- 27 de jul.
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Atualizado: 13 de ago.
O Rei da Vela Oswald de Andrade
Texto Original Completo (ortografia atualizada, em domínio público)
1º ATO
Cena 3
Os clientes aparecem atropeladamente nas grades. É uma coleção de crise, variada, expectante. Homens e mulheres mantêm-se quietos ante o enorme chicote de Abelardo II.
ABELARDO I — Rua! Nem mais um negócio! Vou fechar esta bagunça.
VOZES (Da jaula.) — Pelo amor de Deus! Por caridade! Eu não posso pagar o aluguel! Reforme! Vou à falência!
ABELARDO I — Rua! Ninguém mais pode trabalhar num país destes! Com leis monstruosas!
VOZES — Eu tenho que fechar a fábrica! Não poderei pagar os duzentos operários que ficarão sem pão! Tenha piedade! Inclua os juros no capital! Damos excelentes garantias!
ABELARDO I (A Abelardo II.) — Feche esta porta! Não atendo ninguém!
Abelardo II faz estalar o chicote de domador.
AS VOZES — Blefaremos o governo! Me salve! Me salve!
ABELARDO I — Rua! Canalhas! Lá fora sei como vocês me tratam!
Abelardo II fá-los recuar das grades, brandindo o chicote e ameaçando com o revólver.
UMA VOZ DE MULHER — Ai Jesus! Não temos o que comer! Eu não saio daqui! Espero até à noite! Estou arruinada!
AS VOZES IRRITADAS (Abelardo II procura fechar a porta de ferro.) — Canalha! Sujo! Tirou o nosso sangue! Ladrão! Não saímos daqui!
UM ITALIANO — Pamarona! Momanjo isto capitalista!
UMA FRANCESA — Sale cochon! Si c'est possible! Con!
UM RUSSO BRANCO — Svoloch!
UM TURCO — Joge paga bateca! Non izacuta Joge...
AS VOZES (Em coro.) — Assassino!
ABELARDO I — Feche! Atire!
Abelardo II dá um tiro para o ar. Os clientes recuam gritando. Ele corre a porta de ferro ruidosamente.
AS VOZES (Abafadas.) — Cão! Rei da Vela! Pão-duro!
UMA VOZ DE MULHER (Gritando do outro lado da porta.) — Meu marido bebeu estricnina!
OUTRA — Minha mãe tomou lisol!
OUTRA — Meu pai se jogou do Viaduto!
ABELARDO I — Lisol! Estricnina! Viaduto! É do que vocês precisam, canalhas!
(Menos o Cliente. Telefone.)
ABELARDO II (Atendendo.) — Alô! É o padre! Aquele da entrevista! Está, reverendo! Vem já...
ABELARDO I — Mas você marcou?
ABELARDO II — No marquei nada.
ABELARDO I (Toma o fone.) — Bom dia, reverendo! Sou eu mesmo, Abelardo... Ah! Com muitíssima honra... Esperarei vossa reverendíssima. Pode ser às quatro horas? Então... sem dúvida... Beijo-lhe as mãos! Sempre às suas ordens. (Depõe o fone.) Este padre é engraçado... Não me larga... Eu não sou eleitor... Ele não quer dinheiro...
ABELARDO II — Quer a sua alma...
ABELARDO I — Evidentemente é um caso raro. Um homem preocupar-se comigo sem ser logo à vista... Quanto?
ABELARDO II — Ele prefere tratar desde já do seu testamento.
ABELARDO I — Inútil. Eu morro ateu e casado.
ABELARDO II — É isso mesmo que ele quer. A viúva cuidará bastante de sua alma que terá ido... para o purgatório...
ABELARDO I — Diga-me uma coisa, Seu Abelardo, você é socialista?
ABELARDO II — Sou o primeiro socialista que aparece no Teatro Brasileiro.
ABELARDO I — E o que é que você quer?
ABELARDO II — Sucedê-lo nessa mesa.
ABELARDO I — Pelo que vejo o socialismo nos países atrasados começa logo assim... Entrando num acordo com a propriedade...
ABELARDO II — De fato... Estamos num país semicolonial...
ABELARDO I — Onde a gente pode ter ideias, mas não é de ferro.
ABELARDO II — Sim. Sem quebrar a tradição.
ABELARDO I — Se for preciso, o padre leva a sua alma também... Está certo... Vamos examinar aquelas propostas. (Senta-se e lê.) Carmo Belatine...
ABELARDO II — É aquele da fábrica de salsichas... O frigorífico... Que comprou o terreno da Lapa.
ABELARDO I — Idade?
ABELARDO II — Trinta e nove anos.
ABELARDO I — Nível de vida?
ABELARDO II — Nível baixo ainda. Faz a barba na terrina da sopa, com sabão de cozinha e gilete de segunda mão...
ABELARDO I — Já fala o português?
ABELARDO II — Ainda atrapalha.
ABELARDO I — Gasta menos do que tira dos trabalhadores?
ABELARDO II — Muito menos!
ABELARDO I — Tem filhos grandes?
ABELARDO II — Pequenos ainda.
ABELARDO I — Em bons colégios?
ABELARDO II — Sim. Oiseaux, Sion, São Bento.
ABELARDO I — Bem. Tome nota. Emprestamos enquanto os pequenos estudarem. Quando as filhas começarem o serviço militar nas garçonnières, e o pequeno tiver barata, e Madame souber se vestir, emprestaremos então de preferência à costureira de Madame. O velho aí terá mudado de nível. Possuirá automóvel, casa no Jardim América. Cessaremos pouco a pouco todo o crédito. Nem mais um papagaio! Ele virá aqui caucionar os títulos dos comerciantes a quem fornece. Executarei tudo um dia. Levarei a fábrica, os capitais imobilizados e o ferro velho à praça.
ABELARDO II — E a mulher dirá que foram os operários que os arruinaram.
ABELARDO I — E foram de fato. Eu conto como fator essencial dessas coisas as exigências atuais do operariado. O salário-mínimo. As férias. Que diabo. As tais leis sociais não hão de ser só contra o capital...
ABELARDO II — Não são não. Descanse. Eu entendo de socialismo. Olhe. A lei de férias só deu um resultado. Não há mais salário de semana ou de mês. É por dia de trabalho, ou por contrato. Somando bem, os domingos, feriados e dias de doença eram mais que as férias de hoje.
ABELARDO I — Bem. Guarde esta ficha nos Firmes. Feche o negócio. A mesma taxa. O sistema da casa. Chame a Secretária n.º 3. Quero ditar uma carta.
Abelardo II sai.
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