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Capítulo III - Uma Corrida de Comitê e Uma Longa História
Alice se encontra na margem junto das aves e dos animais que saíram molhados do lago, todos com uma aparência desgrenhada, irritados e desconfortáveis. A primeira preocupação do grupo é descobrir um jeito de se secar. Alice já conversa com eles como se os conhecesse há muito tempo, e chega até a discutir com o Papagaio, que insiste que, por ser mais velho, sabe mais do que ela, mas se recusa a dizer a própria idade. Em seguida, o Camundongo, que parece ter certa autoridade entre os demais, manda todos se sentarem em círculo para ouvi-lo, prometendo secá-los rapidamente. O método escolhido por ele é recitar um trecho de história antiga, apresentado como “a coisa mais seca” que conhece. Enquanto ele fala sobre Guilherme, o Conquistador, e outros nomes da história inglesa, surgem interrupções e perguntas literais sobre expressões do discurso, especialmente por parte do Pato. Alice, porém, continua se sentindo tão molhada quanto antes, e diz que aquilo não a seca em nada.
Diante disso, o Dodô propõe uma solução mais enérgica: a Corrida de Comitê. Como ninguém sabe exatamente o que é isso, ele resolve demonstrar. Marca um trajeto em círculo, mais ou menos sem precisão, espalha os participantes ao longo dele, e a corrida começa sem sinal de partida definido. Cada um corre quando quer e para quando quer, de modo que não há regra clara nem critério evidente. Depois de cerca de meia hora, quando todos já secaram, o Dodô encerra a atividade e surge a pergunta sobre quem venceu. Ele pensa bastante antes de responder que todos ganharam e que todos devem receber prêmios. Quando perguntam quem dará esses prêmios, ele aponta Alice. Sem saber o que fazer, ela tira do bolso uma caixa de confeitos e distribui um para cada um. Logo observam que a própria Alice também precisa receber um prêmio, e o Dodô então pega um dedal dela, faz um pequeno discurso solene e o devolve como se estivesse lhe concedendo uma honraria importante. Alice percebe o absurdo da situação, mas, como todos estão muito sérios, aceita o dedal com a maior cerimônia que consegue aparentar. Depois disso, os confeitos são comidos em meio a alguma confusão, porque os pássaros maiores reclamam que mal conseguem sentir o gosto e os menores chegam a se engasgar.
Quando todos voltam a se sentar em círculo, Alice lembra o Camundongo de que ele havia prometido contar sua história e explicar por que odeia “G” e “C” (gatos e cães). O Camundongo responde que a sua é uma história longa e triste. Nesse ponto acontece uma confusão gramatical: em inglês, “tale” quer dizer “história”, e “tail” quer dizer “cauda”, mas as duas palavras têm som parecido. Alice entende “tail” no lugar de “tale” e, por isso, em vez de pensar numa narrativa triste, passa a olhar para a cauda do Camundongo e imagina que ele está falando dela. É daí que vem a disposição visual do poema que aparece em seguida, curveando e afinando na página como se fosse uma cauda - é a longa história do Camundongo sobre Fúria querendo levar um camundongo a julgamento e condená-lo à morte. Alice acompanha tudo de forma errada, presa a essa associação com a cauda. Quando ele percebe que ela não está prestando atenção, pergunta no que ela está pensando. Alice, ainda confusa, responde como se estivesse acompanhando uma linha curva e diz achar que ele tinha chegado à “quinta curva”. O Camundongo se irrita, e a confusão continua quando ela entende outra expressão como se ele estivesse falando de um “nó” e se oferece para ajudar a desatá-lo. Ofendido, ele se levanta e vai embora, dizendo que ela o insulta com aquelas bobagens.
Alice tenta se explicar e pede que ele volte para terminar a história, e os outros também pedem, mas o Camundongo apenas se afasta mais depressa. Depois da saída dele, surgem comentários entre os animais: o Papagaio lamenta que ele não tenha ficado, e um Caranguejo velho usa o episódio para dar uma lição à filha sobre manter a calma, o que provoca uma resposta atravessada da jovem Carangueja. Nesse momento, Alice, sem se dirigir a ninguém em particular, diz que gostaria que Diná estivesse ali, porque ela logo traria o Camundongo de volta. O Papagaio pergunta quem é Diná, e Alice, animada, explica que é a gata dela e começa a elogiar sua habilidade para caçar camundongos e pássaros. Isso causa um efeito imediato no grupo: os pássaros e outros bichos, assustados, inventam desculpas e vão se retirando. Uma velha Pega diz que precisa ir para casa por causa do ar da noite, e um Canário chama os filhos para irem embora. Em pouco tempo, Alice fica sozinha outra vez. Então lamenta ter falado de Diná, reconhece que ninguém ali parece gostar da gata e, sentindo-se muito só e abatida, começa a chorar novamente. No fim do trecho, porém, ela ouve ao longe um som de passinhos e levanta a cabeça com esperança, imaginando que talvez o Camundongo tenha voltado para terminar sua história.
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