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  • 22 de fev.
  • 10 min de leitura

Atualizado: 26 de mar.


Memórias de Martha Júlia Lopes de Almeida

Texto Original Completo (em domínio público)


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I

Tenho uma ideia vaga da casa em que nasci e onde morei até aos cinco anos. Um ou outro canto ficou desenhado em meu espírito; quase tudo, porém, se perde num esboço confuso.

Assim as cenas. Entre tantas coisas, tantos tipos e tantas palavras que só refletiram nas minhas pupilas de criança, ou que vibraram em meus ouvidos, que ficou?

Bem pouco!

Lembro-me, por exemplo, de um ângulo de quintal, onde havia um banco tosco e um tanquesinho redondo que servia de bebedouro às galinhas. Era ali que eu lavava as roupas das bonecas. Lembro-me também do papel da salinha de jantar, cheio de chins e de quiosques; de um vão de janela onde se armava o presépio, pelo Natal.

Os quartos, os móveis, os criados, de tudo isso me recordo às vezes, mas numa fugacidade tal que não me fica a sensação da saudade, mas a da dúvida.

Das cenas lembra-me a da mudança: um homem zangado mandando pôr os nossos trastes na rua, e minha mãe chorosa aconchegando-me a si uma vez em que entrei numa alcova onde estava um homem morto, muito magro, lívido, estirado sobre a cama, com um hábito escuro de cordões brancos, as mãos entrelaçadas e o queixo amarrado com um lenço. Era meu pai. Tive medo; minha mãe obrigou-me a beijá-lo. O frio e o cheiro do cadáver deram-me náuseas; quis sair, ela prendeu-me nos seus braços nervosos; supus então que me quisesse fechar com o defunto no mesmo caixão que ali estava já escancarado, e fugi num arranco para o quintal.

Nunca a luz me pareceu tão forte nem o ar livre tão bom.

Com as costas unidas ao muro, os olhos secos de espanto, sufocando as palpitações do meu coração, como se a bulha dele bastasse para chamar sobre mim a atenção da gente de casa, fiquei muda, sentindo por todo o corpo a frialdade daquele cadáver, com a sensação de que me iriam buscar para me embrulharem na sua roupa de espectro, larga, escura, cortada pelos traços longos dos dois cordões brancos.

Na morte, não era o pavor da cova negra o que me assustava mais: era a presença do Pai do Céu, de que me falavam a todo instante, como uma punição para as minhas travessuras e um prêmio para virtudes que eu não conhecia e me pareciam de assombro!

Efetivamente, que ouvia eu desde manhã até à noite?

“Menina, não faça assim que Deus castiga.”

Por isso eu tremia toda, pensando que me queriam levar com meu pai para a presença desse Deus tremendo, inflexível, tão alto que se não pudesse curvar até às minhas faces lacrimosas, para um beijo de perdão ou de piedade.

Já o corpo do finado ia nos solavancos, do carro rua fora, quando minha mãe foi buscar-me; vendo-a, gritei com força que me deixasse, que me deixasse! E debati-me entre os seus braços frágeis. Ela convenceu-me a custo de que me queria na vida para a consolação dos seus dias negros.

Entrei em casa desconfiada.

Da morte de meu pai, eis a medonha sensação que me ficou.

Amei-o? Talvez; mas não me lembro. A convivência era pouca ou nenhuma.

Ele passava a vida em viagens de trabalho, agenciando negócios; eu agarrada às saias de minha mãe e de uma velha mulata religiosíssima, e que toda se desmanchava em contar-me histórias de santos, milagres, tormentas, mistérios, obras divinas e enormes pecados que me faziam tremer!

Não posso acompanhar o movimento de transição da nossa vida, desse tempo para o outro, em que habitamos um cortiço de São Cristóvão.

Aí já minha mãe não tinha criados, nem mesmo a velhinha que nos acompanhava outrora, e que partiu não sei para onde, nem com quem. Lembro-me de que vivíamos nós duas sós; minha mãe engomando para fora, desde manhã até à noite, sem resignação, arrancando suspiros do peito magro, mostrando continuamente as queimaduras das mãos e a aspereza da pele dos braços estragada pelo sabão.

