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  • 26 de mar.
  • 8 min de leitura


Memórias de Martha Júlia Lopes de Almeida

Texto Original Completo (em domínio público)


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II

Dias depois entrei para a escola pública da minha freguesia.

Na véspera da entrada, participei à Carolina e às irmãs que ia para o colégio, e, no dia seguinte, logo de manhã, foram para a porta ver-me com o meu vestido encarnado, a caminho da aula.

Meu vestido encarnado! Então não me pesava ele nem me queimava o corpo, como dias antes! Ao contrário, fazia-me orgulhosa, superior! Olhei altivamente para minhas companheiras de miséria, sorrindo-me, como sorrira a Lucinda quando a meu lado, em frente ao espelho...

As primeiras horas foram amargas, na classe. Cheguei a chorar; sentia-me triste; no meio de tanta gente experimentava uma sensação dolorosa de isolamento e saudade.

Acostumei-me por fim, e, depois de um mês, aquilo até me divertia.

Dediquei-me principalmente a uma menina mulata que, mais adiantada do que eu, tinha a paciência de ensinar-me as lições.

Ficava a meu lado; era feia, escura, marcada de bexigas, com olhos pequeninos e amortecidos, o cabelo muito encaracolado e curto. Chamava-se Mathilde, teria doze anos e estava havia três na escola; era pouco inteligente e não passava do Segundo Livro de Leitura, por mais esforços que a professora fizesse.

Eu estimava-a muito.

Ela fazia-me repetir as letras, e eram devidos à sua condescendência os meus pequenos triunfos. Um dia, uma condiscípula nossa fez dela uma denúncia horrorosa, afirmando tê-la visto roubar, por várias vezes, ora o lápis de uma, ora uma fruta ou doce do lanche de outras, ora dedais, dinheiro, linhas, etc. O fato é que se sumiam há muito os objetos, sem que se pudesse descobrir nem mesmo suspeitar como.

Interrogada pela professora, Mathilde negou. Nós outras ouvíamos em silêncio, comovidas e curiosas.

Nesse dia desaparecera um par de sapatinhos de lã escarlates, feitos pela adjunta. Revistada a caixa de Mathilde, de entre os livros enodoados e já velhos, saíram eles, com seus lacinhos de cordão e suas borlas a bailar de um lado para outro.

Uma exclamação de espanto encheu a aula: todas as meninas, a um tempo, murmuraram: Ah!

Mathilde não se ajoelhou, nem vacilou sequer; de pé, com a cabeça baixa, esperou a condenação. A mestra fez-lhe um grande discurso, flechou-a de conselhos e de humilhações: pintou-lhe o quadro da desestima de suas companheiras, que só lhe apertariam a mão se a vissem reabilitada.

Mathilde ouviu tudo sem pestanejar; depois foi de castigo para o canto da sala, em pé, exposta a todas as vistas.

Pela primeira vez, eu não soube a lição; faltara-me a pobre pequena, cuja persistência em ensinar-me não diminuíra nunca. No entanto... No entanto, eu, como todas as outras, seguindo-lhes o exemplo, voltei as costas à desgraçada mulatinha e nunca mais lhe dirigi uma única palavra! Isolada, Matihlde tornou-se agressiva, inaturável, e foi de tal excesso em sua raiva e mau modo que a expulsaram do colégio. Vi-a sair, sem que me viessem as lágrimas aos olhos, a mim, que lhe devia tanto; e agora, no fim de trinta e tantos anos, sinto na minha consciência como uma grande nódoa imperecível!

Substituí a Mathilde, na grande convivência colegial, por Clara Sylvestre. A minha nova amiga não me ensinava as lições, mas era alegre, bonita e forte; repartia comigo o seu lanche e eu não a deixava um só instante. Era ela quem aparava o meu lápis, quem me dava os mais lindos cromos e santinhos para os livros, quem me ajeitava o cabelo na hora do recreio, com uma solicitude maternal. Era uma das meninas mais alheadas do colégio, a mais instintivamente coquete. Na bolsa dos livros levava sempre um espelho pequeno e uma boceta de pó de arroz quase do tamanho de uma noz. Eu invejava aquilo e punha-me então a descrever as meias de seda, os bibes bordados e a pompa de Mademoiselle Rosa, inventando intimidades entre mim e a Lucinda. Uma sombra terrível enegrecia o olhar docemente azul de Clara Sylvestre, fitando rapidamente o seu vestidinho de chita e as meias de algodão.

Ter muito luxo era o seu sonho.

Mas aquilo passava depressa, e na sua bondade natural ela vazava no lenço das outras um pouco de água-florida trazida num vidrinho, do lavatório da mãe.

