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  • 26 de jul.
  • 5 min de leitura

Atualizado: 13 de ago.


O Rei da Vela Oswald de Andrade

Texto Original Completo (ortografia atualizada, em domínio público)


1º ATO

Cena 2

ABELARDO I — Não faça entrar mais ninguém hoje, Abelardo.

ABELARDO II — A jaula está cheia... Seu Abelardo!

ABELARDO I — Mas esta cena basta para nos identificar perante o público. Não preciso mais falar com nenhum dos meus clientes. São todos iguais. Sobretudo não me traga pais que não podem comprar sapatos para os filhos...

ABELARDO II — Este está se queixando de barriga cheia. Não tem prole numerosa. Só uma filha... Família pequena!

ABELARDO I — Não confunda, Seu Abelardo! Família é uma coisa distinta. Prole é de proletário. A família requer a propriedade e vice-versa. Quem não tem propriedades deve ter prole. Para trabalhar, os filhos são a fortuna do pobre...

ABELARDO II — Mas hoje ninguém mais vai nisso...

ABELARDO I — É a desordem social, o desemprego, a Rússia! Esse homem possuía uma casinha. Tinha o direito de ter uma família. Perdeu a casa. Cavasse prole! Seu Abelardo, a família e a propriedade são duas garotas que frequentam a mesma garçonnière, a mesma farra... quando o pão sobra... Mas quando o pão falta, uma sai pela porta e a outra voa pela janela...

ABELARDO II — A família é o ideal do homem. A propriedade também. E Dona Heloísa é um anjo!

ABELARDO I — Você sabe que não há outro gênero no mercado. Eu não ia me casar com a irmã mais moça que chamam por aí de garota da crise e de João dos Divãs. Nem com o irmão menor que todo mundo conhece por Totó Fruta-do-Conde!

ABELARDO II — Um degenerado...

ABELARDO I — Coisas que se compreendem e relevam numa velha família! Heloísa, apesar dos vícios que lhe apontam... Você sabe, toda a gente sabe. Heloísa de Lesbos! Fizeram piada quando comprei uma ilha no Rio, para nos casarmos. Disseram que era na Grécia. Apesar disso, ela ainda é a flor mais decente dessa velha árvore bandeirante. Uma das famílias fundamentais do Império.

ABELARDO II — O velho está de tanga. Entregou tudo aos credores.

ABELARDO I — Que importa? Para nós, homens adiantados que só conhecemos uma coisa fria, o valor do dinheiro, comprar esses restos de brasão ainda é negócio, faz vista num país medieval como o nosso! O senhor sabe que São Paulo só tem dez famílias?

ABELARDO II — E o resto da população?

ABELARDO I — O resto é prole. O que eu estou fazendo, o que o senhor quer fazer é deixar de ser prole para ser família, comprar os velhos brasões, isso até parece teatro do século XIX. Mas no Brasil ainda é novo.

ABELARDO II — Se é! A burguesia só produziu um teatro de classe. A apresentação da classe. Hoje evoluímos. Chegamos à espinafração.

ABELARDO I — Bem. Veja o bordereau... O Banco devolveu muita coisa?

ABELARDO II — Xu! Um colosso! Estamos no vinagre, Seu Abelardo!

ABELARDO I — Vamos...

ABELARDO II (Lendo.) — Cinco contos setecentos e setenta. Dr. Carlos Magalhães de Moraes Benevides Fonseca. Chapa única... Reforma-se? Não paga juros há dois meses.

ABELARDO I — Reforma-se.

ABELARDO II — Antunes & Lapa... três contos... já protestei. Mangioni... Luiz. O bicheiro... Dr. João Carlos de Menezes Rocha... dois contos...

ABELARDO I — Pro protesto.

ABELARDO II — Barão de Gama Lima, quinhentos mil-réis...

ABELARDO I — Pro protesto!

ABELARDO II — Moura Melo... setecentos mil-réis.

ABELARDO I — Pro protesto.

ABELARDO II — Abraão Calimério... dez contos.

ABELARDO I — Pro protesto!

ABELARDO II — Carlos Peres... Esta já foi pro pau ontem...

