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  • 26 de mar.
  • 7 min de leitura


Memórias de Martha Júlia Lopes de Almeida

Texto Original Completo (em domínio público)


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III

Ao expirar das férias, caí gravemente doente. Desenvolvera-se no cortiço a epidemia terrível de difteria e o sarampo. Minha mãe, enlouquecida, não me desamparava... velava assídua noite e dia, por sua pobre doentinha, evitando o menor golpe de ar, proporcionando todo o possível conforto.

Logo no primeiro dia de doença, correu à casa do médico, de manhã, mas só à noite é que ele apareceu, o que a desesperava de impaciência... eu gemia baixo, enfraquecida e prostrada pela intensidade da febre. Delirei, tive sufocamentos medonhos e só depois de duas semanas pude levantar-me, muito trêmula e muito impertinente. O médico deixou de ir ver-me, mas ofereceu caridosamente seus conselhos sempre que deles precisássemos.

Principiou a convalescença, a época de desejos irrealizáveis e de excitações nervosas. Eu queria tudo o que não possuía, exigia impossíveis àquela pobre mártir, que tinha na voz súplicas e no olhar toda a meiguice de uma alma angélica!

Um dia quis ver a boneca da menina Lucinda, cuja lembrança não sei por que se despertou em meu espírito.

— Quero brincar com Mademoiselle Rosa... Mademoiselle Rosa era a minha ideia fixa.

— Deixa estar, meu amor, dizia a minha incomparável enfermeira, hás de ter também uma boneca assim...

— Mas há de ser já!...

— Já?! Pois sim, vou comprar-te uma agora mesmo...

— Não! Eu só gosto da Rosa!... e chorava.

A Lucinda tinha ido viajar com a família e não podia minha mãe socorrer-se de sua generosidade.

— Não chores, que tornas a ficar pior... descansa, que hás de ter uma boneca muito linda... e marejavam-lhe os olhos de lágrimas. Eu, apesar de muito crescida, não me envergonhava daquelas exigências.

Nem um ralho de minha mãe! Às impertinências manhosas e insuportáveis opunha sua resignação e seu grande medo de me ver outra vez com febre e inerte.

No dia imediato, comprou-me uma boneca; para consolar-me deu-ma embrulhada e pôs-se à espreita, fixando avidamente em mim o seu olhar de santa. Desdobrei com as mãos emagrecidas o papel amarelo, em uma ansiedade nervosa. Quando vi o desejado objeto, levantei os olhos para minha mãe e, como se estivesse em frente de um espelho, vi nela retratada a minha decepção!

A boneca rolou para o soalho, onde permaneceu alguns minutos; depois, em um bom movimento, pedi-a, compus-lhe o vestido de gaze vermelho, salpicado de florinhas de pano, e adormeci com ela nos braços.

Restabeleci-me vagarosamente. Minha mãe redobrava-se de trabalho para pagar-me vinho fino e remédios caros. Era caprichosa, mas demoradíssima no serviço, faltavam-lhe as forças para sacudir o trabalho e desembaraçar-se depressa.

Voltei enfim à aula, agora com preguiça, saudade daquelas horas vazias entre a criançada da vizinha. A Rita entrou nesse ano, levada por mim, que lhe segurava a mãozinha trigueira, com ar vaidoso de proteção.

Dona Anninha estava na sua cadeira de braços sobre o estrado. Em frente dela, em cima da mesa, misturavam-se com os lápis e as lousas raminhos de manjericão, rosas de Alexandria e galhos de alecrim, levados pelas discípulas. As rosas mais finas estavam colocadas num copo cheio de água. As adjuntas riscavam pedras, de cabeça baixa.

Apresentei a Rita à professora, dando-lhe o papelzinho que já viera escrito de casa, com o nome e a naturalidade da pequena.

Eu gozava naquele momento de um prestígio extraordinário; aquele ato simples de matrícula, em que eu intervinha diretamente, fazia-me crescer diante dos olhos parvos da meninada ignorante. Desde então tomei grande preponderância sobre a Rita, que não fazia nada sem meu conselho!