Cresci vagarosamente, como se não me bastasse para o desenvolvimento o espaço estreito daquela alcova, em que, de verão a de inverno, minha mãe trabalhava, vestida com o pobre traje de viúva, já velho e ruço, mal arranjado em seu corpo de tísica, muito delgado.

Eu, às vezes, ia brincar para a porta com umas crianças da vizinhança; mas as pequenas eram brutinhas e magoavam-me os pulsos, puxando com força por mim. Eu caía, chorava alto, minha mãe corria a socorrer-me e levava-me ao colo para dentro. Sentia-lhe a respiração ofegante, as mãos muito quentes e os beiços secos, queimados, que ela unia às minhas faces em beijos longos e sentidos.

— Vês? dizia-me ela, com voz enfraquecida e rouca, arranhaste os joelhos. Deixa-me ver as mãozinhas… estão esfoladas também! E molhava-mas cuidadosamente, como se eu tivesse doença de perigo ou dolorosa, com todo o mimo e desvelo.

Voltava depois ao trabalho; arregaçava as mangas e dava-me uma bruxa de pano e uns retalhos para que eu me entretivesse a fazer-lhe vestidos. Vendo-me sossegada, punha-se a passar e repassar o ferro, muito pesado, ao longo da tábua assentada de um lado no peitoril da janela e do outro nas costas de uma cadeira forte e rústica.

Eu alinhavava uns corpos, uns aventais impossíveis, e acabava por adormecer. Quando abria os olhos, via-me cercada de coisas que não vira pouco antes a meu lado: uma manta a cobrir-me os joelhos, a cabeça sobre o travesseiro e, para que me não importunassem as moscas, um quadrado de escóssia transparente a tapar-me o rosto.

Os dias sucediam-se sem que se notasse a menor alteração em nossa vida.

Levantava-me tarde. Minha mãe deixava-me agasalhada no leito e ia trabalhar silenciosamente.

Nosso almoço era café e pão: café sem leite, muito fraco. O meu quinhão era sempre o maior. Findo o almoço, ia eu, como na véspera, para a porta, atraída pelos gritos alegres das crianças, e dali voltava chorosa, oprimida pela superioridade das outras, muito mais fortes do que eu.

Chamavam-me lesma! Mole! Palerma! E riam-se das minhas quedas, da minha magreza e da minha timidez. Eu em começo estranhava aquela moradia, com tanta gente, tanto barulho, num corredor tão comprido e infecto onde o ar entrava contrafeito, e a água das barrelas se empoçava entre as pedras desiguais da calçada.

Minha mãe não permitia que eu me desembaraçasse como as outras; tinha sempre os olhos em mim; eu sentia-os às vezes como brasas, a queimarem-me a pele. Se eu me desviava um pouco, ela gritava logo:

— Martha, vem cá!

E eu voltava submissa.

No tempo das chuvas, a reclusão que me era imposta dava ainda um tom mais lúgubre à minha solitária infância.

Fui sempre medrosa e dócil.

Minha mãe levava-me poucas vezes consigo, quando saía a entregar a roupa à casa dos fregueses; deixava-me quase sempre com uma vizinha, uma ilhoa bruta, que batia nos filhos e injuriava o marido.

Uma ocasião, assisti a uma cena que não me sairá nunca da memória.

A Carolina, filha mais velha da ilhoa, era compassiva e bondosa. Há flores nos pântanos, e refletem-se muitas vezes na lama os raios das estrelas. Eu gostava dela, que era como que uma asa a proteger-me das maldades dos irmãos mais novos. Nesse dia, ela notou que eu tinha fome: é que já haviam passado quatro horas sobre o meu pobre almoço de café fraco e pão seco. Eu tinha apenas sete anos e nessa idade o apetite não dorme; pois bem, a Carolina, condoída, deu-me um bocado de carne com farinha, dizendo-me ao mesmo tempo umas coisas consoladoras e meigas. Eu devorava verdadeiramente aquele acepipe raro quando a ilhoa chegou.

Vendo-me, perguntou admirada:

— Quem te deu isso?

