- 19 de mai.
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Capítulo III
Victor passa a se dedicar quase exclusivamente à filosofia natural, sobretudo à química. Sob influência de Waldman, que se torna para ele uma espécie de amigo e orientador, mergulha nos estudos com intensidade crescente. Mesmo Krempe, apesar de suas maneiras desagradáveis, revela-se útil pelo conhecimento que possui. O entusiasmo inicial, que talvez nascesse mais da admiração por Waldman do que pela ciência, transforma-se em paixão autônoma: Victor trabalha noites inteiras no laboratório, avançando tão depressa que surpreende colegas e professores.
Durante dois anos, ele não retorna a Genebra e se entrega inteiramente ao desejo de descobrir algo novo. Esse isolamento produz resultados: aperfeiçoa instrumentos químicos e conquista prestígio na universidade. Quando já pensa em voltar para casa, sua atenção se fixa na estrutura dos seres vivos e, principalmente, na origem da vida. A pergunta sobre o princípio vital passa a dominá-lo, levando-o da anatomia ao estudo direto da morte, da decomposição e da corrupção dos corpos. Para compreender a vida, ele se aproxima de cadáveres, jazigos e ossários, observando aquilo que normalmente provoca horror.
Dessa investigação obsessiva surge uma descoberta extraordinária: Victor afirma ter encontrado a causa da geração e da vida, tornando-se capaz de animar matéria sem vida. Ele insiste que não se trata de delírio e sugere que a descoberta resultou de etapas claras, embora se recuse a revelar o segredo a Walton. A razão dessa reserva é moral: quer que sua própria história sirva de advertência contra o desejo desmedido de conhecimento, pois entende que a busca por ultrapassar os limites humanos pode conduzir à destruição.
Depois de descobrir esse poder, Victor decide empregá-lo na criação de um ser humano. Apesar das dificuldades técnicas, imagina que, se obtiver sucesso, poderá inaugurar uma nova espécie que o veneraria como criador. Sonha também que, no futuro, talvez consiga restaurar a vida em corpos já destinados à decomposição. Como as partes pequenas dificultariam o trabalho, resolve construir uma criatura gigantesca, de cerca de oito pés de altura, reunindo materiais ao longo de meses.
A partir daí, sua vida se degrada em torno do projeto. Victor trabalha em segredo, em um aposento isolado no alto da casa, recolhendo ossos, frequentando salas de dissecação e matadouros, manipulando restos humanos e animais com repugnância, mas incapaz de parar. Seu corpo emagrece, seu rosto empalidece e seus nervos se abalam. Mesmo quando sente nojo do que faz, uma ansiedade quase frenética o empurra adiante, como se todo o resto de sua humanidade tivesse sido suspenso pela obsessão.
Enquanto isso, o mundo exterior e os laços afetivos desaparecem de sua atenção. O verão é belo e abundante, mas Victor não percebe a natureza, nem escreve regularmente à família, embora saiba que seu silêncio preocupa o pai. Mais tarde, ele reconhece que essa negligência era culpada: qualquer estudo que enfraqueça os afetos, destrua os prazeres simples e rompa a tranquilidade doméstica torna-se impróprio ao espírito humano. Assim, sua reflexão interrompe a narrativa para transformar sua experiência em advertência contra paixões intelectuais que devoram a vida comum.
O capítulo termina com Victor ainda preso ao trabalho, atravessando inverno, primavera e verão sem notar as mudanças da estação. À medida que a criatura se aproxima da conclusão, seu entusiasmo dá lugar à ansiedade e ao sofrimento físico. Ele se compara menos a um artista satisfeito do que a alguém condenado a um trabalho insalubre, dominado por febres, nervosismo e esgotamento. Mesmo assim, acredita que, quando a criação estiver completa, poderá recuperar a saúde por meio de descanso, exercício e distração.
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