ABELARDO I — Ele não pediu reforma?

ABELARDO II — Não.

ABELARDO I — E por quê?

ABELARDO II — Tomou dois copos de limonada com iodo. Está aqui no jornal. (Procura.) Diz que está em estado de coma, na Santa Casa...

ABELARDO I — Mande o Benvindo fazer a penhora. Depressa. Antes que ele morra e a venda feche...

ABELARDO II — Está certo. Esta é... daquele funcionário público, o Pires Limpo... Ele está limpo e de pires! Mandou a filha aqui.

ABELARDO I — Bonita?

ABELARDO II — Pancadão! Dezoito anos... Cada dente deste tamanho.

ABELARDO I — Mandou a filha? O mês passado veio a mulher.

ABELARDO II — Eu vi. Jeitosa... Mas muito faladeira. Queria saber onde é que o senhor morava, falou na compra da ilha no Rio, onde o senhor vai se casar. Que ia levar de avião uma porção de gente de São Paulo.

ABELARDO I (Batendo o pé numa grande caixa de papelão.) — Que é isto aqui?

ABELARDO II — Formas de chapéu. (Mostra o castiçal de latão.) A penhora de Mme. Lanale. Só tinha isso e aquele candelabro. Quase que não dá para pagar os tiras que ajudaram.

ABELARDO I — E os móveis...

ABELARDO II — Ficaram despedaçados na rua. Eram duas peças velhas, de ferro. Foi um escândalo. O estado-maior teve que agir duro. O povo queria se opor. Juntou gente...

ABELARDO I — Que estado-maior?

ABELARDO II — Os oficiais de justiça...

ABELARDO I — Mas o exemplo ficou!

ABELARDO II — E frutificará.

ABELARDO I — A rua inteira sabe que penhorei porque não me pagaram 200$000. A cidade inteira sabe. Talvez gastasse mais nisso... Que importa? Dura lex, aprendi isso na Faculdade de Direito!

ABELARDO II — Queria que o senhor visse a choradeira! A viúva berrava na janela: Gli orfani! Gli orfani! Non abbiamo più lavoro!

ABELARDO I — O quê?

ABELARDO II — Ela queria dizer que os órfãos não tinham mais o que comer. Tiramos os instrumentos de trabalho.

ABELARDO I — Manhosa...

ABELARDO II — Só se pode prosperar à custa de muita desgraça. Mas de muita mesmo...

ABELARDO I — Se não for assim como garantires os meus depositantes, se não tiro do outro lado? Ofereço juros que os bancos não pagam. Os juros que só alguns pagavam nos bons tempos. 4 e até 5 por cento ao ano!

ABELARDO II — Também o dinheiro corre para aqui!... Lá embaixo a seção bancária está assim!

ABELARDO I — Ofereço boas garantias. E também exijo boas garantias, quando empresto...

ABELARDO II — A 5 e 10 por cento ao mês... Por filantropia! (O telefone.) É seu irmão.

ABELARDO I — Meu advogado.

ABELARDO II (No fone.) — Sim senhor. Está. (Para Abelardo.) Diz que entrou no Fórum com três executivos. Está chamando o senhor...

ABELARDO I (Ao fone.) — Como? Sou eu... Abelardo. O Teodoro? Quer se prevalecer da lei de usura! Grande besta! E pede reforma! Linche esse camarada. Ponha flit nele e acenda um fósforo! (Bate o fone.) Pro pau com esse bandido! Lei contra a usura! Miseráveis Bolchevistas! Por isso é que o país se arruína. E há um miserável que quer se aproveitar dessa iniquidade.

ABELARDO II — Leis sociais...

ABELARDO I — Súcia de desonestos. Intervir nos juros. Cercear o sagrado direito de emprestar o meu dinheiro à taxa que eu quiser! E que todos aceitam. Mais! Que vêm implorar aqui! Sou eu que vou buscá-los para assinar papagaios? Ou são eles que todos os dias enchem a minha sala de espera? Abra a jaula!

Abelardo II obedece de chicote em punho. A porta de ferro corre pesadamente.

(Mais Clientes.)




 
 
 

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