. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 11 de jan.

Capítulo III
Lord Henry vai visitar o tio, Lord Fermor, um velho aristocrata ranzinza, espirituoso e conservador, que vive à moda antiga, faz pouco caso de trabalho e política séria e só se ocupa de prazeres e conveniências de classe. A conversa, cheia de ironias sobre dinheiro, exames públicos e costumes modernos, é apenas o pretexto para Henry conseguir o que realmente deseja: informações sobre Dorian Gray. Ele revela que o jovem é neto de Lord Kelso e filho de Lady Margaret Devereux, e pede ao tio que conte a história dessa família.
Lord Fermor então reconstrói a vida trágica da mãe de Dorian. Margaret Devereux era lindíssima, admirada por todos e cortejada por homens influentes, mas rompeu com as expectativas da aristocracia ao fugir com um jovem oficial pobre, “um ninguém” sem fortuna. Poucos meses após o casamento, o marido foi morto em um duelo em Spa, numa situação suspeita, em que se murmurava que o próprio Kelso teria pago um aventureiro para provocar e matar o genro, num crime maquinal e encoberto. Margaret, humilhada, foi trazida de volta pelo pai, rompendo com ele para sempre, e morreu pouco depois, deixando apenas o filho órfão nas mãos do avô, um velho mesquinho e tirânico. Fermor ainda comenta a herança de Selby (uma propriedade rural) e o mau caráter de Kelso, reforçando a ideia de que Dorian vem de uma linhagem masculina desprezível, compensada por mulheres belas, românticas e intensas. A conversa deriva então, com humor mordaz, para um caso atual: o possível casamento de Lord Dartmoor com uma americana rica, o que serve para uma troca de piadas sobre americanas como “empacotadoras de porco”, dinheiro novo, ausência de passado e contraste com as inglesas.
Saindo dessa visita, Lord Henry reflete, caminhando, sobre o que acabou de saber e sobre o próprio Dorian. A história da mãe — uma paixão louca, seguida de felicidade breve, crime, sofrimento e morte — confere ao rapaz um “fundo” trágico que, aos olhos de Henry, torna sua beleza ainda mais interessante e “perfeita”. Ele formula uma espécie de teoria: por trás de toda coisa requintada e bela há algo de trágico, como se mundos inteiros tivessem de sofrer para que uma única flor insignificante desabrochasse. A lembrança de Dorian na noite anterior, encantado, com olhos assustados e rosto iluminado pela juventude, reforça o fascínio de Henry. Ele saboreia a ideia de influência como uma arte: projetar a própria alma em outra pessoa, fazer ecoar suas ideias na voz e no corpo de alguém jovem, transmitir o próprio temperamento como um perfume sutil. Isso, para ele, é talvez o prazer mais refinado que resta em uma época vulgar e materialista. Dorian lhe parece um “tipo maravilhoso” a ser moldado: pode tornar-se um gigante (um Titã) ou um brinquedo, e o que o inquieta é que essa beleza está destinada a murchar. Ele também pensa em Basil Hallward, vendo no pintor um caso psicológico curioso: a simples presença de Dorian produziu nele um novo modo de ver e criar, quase como nas relações descritas por Platão ou nos sonetos de Michelangelo. Henry decide, então, conscientemente, ocupar com Dorian o mesmo lugar de influência que Dorian ocupa, sem querer, na vida de Basil: ele se propõe a dominar o jovem, “fazer daquela alma maravilhosa sua”, vendo Dorian como um “filho do amor e da morte”.
Absorvido nesses pensamentos, Henry chega atrasado ao almoço na casa da tia Agatha. A cena muda para um ambiente social doméstico, mas ainda muito aristocrático, onde cada convidado é esboçado de modo satírico: a Duquesa de Harley, boa e enorme; Sir Thomas Burdon, político radical na teoria e gourmet conservador na prática; o culto, mas cansado, Sr. Erskine, que já “disse tudo antes dos trinta” e agora quase só ouve; Mrs. Vandeleur, piedosa e antiquada; e Lord Faudel, uma mediocridade inteligente, sério e calvo. Dorian está sentado no fundo da mesa, corando quando olha para Henry, o que mostra a intensidade da impressão que o lorde já causou nele. O almoço logo se transforma em campo para o humor de Henry: falam outra vez do casamento de Dartmoor com a americana, tema que suscita comentários sobre dotes, origem comercial, “dry-goods” e a mania de as americanas buscarem maridos europeus. Henry lança paradoxos sobre americanos, Paris, céu, inferno e razão “bruta”, contrapondo-se a Sir Thomas, que defende os Estados Unidos como país racional e moderno. O Sr. Erskine, mais sutil, acompanha e aprecia os paradoxos de Henry, que assume o papel de espírito brilhante e provocador da mesa.
No meio desse jogo de ironias, Lady Agatha, dedicada à filantropia e ao trabalho social no East End de Londres, repreende o sobrinho por afastar Dorian de suas atividades caritativas, nas quais o rapaz seria “inestimável”, especialmente pela música. A disputa aqui é menos explícita, mas clara: de um lado, o mundo moral e caridoso de Lady Agatha, que quer Dorian a serviço dos pobres; de outro, o mundo estético e hedonista de Henry, que o quer para si, como discípulo e objeto de influência. Henry responde que deseja que Dorian toque somente para ele, e o jovem, sem esconder o entusiasmo, pede a Lord Henry que o leve consigo e que fale com ele “o tempo todo”, pois ninguém fala tão bem quanto ele. O capítulo termina com Henry, satisfeito, assumindo a postura de observador da vida, oferecendo a Dorian a chance de “olhar a vida” ao seu lado. Fica claro que a decisão íntima de Henry — dominar Dorian, moldar seu espírito, explorar sua beleza e sua juventude — começa a se concretizar ali, sob a aparência leve de um almoço mundano, cheio de gracejos, mas carregado de implicações para o futuro do jovem.
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