Em cada ano que começa há uma onda nova de meninas, que entram, e um grande vácuo de meninas que saíram, algumas sem uma palavra ao menos de despedida!

Cada dia ocorre-nos à lembrança uma ou outra colega que não tornamos a ver!

É uma impressão delicada e estranha nas crianças essa em que a novidade traz uma certa tristeza indefinível. Felizmente, ainda lá encontrei Clara Sylvestre, com o seu formoso rostinho alvo e rosado, e o cabelo castanho, amarrado no alto com uma fita cor-de-rosa. Mostrava-se agora ciumenta de mim com a Rita e toda ela, só para fazer-me pirraças, se dedicava a uma caboclinha risonha. De vez em quando fazíamos as pazes, e eram então abraços e beijos sem fim.

A professora começou a mostrar predileção por mim, dando-me muitas vezes uma cadeira a seu lado para ajudá-la a tomar a lição das meninas do A-B-C.

Diziam que eu tinha muita paciência e muito jeito. As crianças deram em trazer-me também raminhos de alecrim e perpétuas, mal amarradas com linha.

Assim correu o ano. Chegado o mês de dezembro, tornou a época do descanso. Fiz meu segundo exame, com louvor. Minha mãe, julgando-me suficientemente instruída, quis acostumar-me a ajudá-la, mas viu com tristeza que eu não tinha jeito para os trabalhos a que me propunha.

Mandava-me vigiar a panela, mas a comida queimava-se ou o fogo extinguia-se; olhava-me sem repreender-me e, numa ocasião, disse-me com brandura:

— Tu não nasceste para isto, mas, filha, é preciso que te habitues; bem vês, somos muito pobres e, quando eu morrer, deves saber sustentar-te com dignidade e firmeza.

Ao ouvi-la falar em morte, desatei a chorar e prometi trabalhar; mas no dia seguinte entornei a panela nas brasas, que se apagaram.

Eu tinha então onze anos.

Nessa idade lidava arduamente a Carolina; mas a Carolina era a Carolina! Um anjo condescendente e sofredor, que levava beliscões tendo por isso nódoas negras, em seu corpo de gafanhoto muito branco. A Carolina tinha juízo como uma senhora sensata, e coração imaculado; enfim, a Carolina não entrara nunca em uma casa como a da Lucinda, nem se vira em frente de um espelho, miserável e feia, ao lado de outra menina de sua idade, bela e orgulhosa!

Passei tristemente o resto das férias, e logo no primeiro dia de escola voltei à classe.

Chovia e estavam poucas meninas. Finda a lição, principiei a costura, a bainha de um lenço.

Uma adjunta conversava intimamente com a mestra, em um tom que me permitia ouvi-las sem indiscrição.

Falava de si, de sua vida passada, dando graças a Deus por ter um emprego, cujo ordenado lhe consentia um certo conforto, evitando que o irmão, única pessoa da família, a protegesse dando-lhe coisas olhadas como supérfluas, por mais necessárias que fossem, pela cunhada rapariga invejosa e irônica, segundo frases suas.

— Estou morta por tirar a cadeira — continuava —; só assim viverei tranquila.

A professora animou-a; ela retirou-se com um sorriso satisfeito, e eu fiquei pensativa.

Nessa noite sonhei que era mestra: tinha uma casa grande, com jardim, onde cantavam doidamente, em uma alegria exuberante e abençoada, os passarinhos. Quando acordei disse o sonho à minha mãe. Vi-lhe no rosto lampejar a alegria.

Foi assim que desabrochou em meu espírito essa flor imaculada e santa, de aroma fortalecedor e doce — o amor ao trabalho. Eu projetava fazer fortuna a ensinar meninas! Queria um palacete, com espelhos e móveis esquisitos; atraía-me a figurinha nervosa e brilhante de Lucinda, aquela visão que me plantou na alma o arbusto de negros frutos, cujo sabor me envenenava — a inveja!