Eu tinha a boca cheia e não pude responder logo.

A Carolina disse sem titubear, com toda a sua costumada serenidade, que tinha sido ela.

A mãe enfureceu-se e fechando apertadamente as mãos, deu-lhe, com toda a rigidez de seus pulsos de ferro, uma meia dúzia de socos que a deitaram por terra.

A Carolina afirmava que o quinhão que me dera era o seu, só o seu, que ela não tinha vontade de jantar.

— Não me importa — continuava a enraivecida mulher —, bato-te para que saibas que não se mexe na comida sem minha licença!

Desatei a chorar, e foi assim que minha mãe me encontrou.

Chegando a casa, contei-lhe tudo; ela fez-se pálida, teve um ataque de tosse prolongado e violento; depois, ainda anhelante de cansaço, procurou aquietar-me, prometendo que não me deixaria mais, e iria entregar a roupa aos fregueses em minha companhia.

Assim foi. Na primeira semana saí também.

O dia estava quente e luminoso. Eu sentia o calor das pedras da calçada e das paredes das casas onde ia roçando as mãos.

Em mais de meio do caminho, minha mãe parou de repente, ao ver uma senhora muito elegante que se aproximava e puxou-me para dentro de um corredor, dizendo, quase que maquinalmente:

— Deixa-a passar, não quero que me veja assim!...

Ali estivemos alguns minutos, até que tornamos a sair para a rua. A tal senhora sumira-se em uma esquina.

— Quem é? perguntei eu, atônita; quem é aquela senhora tão bonita?

— Era uma amiga minha, respondeu, apertando-me brandamente a mão, a minha pobre mãe.

— Mas então por que não lhe falou?

Minha mãe sorriu, desceu para mim seu olhar doce e úmido, e suspirou sem me dizer mais nada.

A resposta tive-a anos depois, do tempo, da idade, do destino e dos desenganos.

Porque não reconheceria uma senhora rica, elegante, feliz, como uma amiga antiga, a uma mulher decaída, andrajosa quase, e miserável?

Havia entre as duas uma barreira que a minha pequena altura não me permitia dominar. Fui pensando nisso até à casa da freguesa.

Entramos para uma sala de jantar quadrada, com janelas e portas para um terraço de mosaico branco e preto, em xadrez.

A dona da casa cortava uns moldes sobre a mesa, coberta de oleado escuro com ramagens cinzentas e vermelhas. Em um canto, a filha mais velha cosia à máquina um vestido de linho cor-de-rosa clara, guarnecido de rendas. No vão de uma janela, ao lado da moringueira envernizada, uma menina da minha idade vestia, em uma boneca de cara de louça e corpo de pelica, um traje de veludo bronzeado, prendendo-lhe nos cabelos muito louros um laço da mesma cor.

Vendo-me, sentou-se em um banco baixo e pôs-se a tirar de um cofre fatos de seda, de cetim e de caxemira para a sua querida boneca.

Chamou-me, fez-me sentar a seu lado, mais por vaidade que por outra coisa, e desenrolou à minha vista o grande enxoval de Mademoiselle Rosa.

Ria-se muito das minhas exclamações e movia mademoiselle em uns trejeitos graciosos, dizendo palavras amáveis e pretensiosas.

Depois, enfastiada de brincar, falou-me da mestra, das amigas, de uma festa de Natal a que assistira, de caixas de amêndoas forradas de seda, de bombons, de joias, de passeios.

Levou-me à sala, mostrou-me o álbum, os quadros, as jardineiras; sentou-se ao piano e tocou uma lição do método, tendo o cuidado de virar para cima a pedra do anel que, por largo, descaía. Conduziu-me depois para defronte do espelho, um grande espelho que vinha do teto ao chão, tomando uma parede toda.

Como me achei triste e feia ao lado daquela menina da minha idade!

Ela, muito alva, corada, olhos rasgados e brilhantes de alegria e de orgulho, o vestido claro, curto, bibe branco bordado, meias pretas esticadas por cima dos joelhos... Eu, pálida, o cabelo muito liso, feito em uma trança apertada, as pernas magras, as meias de algodão engelhadas, o vestido de lã cor de havana, muito comprido e esgarçado, os sapatos de duraque rotos!

