- 30 de mar.
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Alice no País das Maravilhas Lewis Carrol
Texto Original Completo (em domínio público)
Capítulo III - Uma Corrida de Comitê e uma longa história
Era de fato um grupo de aparência estranhíssima o que se reuniu na margem — as aves com as penas encharcadas e desgrenhadas, os animais com o pelo grudado ao corpo, e todos pingando, irritados e desconfortáveis.
A primeira questão, naturalmente, era como tornar a secar: fizeram uma consulta sobre isso, e, depois de alguns minutos, pareceu bastante natural a Alice se ver conversando familiarmente com eles, como se os conhecesse havia a vida toda. Na verdade, ela teve uma discussão bem longa com o Papagaio, que por fim ficou emburrado e só dizia:
— Sou mais velho que você, e portanto devo saber mais.
E Alice não admitia isso sem saber quantos anos ele tinha, e, como o Papagaio se recusou terminantemente a dizer a idade, não havia mais nada a ser dito.
Por fim o Camundongo, que parecia ser uma figura de autoridade entre eles, gritou:
— Sentem-se todos e me escutem! Eu logo vou deixá-los secos o bastante!
Todos se sentaram imediatamente, formando um grande círculo, com o Camundongo no meio. Alice mantinha os olhos ansiosamente fixos nele, pois tinha certeza de que pegaria um belo resfriado se não se secasse logo.
— Hum! — disse o Camundongo com ar importante. — Estão todos prontos? Isto é a coisa mais seca que conheço. Silêncio geral, por favor! “Guilherme, o Conquistador, cuja causa era favorecida pelo papa, logo recebeu a submissão dos ingleses, que precisavam de líderes e ultimamente haviam se acostumado muito à usurpação e à conquista. Edwin e Morcar, os condes da Mércia e da Nortúmbria —”
— Ui! — disse o Papagaio, estremecendo.
— Peço perdão! — disse o Camundongo, franzindo a testa, mas com muita polidez. — Você falou?
— Eu não! — disse o Papagaio depressa.
— Pensei que tivesse falado — disse o Camundongo. — Continuo. “Edwin e Morcar, os condes da Mércia e da Nortúmbria, declararam-se a favor dele; e até Stigand, o patriótico arcebispo de Cantuária, achou aconselhável —”
— Achou o quê? — disse o Pato.
— Achou isso — respondeu o Camundongo, um tanto irritado. — Claro que você sabe o que “isso” quer dizer.
— Eu sei muito bem o que “isso” quer dizer quando eu acho uma coisa — disse o Pato. — Geralmente é uma rã ou um verme. A questão é: o que foi que o arcebispo achou?
O Camundongo não deu atenção a essa pergunta, mas continuou apressadamente:
— “Achou aconselhável ir com Edgar Atheling ao encontro de Guilherme e oferecer-lhe a coroa. A conduta de Guilherme no início foi moderada. Mas a insolência de seus normandos —” Como você está indo agora, minha querida? — continuou, voltando-se para Alice enquanto falava.
— Tão molhada quanto antes — disse Alice em tom melancólico. — Isso não parece me secar nem um pouco.
— Nesse caso — disse solenemente o Dodô, levantando-se —, proponho que a reunião seja suspensa para a adoção imediata de remédios mais enérgicos...
— Fale português! — disse a Aguiazinha. — Não sei o significado da metade dessas palavras compridas e, além disso, nem acredito que você saiba!
E a Aguiazinha abaixou a cabeça para esconder um sorriso; alguns dos outros pássaros soltaram risadinhas audíveis.
— O que eu ia dizer — falou o Dodô em tom ofendido — era que a melhor coisa para nos secar seria uma Corrida de Comitê.
— O que é uma Corrida de Comitê? — perguntou Alice; não que estivesse muito interessada em saber, mas o Dodô tinha parado como se achasse que alguém devia falar, e ninguém mais parecia disposto a dizer coisa alguma.
— Bem — disse o Dodô —, a melhor maneira de explicar é fazer.
E, como você talvez queira experimentar isso algum dia de inverno, eu vou contar como o Dodô fez.
Primeiro ele marcou um percurso, mais ou menos em forma de círculo.
— A forma exata não importa — disse.
E depois todo o grupo foi distribuído ao longo do trajeto, aqui e ali. Não houve “um, dois, três, já”, mas começaram a correr quando quiseram e pararam quando quiseram, de modo que não era fácil saber quando a corrida terminava. No entanto, depois de terem corrido por meia hora, mais ou menos, e já estarem todos perfeitamente secos, o Dodô de repente gritou:
— A corrida acabou!
E todos se aglomeraram em volta dele, ofegantes, perguntando:
— Mas quem ganhou?