Sonhando ser mestra, eu não imaginava o descanso, o repouso ameno que eu daria à minha mãe como recompensa dos grandes sacrifícios feitos por ela para meu bem-estar; eu não pensava em ser útil, em tornar-me necessária, imprescindível: eu não queria ser mestra para não morar em um cortiço mal alumiado, infecto, úmido, nesta terra onde há tantas flores, tanta luz e tantas alegrias. O caso é que, fosse qual fosse a mão que me escreveu no pensamento a resolução de vir a ser professora, pertencesse ela à tentação diabólica do luxo ou à compreensão de um dever, fosse qual fosse, eu a abençoo.

Continuei a estudar e fazia progressos. Os primeiros prêmios eram meus. Dava-os à minha mãe, que os guardava como relíquias em um cofre de madeira, onde tinha o retrato de meu pai e algumas cartas de família, amarelecidas pelo tempo. Por isso dizia-me às vezes sorrindo:

— Nesta caixinha estão o meu passado e o meu futuro.

Uma tarde, voltávamos do colégio, eu e a Rita, quando no meio da rua tivemos de parar estupefatas.

A ilhoa ia entre dois soldados, com o vestido esfarrapado, o cabelo solto, o rosto sangrando, coberto de arranhões. As mangas arregaçadas mostravam os seus braços de lavadeira robusta, avermelhados e musculosos, e havia um tal ar de fúria e de dor no seu olhar, que ela nem viu a filha, que chamava por ela, agarrando-se a mim.

À porta do cortiço havia ajuntamento de povo; algumas pessoas riam-se. O Joaquim vendeiro vociferava, roxo de cólera, empapando num lenço o sangue que lhe escorria do nariz.

Entramos em casa, trêmulas de susto. Soubemos tudo.

O Maneco tinha ido com a mãe ao médico; a ilhoa queixara-se: o pequeno não comia, não dormia, tinha tremuras nas mãos, o ar pasmado, e entrava a emagrecer de uma maneira espantosa. O médico, depois de um rápido exame, declarou o doente incurável. Aquilo era o efeito do vício, já não valia a pena dar-lhe remédios; que o deixasse beber à vontade, a morte não tardaria muito.

A ilhoa voltou arrastando o filho, atirou-o para a cama, recomendou-o à Carolina, e saiu de novo para a rua. Estrangular o Joaquim entre os seus dedos rigorosos era o seu intento, mas devagar, dizendo-lhe mesmo:

— Meu filho vai morrer por tua causa! Mas antes que ele morra hás de tu ir para o inferno!

A venda estava cheia de gente; ela não viu senão o dono, magro, amarelo, alto, perto do balcão seboso. Atirou-se a ele, esmurrando-o num extravasamento de cólera. Caíam copos, garrafas, uma barulheira medonha que ia atraindo os curiosos. Vieram os soldados, separaram-nos às pranchadas e lá a levaram para a polícia com as mãos cheias de sangue e fios da barba do outro.

Dentro da casa, a Carolina chorava baixo, contendo o irmão que teimava em voltar para fora. Ela ouvia tudo, com o coração apertado, mas não faltando aos seus cuidados de menagère. Minha mãe foi acompanhá-la, ajudando-a a deter o Maneco.

Carolina deu o jantar à Rita, obrigou o irmão a tomar um caldo, e arrumou depois tudo no armário, limpando as lágrimas ao pano dos pratos. Numa das voltas, minha mãe notou-lhe:

— Que é que você tem nas pernas, Carolina? Estão inchadas!

— Há muito tempo já que estão assim... cada dia engrossam mais... já não posso calçar as meias. Isto não é nada.

— Já falou ao doutor?

— Não, mas já tivemos aqui uma vizinha com a mesma coisa, e o doutor disse que era da umidade. A gente não pode mesmo morar noutro lugar. Isto não é nada.

Quando se tratava das suas doenças, ela dizia sempre, repetindo-se: isto não é nada.

Só no dia seguinte foi que a ilhoa voltou para perto dos filhos, e mal entrou desafogou-se em lágrimas.




 
 
 

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