Ela compreendeu-me e demorou-se maldosamente a confrontar-me com altivez. Eu sentia-me humilhada e com vontade de chorar...

Em casa da ilhoa ou em casa da freguesa, caía sobre mim, com todo o peso, o horror da minha incompreendida situação.

Voltamos para dentro; o rol estava conferido, chamavam por nós.

— Lucinda, disse então a dona da casa para a filha mais nova, vai buscar teu vestido encarnado para o dares a esta menina... É novo ainda, continuava ela, voltando-se para minha mãe, mas não vai bem à Lucindinha e o pai não gosta da cor...

Veio o vestido. Enfiaram-me mesmo por cima do outro, para me experimentarem.

— Parece um macaquinho! exclamava Lucinda, desferindo umas risadinhas agudas, a olhar para mim.

Eu corava e tinha ímpetos de o arrancar do corpo. Viravam-me de costas... de frente... de lado... faziam-me levantar os braços, abaixá-los e dobrá-los. Prestei-me como um autômato, indignada sem saber por quê; revoltada, mas submissa e trêmula.

Quando minha mãe agradeceu a esmola, senti parar-me o coração.

Por que não teria eu igual direito a possuir tudo, como a Lucinda, sem pedir ou aceitar esmolas?

E por que me fazia tão mal essa palavra, a mim, que nada conhecia do mundo?

Não bastariam as humilhações da véspera, em casa da Carolina, e a desse dia em frente ao espelho para me fazer compreendida de sobejo?

Quando eu ia a sair, a irmã mais velha de Lucinda apagou-me com um beijo a tristeza que eu sentia na consciência.

Aquele beijo nunca mais me esquece: foi nivelador, foi santo!

As crianças pensam; e as impressões que sentem são as mais duráveis e profundas muitas vezes. Tenho passado por grandes tempestades e nenhuma me deixou mais vestígios do que a que abalou minha meninice, não sendo todavia essa a maior!

Tornei a ir na seguinte semana à casa da freguesa. A Lucinda não estava, fora para o colégio. A mãe tinha separado umas roupas, já curtas e apertadas para a filha, e deu-mas. Dessa vez custou-me menos a receber da caridade. O primeiro passo é sempre o mais difícil em uma vereda desconhecida. Habitua-se a gente a tudo, até ao perigo, até à humilhação!

Perguntaram-me se eu já sabia ler. Minha mãe respondeu que não.

— Mas por que a não mete na escola?! Ela já tem idade de aprender...

— É que eu não podia mandar minha filha tão pobrezinha para a escola... agora que tem esta roupa sim, posso trazê-la asseadinha e levá-la lá.

— Faz bem, faz bem, disseram, afagando-me, as bondosas senhoras.

Voltei nesse dia mais alegre para a nossa tristonha alcova da estalagem de São Cristóvão.

Passei a tarde toda na porta, com as crianças da vizinhança: a Carolina, o Maneco e a Rita.

O Maneco tinha oito anos, era magro, orelhudo e pálido; cheirava sempre a cachaça e vivia fumando as pontas de cigarros encontradas no chão. Era ele quem mais me afligia, e entretanto quem mais me procurava! Quando se ria mostrava as gengivas arroxeadas, como se estivessem cozidas pelo álcool, e os dentes grandes, desiguais, ainda muito novos. Era alto para a idade, mas magríssimo, com o peito fundo, e os braços e as pernas moles.

A irmã mais nova tinha cinco anos, mas podia comigo ao colo, a Rita, já dona de um vasto vocabulário de insultos.

De resto, bonita, morena e engraçada.

A este rancho juntava-se às vezes um mulatinho, o Lucas, mais moço do que eu, muito sujo, e que passava a vida a mentir.

Nesse dia entrei para a roda com ar altaneiro; falei de coisas suntuosas, presentes, doces, vestidos, gozando do olhar de inveja e admiração dos outros.

Só a Carolina parecia não me ouvir; lavava os esfregões das panelas, com o corpo em curva e os braços enterrados na água malcheirosa da tina.




 
 
 

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