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  • 22 de fev.
  • 4 min de leitura

Atualizado: 26 de mar.


Resumo Por Capítulo: Memórias de Martha


I


O livro começa com a narradora adulta tentando reconstituir, a partir de fragmentos, a casa e os primeiros anos de vida: a memória aparece falha, como um desenho incompleto, preservando só certos detalhes materiais (um canto do quintal com banco e tanque das galinhas, o papel de parede da sala de jantar, a janela onde se montava o presépio). Essa lembrança “aos pedaços” não produz exatamente saudade, mas uma sensação de incerteza: ela se recorda e ao mesmo tempo duvida do que foi, como se as imagens não se fixassem inteiras.

A recordação mais viva e traumática é a morte do pai, associada tanto ao choque físico do cadáver (frio, cheiro, náusea) quanto ao medo infantil de ser arrastada para a mesma sorte. A cena é narrada pelo olhar apavorado da criança: a mãe a obriga a beijar o morto, e isso se converte numa fantasia de aprisionamento — ela imagina que será trancada no caixão e foge para o quintal, onde a luz e o ar livre parecem uma salvação absoluta.

O pavor se amplia por conta da ideia de Deus que, repetida como ameaça (“Deus castiga”), havia sido instalada nela como uma presença dura e punitiva; assim, a morte não era só a cova, mas a possibilidade de ser levada à força para um julgamento divino incompreensível. A relação com o pai, aliás, era distante: ela sequer sabe dizer se o amou, porque ele quase não estava em casa, sempre viajando.

Depois desse corte, a vida muda para um cortiço em São Cristóvão, e o texto acompanha a queda social com precisão de rotina e corpo: a mãe, agora sem criados e sem a velha mulata muito religiosa que antes a enchia de histórias de santos e pecados, passa a engomar para fora o dia inteiro, queimando as mãos, estragando a pele com sabão, tossindo, tísica e exausta.

A criança cresce “devagar” num espaço estreito, marcada por fraqueza e timidez, e o ambiente do cortiço surge como barulhento, abafado e sujo, com corredor comprido, ar viciado e água suja empoçada. Ela tenta brincar com as crianças, mas apanha, cai, é chamada de “lesma”, “mole”, “palerma”, e volta chorando — sempre vigiada pela mãe, que a puxa de volta com um chamado que também a nomeia pela primeira vez no relato (‘Martha, vem cá!’), como se seu nome entrasse já ligado à obediência e ao cuidado ansioso.

Em casa, a mãe improvisa brinquedos pobres (boneca de pano, retalhos) e, quando a filha adormece, revela um amor silencioso e protetor: cobre-lhe as pernas, ajeita-lhe a cabeça, coloca uma tela leve para afastar moscas. O tempo, nesse trecho, parece parado: dias iguais, alimentação mínima (café fraco e pão, sem leite), e uma infância de reclusão, medo e docilidade.

A narrativa então destaca duas experiências que dão forma à consciência da desigualdade. A primeira ocorre quando a mãe precisa deixá-la com uma vizinha “ilhoa” violenta. A filha mais velha dessa mulher, Carolina, é descrita como bondosa “flor no pântano”: percebe a fome da narradora e lhe dá um raro pedaço de carne com farinha. O gesto desencadeia brutalidade: a mãe espanca Carolina para afirmar autoridade sobre a comida, e a criança, chorando, internaliza ao mesmo tempo a vergonha de receber e a culpa por ter provocado castigo alheio — a pobreza aparece como um sistema em que até a compaixão é punida.

A segunda experiência vem quando a narradora acompanha a mãe para entregar roupa na casa de uma freguesa. No caminho, a mãe puxa a filha para um corredor ao ver passar uma senhora elegante e não quer ser vista “assim”; a criança não entende, mas a narradora adulta esclarece depois: é a barreira social que impede uma mulher miserável de se reconhecer como igual diante de alguém rico e “feliz”.

Na casa da freguesa, a desigualdade se torna espetáculo: o cenário é amplo, claro, decorado, com piano, álbum, terraço em xadrez; há tecidos finos, bonecas luxuosas e conversa sobre festas, doces, joias e passeios. Ao lado da menina rica, Lucinda, a narradora se enxerga no espelho como “triste e feia”: a descrição dos corpos e roupas (a outra alva, bem vestida, firme; ela pálida, magra, com meias engelhadas e sapatos rotos) transforma a diferença econômica em ferida íntima, uma humilhação que não precisa de discurso — basta o contraste.

Quando a dona da casa decide dar-lhe um vestido que não serve mais à filha, a caridade é vivida como violência simbólica: vestem a roupa nela ali mesmo, examinam seu corpo como se fosse objeto, e Lucinda ri, chamando-a de “macaquinho”. A narradora, sem compreender totalmente as razões, sente indignação e submissão ao mesmo tempo, até que a palavra “esmola” dita pela mãe perfura de vez: ela percebe, com choque, que aquilo não é presente, é concessão, e começa a perguntar por que não teria “igual direito” a possuir coisas sem pedir. A cena é parcialmente reparada por um beijo da irmã mais velha de Lucinda, que ela chama de “nivelador” e “santo”, como se um gesto simples de afeto devolvesse, por instantes, uma humanidade que o rito da caridade havia negado.

O trecho termina ressaltando como as crianças pensam e como certas impressões da infância deixam marcas mais profundas que muitas “tempestades” da vida adulta. Na visita seguinte à freguesa, ela já recebe roupas com menos dor: aprende, com amargura, que a humilhação também habitua, como um caminho em que o primeiro passo é o mais difícil. Essa adaptação abre uma pequena possibilidade: com roupas melhores, a mãe aceita a ideia de colocá-la na escola, não por mudança de destino, mas porque que a filha ao menos podia ir “asseadinha” — a educação surge ligada não ao direito, mas à aparência mínima exigida para ser admitida.

De volta ao cortiço, ela retorna às brincadeiras na porta com as outras crianças (Carolina, Maneco, Rita, Lucas), e aqui aparece outro efeito da desigualdade: por ter passado pela casa rica e recebido roupas, ela se enche de orgulho e começa a falar “altaneira” de coisas luxuosas, provocando inveja e admiração — um modo de compensar a inferioridade sentida. Só Carolina, a mais generosa e castigada, permanece alheia, curvada sobre a tina, lavando esfregões em água fétida, como se o texto encerrasse essa parte contrapondo fantasia de ascensão e dureza cotidiana, vaidade aprendida e trabalho degradante, deixando no ar a sensação de que a infância da narradora é moldada por medo, privação e descobertas precoces sobre classe, vergonha e dependência.




 
 
 

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