- Bruno Alves Pinto

- 17 de nov. de 2025
- 5 min de leitura
Atualizado: 21 de nov. de 2025

Capítulo I
O texto inicia com uma descrição sensorial e muito detalhada do ateliê de Basil Hallward, impregnado de cheiros de flores e banhado pela luz suave de um dia de verão. As rosas, lilases, madressilvas e árvores do jardim formam um cenário quase opressivamente belo e tranquilo, em contraste com o rumor distante de Londres, como um fundo apagado. Nesse ambiente refinado, lorde Henry Wotton repousa preguiçosamente num divã, fumando, enquanto o quadro de um jovem de extraordinária beleza domina o centro da sala, preso a um cavalete. O artista, Basil, contempla o retrato com um misto de prazer e inquietação, como se tivesse posto ali algo tão íntimo que chega a temer encarar plenamente o próprio trabalho.
Lorde Henry elogia o quadro e insiste para que Basil o exponha, afirmando que a obra o colocaria no topo entre os jovens pintores ingleses. Mas Basil se recusa com firmeza: diz que não pode mostrar aquele retrato a ninguém porque “pôs demais de si mesmo nele”. Henry, cínico e elegante, zomba da ideia e contrapõe que não há semelhança física entre Basil e o belo jovem retratado, que ele compara a Narciso e Adônis, dizendo que a verdadeira beleza não suporta a marca do pensamento: quando alguém pensa demais, o rosto se deforma num excesso de nariz, testa, expressão. Para ele, o modelo parece uma criatura linda e frívola, “sem cérebro”, perfeita para decorar o inverno sem flores e refrescar o verão. Basil, porém, discordando da leitura superficial de Henry, deixa claro que a sua recusa não é uma questão de vaidade, mas de exposição da própria alma.
Saindo para o jardim, os dois conversam num banco à sombra, e Henry retoma a pergunta: quer saber a verdadeira razão pela qual Basil não expõe o retrato. Pressionado, o pintor revela sua visão da arte: todo retrato feito com sentimento é, no fundo, um retrato do artista; o modelo é apenas ocasião, pretexto. Por isso ele teme que, ao mostrar o quadro, revele publicamente o seu “segredo”: algo profundo de sua própria alma, camuflado nas cores e formas. A partir daí ele começa a contar como conheceu Dorian Gray. Explica que, dois meses antes, numa reunião social na casa de Lady Brandon, percebeu ser observado por um jovem desconhecido. Quando seus olhos se cruzaram, sentiu um pavor estranho, como se estivesse diante de uma personalidade tão fascinante que pudesse absorver sua natureza inteira, dominar sua arte e sua vida. Intuindo que estava à beira de uma crise decisiva no destino, tentou fugir, mas acabou apresentado a Dorian pela anfitriã, numa cena ao mesmo tempo cômica e reveladora.
Basil descreve o primeiro encontro como algo inevitável: mesmo sem apresentação formal, os dois teriam, segundo ele, acabado conversando, tamanha a atração mútua. O pintor relata a conversa com Lady Brandon, que fala de Dorian de forma superficial e espalhafatosa, e comenta como o riso compartilhado diante das tolices dela sela a amizade entre eles. Aos poucos, o relato de Basil revela que Dorian se tornou absolutamente central em sua vida: ele afirma vê-lo todos os dias e declara que não poderia ser feliz sem isso. Vai além, dizendo que Dorian é agora “toda a sua arte”. Compara a importância do jovem à invenção de um novo meio artístico ou à aparição de um rosto-modelo histórico, e explica que sua presença não é apenas a de um modelo para posar: a personalidade de Dorian lhe abriu um estilo novo, um modo diferente de ver e recriar o mundo. Graças a ele, Basil encontrou o “assombro” que sempre buscou nas paisagens, percebe novas harmonias entre alma e corpo e sente que seu trabalho se tornou o melhor de sua carreira.
Ao mesmo tempo, Basil admite que transfere para o retrato e para a convivência com Dorian uma verdadeira idolatria, uma devoção estética e afetiva que ele próprio considera perigosa demais para ser exposta. Ele teme que o mundo, ao ver o quadro, perceba essa adoração escondida, essa paixão artística que prefere manter em segredo, pois não quer “desnudar o coração” diante de olhares superficiais. Em contraste, lorde Henry assume o papel de provocador: desdenha a ideia de sinceridade profunda na arte, diz que poetas transformam corações partidos em lucro editorial e insiste em querer conhecer Dorian, fascinado pela influência que o rapaz exerce sobre o pintor. Entre um comentário espirituoso e outro, Henry expõe seu cinismo: ridiculariza a moral tradicional, a devoção familiar e a sinceridade política, e confessa gostar mais de pessoas sem princípios. Faz tiradas contra a democracia, contra a família, contra o ideal do “homem bem-informado”, tratando tudo como motivo de ironia brilhante.
No diálogo, o texto também contrasta a visão de Henry e a de Basil sobre amizade e influência. Basil vê Dorian como algo raro, necessário, quase sagrado para sua arte, e teme perdê-lo ou tê-lo “estragado” pela intervenção de alguém como Henry. Confessa que Dorian, às vezes, o trata com descuido, como quem joga fora algo delicado, e sente que entregou sua alma a quem talvez a veja como mero adorno. Henry, por sua vez, afirma que o gênio dura mais que a beleza e prevê que Basil um dia se cansará do amigo. Diz que os fiéis só conhecem o lado trivial do amor, enquanto os infiéis experimentam suas tragédias, reforçando seu papel de observador frio das paixões alheias, interessado mais nas emoções dos outros do que em comprometer-se com as próprias.
À medida que a conversa avança, surgem ainda mais oposições entre ambos: Basil valoriza a autenticidade, a interioridade, o segredo como fonte de romantismo na vida; Henry glorifica a dissimulação e diz que só o segredo torna interessante a modernidade, mas no fundo parece tratar tudo como jogo, inclusive o próprio casamento. Basil insiste que não quer que Henry conheça Dorian, pois acredita que sua influência será má. Já Henry, cada vez mais curioso, liga finalmente o nome à pessoa: lembra-se de ter ouvido falar de Dorian por sua tia, Lady Agatha, que o descreveu como um jovem sério, de “natureza linda”, envolvido em obras de caridade no East End de Londres. Essa informação acrescenta outra faceta à figura de Dorian: além de belo e fascinante, ele parece também possuir um lado moralmente “puro” aos olhos de certas pessoas.
O capítulo se encerra no momento em que o destino intervém de forma direta: o mordomo anuncia que o sr. Dorian Gray está no ateliê. Henry, excitado, exige ser apresentado, enquanto Basil, tenso, tenta resistir, reafirmando que não quer que o amigo seja influenciado pelo lorde. Ele declara confiar em Henry, mas pede que não “estrague” Dorian, que não interfira nesse vínculo que sustenta sua vida artística. Apesar do pedido, Henry o arrasta para dentro da casa, pronto para conhecer o jovem que é, ao mesmo tempo, musa, motivo artístico e centro emocional da existência de Basil. O texto, assim, prepara o leitor para o encontro entre Dorian e lorde Henry, tendo antes armado todo o cenário de beleza, desejo, arte, segredo e influência que orientará os conflitos futuros.
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