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  • 26 de mar.
  • 3 min de leitura


Resumo Por Capítulo: Memórias de Martha


II


O capítulo acompanha a entrada de Martha na escola pública e mostra como esse novo espaço altera rapidamente sua percepção de si mesma e dos outros. O vestido vermelho, que antes lhe causava desconforto e vergonha, passa a ser símbolo de distinção: ao chegar à aula, ela já se sente acima das antigas companheiras de miséria. No começo, porém, a experiência escolar é amarga, marcada por choro, solidão e estranhamento; pouco a pouco, ela se adapta e encontra ali diversão, reconhecimento e uma espécie de promessa de elevação social.

Nesse processo, ganha relevo a figura de Mathilde, uma menina mulata, pobre, pouco bonita e limitada nos estudos, mas que se mostra generosa e paciente com Martha. É graças a ela que a narradora aprende as primeiras lições e conquista seus pequenos êxitos. Quando Mathilde é desmascarada como suposta ladra diante da classe, o ambiente escolar revela toda a sua crueldade moral: a humilhação pública, o discurso disciplinador da professora e, sobretudo, o abandono das colegas. Martha reconhece que também trai a menina, aderindo à condenação coletiva e voltando-lhe as costas, embora lhe devesse muito. O remorso por essa covardia permanece vivo décadas depois, como uma mancha moral que o tempo não apagou.


Depois da queda de Mathilde, Martha se aproxima de Clara Sylvestre, cuja função é bem diferente da antiga colega. Clara não a ajuda intelectualmente, mas lhe oferece afeto, convivência e prestígio simbólico. Bonita, viva e vaidosa, ela encarna uma feminilidade mais graciosa e desejável, fascinada pelo luxo e pelos sinais de elegância. A amizade entre as duas também expõe a força das aparências: Martha, para se valorizar, fantasia intimidades com Lucinda e omite completamente sua convivência com Carolina e os irmãos, como se mencionar aquela origem humilde contaminasse sua reputação. Ainda assim, persiste nela a lembrança culpada da cena em que Carolina sofreu castigo por tê-la alimentado, mostrando que a ascensão social desejada se constrói sobre silêncios, vergonha e ingratidão.


Também é ressaltado o orgulho da mãe diante do progresso escolar da filha. Ela acompanha as lições, incentiva Martha e se alegra ao vê-la reconhecida como inteligente. O exame, feito com segurança ao fim de dois anos, surge como um triunfo importante, mas a narradora adulta relê esse momento com emoção mais funda: já não vê apenas a vaidade infantil do vestido branco e da fita azul, e sim o trabalho sacrificado da mãe para lhe proporcionar aquela dignidade. Há, portanto, um contraste entre a percepção da criança, absorvida pelo brilho da conquista, e a da narradora madura, que enxerga por trás dela o sofrimento materno.


A parte final se detém nas férias, que invertem completamente o encanto do colégio. Enquanto as colegas falam com entusiasmo de viagens, parentes e passeios, Martha retorna a um cotidiano sombrio, fechado e sem alegria, junto da mãe curvada sobre o trabalho. A escola aparece, então, não apenas como lugar de aprendizado, mas como espaço de luz, movimento, companhia e relativa beleza, em oposição ao cortiço, associado à doença, ao abafamento e à tristeza. Longe do ambiente escolar, Martha definha fisicamente e volta a conviver com a família vizinha, sobretudo Carolina, Rita e Maneco.


A narrativa então se aprofunda no drama dessa casa pobre. Carolina surge como figura comovente, consumida pelo trabalho, pelo cansaço e por uma tristeza quase sem consciência de si. Maneco, ainda menino, já está sendo destruído pelo álcool, vício estimulado cruelmente pelo vendeiro da esquina, que o embriaga por diversão. Quando ele volta para casa completamente bêbado, a cena se torna brutal: a mãe, tomada de horror, vergonha e desespero, agride o filho com violência, ao mesmo tempo em que revela sua impotência diante da degradação que se instala na família. O episódio mistura miséria material, brutalização cotidiana e um sofrimento doméstico que não encontra saída, terminando no barulho habitual da discussão conjugal, agora agravada.


No conjunto, o texto mostra como a infância de Martha é moldada por tensões entre pobreza e desejo de ascensão, afeto e vergonha, solidariedade e traição. A escola lhe oferece instrumentos de elevação e também lhe ensina, de modo cruel, a lógica da exclusão. Já o cortiço reaparece como espaço onde a precariedade corrói os corpos, os vínculos e a própria possibilidade de inocência. A narradora adulta revisita tudo isso com lucidez amarga, reconhecendo tanto o fascínio infantil pelos sinais de prestígio quanto as faltas morais que cometeu ao tentar se afastar de sua origem.




 
 
 

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