- 20 de out. de 2025
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Atualizado: 10 de abr.

Prefácio
I
O prefácio, assinado pelo intelectual Peçanha Póvoa, parte de uma defesa do ato de publicar como gesto exemplar — ainda que lançado num ambiente dominado pela ignorância e pela indiferença — e identifica aí a raiz do “marasmo literário” nacional. Recorre a argumentos de autoridades literárias, como José de Alencar, para sustentar que “somos de ontem”, sem tradição consolidada, e por isso sujeitos ao desânimo coletivo.
Para explicar as consequências desse quadro, o texto mobiliza imagens contundentes: as artes e as letras como plantas que nascem e morrem nos subterrâneos, como mendigos em festas opulentas, como naves arruinadas ou campanários engolidos por heras diante de palácios soberbos; sinais de uma nação em “último grau de decadência”. Nessa degradação prosperam analfabetos, mercadores de escândalos e demolidores do que é nobre — sobretudo da glória literária, orgulho legítimo de qualquer país.
Em seguida, o texto amplia o foco e problematiza “o público” como entidade histórica e moralmente ambígua. Invoca moralistas e observadores do coração humano (Addison, Balzac, La Bruyère, La Rochefoucauld) para nomear um enigma recorrente: a ingratidão do público, impossível de classificar até pelos naturalistas e políticos modernos.
O retrato que se compõe é o de uma “torre de ventos”: a coletividade que devora a virtude e se prostra diante do vício, que honra lisonjeiros, alimenta mexericos, favorece mentirosos e rebaixa os verdadeiros — como sintetiza a citação poética de Garcia de Resende.
O fecho é cético: essa oscilação do julgamento público acompanha o mundo desde o começo e não se reforma por decreto; diante dela, publicar torna-se, paradoxalmente, tanto um risco quanto uma necessidade.
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