top of page
  • há 5 dias
  • 3 min de leitura


Resumo Por Capítulo: Alice no País das Maravilhas


Capítulo II - O Lago de Lágrimas


O capítulo inicia com Alice num estado de espanto e descontrole diante da própria transformação física: ao crescer desmesuradamente, ela passa a falar consigo mesma de modo ao mesmo tempo imaginativo e aflito, tentando manter alguma compostura no meio do absurdo. A brincadeira com os próprios pés, tratados como se fossem criaturas separadas que precisariam receber presentes pelo correio, mostra como sua imaginação infantil continua ativa, mas também como sua identidade começa a se fragmentar sob a pressão do estranho. Quando bate a cabeça no teto e percebe que nem assim consegue alcançar o jardim desejado, a frustração explode em choro. As lágrimas, que ganham proporção literal e formam um lago, transformam um sentimento íntimo em cenário concreto: a tristeza de Alice deixa de ser apenas emoção e vira ambiente, obstáculo e punição.

A entrada do Coelho Branco reforça a sensação de deslocamento. Ele aparece apressado, submisso a uma ordem social que Alice ainda não compreende, e foge dela como se ela própria fosse uma ameaça. Isso aprofunda a solidão da personagem e a leva a uma crise mais reflexiva: ao perceber que tudo parece diferente, ela passa a duvidar de si mesma. O centro do capítulo está nesse momento em que a estranheza exterior vira estranheza interior. Alice tenta verificar se continua sendo quem era por meio da memória, do conhecimento escolar e das convenções que organizavam seu mundo, mas tudo falha: a tabuada sai errada, a geografia se embaralha, o poema recitado se transforma em outro. O texto sugere, assim, que sua identidade dependia de referências estáveis — lições, nomes, comparações com outras meninas — e que, quando essas referências vacilam, o próprio “eu” se torna um enigma. A hipótese de ter virado Mabel exprime esse medo infantil de rebaixamento, de perder o que a distingue e de ser reduzida a uma versão menos capaz de si mesma.

Quando Alice percebe que encolheu novamente por causa do leque do Coelho, o capítulo retoma o movimento físico como espelho do emocional: ela oscila de tamanho como oscila de segurança, e cada mudança parece colocá-la em pior situação. O jardim continua inacessível, a chave segue fora de alcance, e o sentimento dominante passa a ser o de impotência diante de regras arbitrárias. Ao cair no lago de lágrimas que ela mesma produziu, o texto torna explícita a ironia do episódio: Alice agora sofre materialmente as consequências do próprio desespero. Há humor nessa ideia de “afogar-se nas próprias lágrimas”, mas o humor não elimina o mal-estar; ao contrário, reforça o caráter ilógico e cruel do mundo em que ela entrou.

A aparição do Rato desloca a narrativa do monólogo para a tentativa de relação com o outro, mas essa tentativa também é marcada por desencontro. Alice procura comunicação de maneira improvisada, usando fórmulas gramaticais e até uma frase em francês, como se o saber aprendido bastasse para resolver uma situação real. No entanto, cada esforço dela esbarra em incompreensão ou ofensa. Ao falar de Diná e depois de um cachorro terrier, Alice revela inocência e egocentrismo infantil: ela insiste em assuntos que lhe parecem agradáveis sem perceber que tocam diretamente o medo e a repulsa do interlocutor. O capítulo mostra, então, que não basta falar; é preciso compreender a experiência do outro, algo que Alice ainda não sabe fazer plenamente. O Rato, por sua vez, surge como figura sensível e ressentida, alguém cuja história de aversão ainda será explicada, e sua reação antecipa que naquele mundo cada criatura carrega uma lógica própria.

No fim, quando vários animais e pássaros também aparecem no lago e seguem com Alice até a margem, o texto amplia o universo da narrativa e prepara uma convivência entre seres distintos, todos reunidos por um acidente comum. O capítulo, como um todo, combina comicidade, inquietação e reflexão sobre identidade. Ele apresenta uma protagonista que tenta raciocinar, impor ordem e manter boas maneiras, mas que se vê continuamente desmentida por um mundo em que corpo, linguagem, memória e relações deixam de obedecer à normalidade.




 
 
 

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação

Os comentários são de responsabilidade dos leitores.
O site se reserva o direito de moderação.

bottom of page