- 27 de jul.
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1º ATO
Cena 3
Diante da grade de ferro do escritório, uma multidão desesperada de devedores se aglomera implorando por acordos, prorrogações de prazos e pela salvação de seus negócios e famílias. Irritado com as recentes restrições legais e regulamentações sociais, Abelardo I decide subitamente encerrar os atendimentos e fechar o estabelecimento, recusando-se a negociar mesmo diante dos apelos dramáticos de empresários ameaçados pela falência e de pessoas sem recursos para o sustento básico. Com a recusa inflexível do credor, Abelardo II utiliza um chicote e dispara um tiro para o ar para subjugar a multidão, que reage com indignação lançando ofensas em diversos idiomas antes de ser trancada do lado de fora. Já com a porta de ferro fechada, os clientes gritam relatos trágicos de suicídios motivados pelo desespero financeiro, os quais Abelardo I desdenha friamente, afirmando ser esse o destino merecido por todos eles.
Logo em seguida, Abelardo II atende a uma ligação telefônica de um padre solicitando uma reunião, a qual Abelardo I aceita prontamente com tom cortês, agendando o encontro para o final da tarde. Ao desligar, o agiota questiona as reais intenções do religioso, ao passo que Abelardo II ironiza que o sacerdote busca intervir em sua alma e em seu futuro testamento, antevendo o papel da futura esposa sobre a gestão do patrimônio. A conversa desvia para a orientação política de Abelardo II, que se declara socialista e admite abertamente que seu verdadeiro objetivo é tomar o lugar de Abelardo I na condução da empresa, levando ambos a debaterem com pragmatismo sobre o funcionamento das ideologias e das leis trabalhistas em um contexto socioeconômico desigual.
Retomando as atividades financeiras, Abelardo I e Abelardo II passam a analisar a proposta de crédito de Carmo Belatine, proprietário de um frigorífico e fábrica de salsichas. Abelardo II detalha o perfil do industrial, destacando seus hábitos pessoais austeros, a exploração dos trabalhadores e o investimento na educação dos filhos em colégios de elite. Com base nessas informações, Abelardo I elabora uma estratégia predatória meticulosa: conceder empréstimos enquanto a família mantiver um padrão de vida modesto, mas cortar progressivamente o crédito e exigir garantias reais assim que os herdeiros passarem a ostentar um estilo de vida luxuoso e fútil, preparando o terreno para a futura execução judicial e a tomada do patrimônio do devedor. Por fim, avaliando que as próprias regulamentações trabalhistas acabam favorecendo a dinâmica do capital, Abelardo I aprova a operação sob as altas taxas de praxe e manda chamar a secretária para ditar uma correspondência, momento em que Abelardo II se retira da sala.
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