De Carolina e dos irmãos ranhosos não falei nunca no colégio.

Referir-me às filhas da vizinha fora macular a minha reputação. No fundo de minha consciência, porém, não se apagara a cena humilhante em que a bondosa e serena Carolina sofrera castigos por me ter dado com que matar a fome.

Minha mãe vigiava ansiosa os meus progressos; fazia-me repetir muitas vezes a lição e beijava-me com alegria quando a mestra lhe dizia que eu era inteligente.

Ao fim de dois anos fiz exame com desembaraço e firmeza: ficaram atônitas as professoras, que me sabiam tímida e nervosa. Foi um dia de triunfo para mim, que nunca me vira tão bonita, com o cabelo crespo a papelotes, o vestido branco transparente e a fita azul do uniforme a tiracolo. Aquele vestido, aquela fita, quantas horas de trabalho custaram à minha pobre mãe! Hoje vejo-os através das lágrimas de saudade e reconhecimento; então via-os entre os risos da vaidade e da ignorância, a ignorância natural na despreocupação da meninice!

As férias! Todas as minhas condiscípulas falavam com entusiasmo nelas! Uma ia para fora, passá-las com uma tia, no campo; outras, com umas amigas alegres e ruidosas; outra, com uma irmã casada que passeava muito. E faziam projetos, rindo com prazer antecipado.

Eu... Eu sentia-me triste, como se qualquer delas tivesse à espera uns braços mais carinhosos do que os que me esperavam a mim! Temia as longas horas soturnas na alcova úmida e escura, onde desde madrugada até a noite minha mãe trabalhava sem interrupção. Que distrações, que alegria podia prometer-me aquele quadro constante: uma mulher magra, pálida, curvada sobre a tábua, engomando cuidadosamente as roupas dos fregueses exigentes e severos?

As aves não iam cantar ali, como cantavam no jardim do colégio; o sol não entrava arrojado e luminoso pela janela do ensombrado quarto do cortiço, como pelas de moldura envernizada da aula; e, sobretudo, não teria companheiras risonhas e turbulentas: havia de suportar as brutalidades dos vizinhos imundos e, para entreter-me, brincaria de vez em quando com a desgraçada bruxa que fora outrora adorada por mim, mas que votei ao desprezo desde que vi Mademoiselle Rosa.

Emagreci durante o tempo das férias; faltava-me o passeio obrigado, a convivência alegre de outras crianças, as correrias do recreio, o barulho, a vida, a luz! Tornei-me linfática, tinha o pescoço cheio de caroços e os beiços esbranquiçados; veio o fastio, o sono e a doença. Passava as tardes em casa da vizinha, brincando com a Rita e o Maneco, enquanto a Carolina trabalhava. A pobre sofria calada as rebentinas da mãe, estava sempre magra, espigada, e, no seu rosto oval e sardento, os olhos claros derramavam uma tristeza impressionadora. Era a doença, era o cansaço, porque ela, estupidificada pelo meio, nem tinha consciência do sofrimento.

O Maneco cheirava sempre a álcool, tinha a mania de dar beliscões finíssimos que arrancavam bocadinhos de pele à gente. Eu raramente via o pai, que saía de madrugada para o trabalho e só voltava à noite. Aquela ausência ajudava a mergulhar o pequeno no vício. Era o vendeiro da esquina, o Seu Joaquim, quem, para rir, fora ensinando o rapaz a beber. Só a Rita sabia rir ali como criança, mas isso não me bastava, era muito mais nova do que eu, divertia-se com coisas que me enfadavam, e não sabia acompanhar-me nas que me divertiam.

Eu às vezes saía enxotada pela ilhoa, que rogava pragas a todos, confundindo-me com os filhos. Com medo de que minha mãe não me deixasse tornar àquela casa terrível, calava-me e no dia seguinte lá voltava, atraída pela convivência das outras crianças, farta, intumescida do silêncio e da tristeza do meu quarto.

Uma vez, a ilhoa chamou-me, tinha um bom ar alegre no seu comprido rosto enegrecido pelo sol.

— Oh, senhora Martha! — gritou ela de fora à minha mãe — deixe cá vir a sua pequena um nadinha, sim?

Fui: tinham-lhe dado uns doces em casa de uma freguesa e ela repartia-os com a criançada. A sua voz forte, de pronúncia cantarolada salpicada de "us" franceses, nunca me pareceu menos rude. Ela estava em pé no meio do quarto, perto da mesa; a Rita segurava-se-lhe às saias e a Carolina, sentada no chão, com a costura caída nos joelhos, levantava para a mãe o seu rosto comprido de queixo fino. O Lucas, perto da porta, empurrava com o dedo a mãe-benta que já não lhe cabia na boca e, de bochechas inchadas, olhava ainda cobiçosamente para as mãos da ilhoa.

Recebi o meu quinhão e sentei-me a comê-lo perto da Carolina.

— E o Maneco? — indagou a mãe.

— Ainda não veio...

— Mandaste-o fora?

— Não, senhora...

— O demo do rapaz! Deixa-se-lhe aqui o seu bocadinho...

O quarto da ilhoa era dos menos sujos do cortiço. Apesar da criançada, conseguiam ter as coisas mais ou menos em ordem. A Carolina não tinha as mãos paradas nem um instante, era a responsável pela travessura e o desmazelo dos outros.

A parede era toda coberta com gravuras de jornais e cromos comprados aos turcos. Havia uma divisão de tabique separando o quarto de dormir, e ao fundo, em frente à porta da rua, três prateleiras de pinho, cobertas com uma cortina de chita vermelha, guardavam a louça.

— Ó Rita, vai ver se teu irmão está na venda. Querem ver que o diabo do Joaquim está a dar cachaça ao pequeno!

A Rita saiu, mas voltou depressa.

— Maneco já vem aí... — disse ela à mãe, olhando para trás com modo curioso.

Momentos depois a figura magra do Manuel balançava-se na soleira da porta. Vinha lívido, com os braços pendentes, as orelhas despregadas do crânio. Carolina teve um sobressalto, pôs-se de joelhos, a mãe ficou aterrada, à espera; ele entrou aos avanços e recuos, engrolando palavras, curvando muito os joelhos, com o corpo bambo. Toda a serenidade da fisionomia da ilhoa fugiu rápida, subitamente. Olhava para o filho atônita, esfarelando entre os grossos e raivosos dedos os últimos doces.

Ele ria, ria baixo, fincando o queixo no peito da camisa de chita.

A mãe puxou-o num repelão, ele vergou pela cintura mas não caiu, amparado pelos pulsos e os joelhos dela.

— Burro! — gritava a ilhoa com o pescoço congestionado — burro! És a minha vergonha! Preferia que me tivesses entrado morto, pela porta adentro!

E dava-lhe socos.

O Maneco rolou por fim para o chão; a mãe, possessa, batia-lhe sempre, sem atender à Carolina que suplicava, já de pé, com a brancura pálida do linho nas faces magras:

— Mamãe... mamãe!

O corpo mole do Maneco caiu estendido de bruços no assoalho; a mãe, vociferando nomes, bateu-lhe com o pé, como se tivesse dado numa coisa morta; depois, voltando-se, agachou-se num canto, e dali contemplava o filho, silenciosa, com as faces apertadas entre as mãos grosseiras e as lágrimas rolando-lhe pela cara.

A Carolina estava trêmula, e a Rita, espantada, olhava com medo para tudo aquilo.

O Maneco bebia sempre, mas não chegara nunca àquele estado. O que atormentava a mãe era a lembrança de que esse vício fora inoculado no filho pelo vendeiro bruto, que se divertia embriagando as crianças...

— Não sei o que tenho que não dou cabo daquele maldito Joaquim! Foi aquele diabo que perdeu o Maneco... Oh, hei de vingar-me...

Isto dizia entre dentes, raivosamente.

— Mamãe... — murmurou a Carolina, procurando acalmá-la.

— Cala-te!

E, depois de uma pausa e ainda voltada para a filha mais velha:

— Teu avô... o pai de teu pai, que lá o meu era um santinho, morreu cozido das monas que tomava. Sempre tive nojo do velho! Graças a Deus teu pai não tem o vício; e vai o rapaz sair-me assim! Credo! Que inferno!

O Maneco roncou, surda e arrastadamente; no rosto bronzeado da mãe o desprezo e a dor juntaram-se numa expressão terrível. Então a Carolina levantou-se, pegou com dificuldade no irmão, quase do tamanho dela, e levou-o ao colo para dentro. Através do tabique ouvia-se o rosnar dele e o choro baixinho da irmã.

A Rita já tinha sustido por muito tempo a sua alegria vendo desaparecer atrás da porta as pernas finíssimas do Maneco; começou a rir alto: a mãe, furiosa, fez-lhe um gesto de arremesso, ela calou-se atemorizada, e eu fugi.

Uma hora depois rebentava o barulho na casa da vizinha, o marido voltava do trabalho, a discussão começava, como todos os dias, mas desta vez pior, mais prolongada. Minha mãe fechou a janela e a porta, e mandou-me dormir.




 
 
 

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