A essa pergunta o Dodô não pôde responder sem pensar muito, e ficou um bom tempo sentado com um dedo encostado na testa — a postura em que geralmente se vê Shakespeare nos retratos —, enquanto os outros esperavam em silêncio. Por fim o Dodô disse:
— Todos ganharam, e todos devem receber prêmios.
— Mas quem vai dar os prêmios? — perguntou um verdadeiro coro de vozes.
— Ora, ela, naturalmente — disse o Dodô, apontando Alice com um dedo.
E todo o grupo imediatamente se apertou em volta dela, gritando de maneira confusa:
— Prêmios! Prêmios!
Alice não tinha a menor ideia do que fazer e, em desespero, enfiou a mão no bolso e tirou uma caixa de confeitos — felizmente a água salgada não tinha entrado nela —, e distribuiu-os como prêmios. Havia exatamente um para cada um.
— Mas ela mesma precisa de um prêmio, sabem — disse o Camundongo.
— Claro — respondeu o Dodô muito sério. — O que mais você tem no bolso? — continuou, voltando-se para Alice.
— Só um dedal — disse Alice tristemente.
— Passe-o para cá — disse o Dodô.

Então todos se amontoaram em volta dela mais uma vez, enquanto o Dodô lhe entregava solenemente o dedal, dizendo:
— Rogamos que aceite este elegante dedal.
E, quando terminou esse breve discurso, todos aplaudiram.
Alice achou aquilo tudo muito absurdo, mas todos estavam tão sérios que ela não ousou rir; e, como não conseguia pensar em nada para dizer, simplesmente fez uma reverência e aceitou o dedal, com a maior solenidade que conseguiu aparentar.
A coisa seguinte foi comer os confeitos; isso provocou algum barulho e confusão, pois as aves grandes reclamavam que não conseguiam sentir o gosto dos seus, e as pequenas se engasgavam e precisavam levar tapinhas nas costas. No entanto, afinal terminou, e eles tornaram a sentar-se em círculo e pediram ao Camundongo que lhes contasse mais alguma coisa.
— Você prometeu me contar a sua história, sabe — disse Alice —, e por que é que você odeia — G e C — acrescentou em voz baixa, meio receosa de que ele se ofendesse outra vez.
— A minha é uma história [tale] longa e triste! — disse o Camundongo, voltando-se para Alice e suspirando.
— É uma cauda [tail] comprida, sem dúvida — disse Alice, olhando admirada para a cauda do Camundongo —, mas por que você chama ela de triste?
E ficou quebrando a cabeça com isso enquanto o Camundongo falava, de modo que a ideia que ela fez da história era mais ou menos assim:
[aqui o texto em inglês brinca com a igual sonoridade das palavras “tale” e “tail”, que se referem à história e à cauda do rato, que serão literal e visualmente apresentadas no poema que segue]
```
“Fúria disse a um camundongo, que encontrou na casa: ‘Vamos os dois ao tribunal: eu vou processar você. — Venha, não aceito recusa; tem de haver um julgamento: porque, na verdade, esta manhã não tenho nada para fazer.’ Disse o camundongo ao cão: ‘Um julgamento assim, meu caro senhor, sem júri nem juiz, seria só desperdiçar o nosso fôlego.’ ‘Eu serei juiz, eu serei júri’, disse a astuta velha Fúria: ‘Eu julgarei a causa inteira, e condenarei você à morte.’”
```
— Você não está prestando atenção! — disse o Camundongo severamente a Alice. — Em que está pensando?
— Peço perdão — disse Alice com muita humildade. — Acho que você tinha chegado à quinta curva, não?
— Não tinha, não! — gritou o Camundongo, de modo brusco e muito zangado.
— Um nó! — disse Alice, sempre pronta a ser útil, e olhando ansiosamente ao redor. — Ah, deixe-me ajudá-lo a desatar!
— Não farei nada disso — disse o Camundongo, levantando-se e se afastando. — Você me insulta com essas bobagens!
— Eu não quis dizer isso! — suplicou a pobre Alice. — Mas você se ofende com tanta facilidade, sabe!
O Camundongo apenas resmungou em resposta.
— Por favor, volte e termine a sua história! — Alice gritou atrás dele.
E os outros também se juntaram num coro:
— Sim, por favor!
Mas o Camundongo apenas balançou a cabeça com impaciência e andou um pouco mais depressa.
— Que pena que não quis ficar! — suspirou o Papagaio, assim que ele saiu de vista.
E um Caranguejo velho aproveitou a ocasião para dizer à filha:
— Ah, minha querida! Que isso lhe sirva de lição: nunca perca a calma!
— Cale a boca, mamãe! — disse a jovem Carangueja, um tanto ríspida. — A senhora é capaz de pôr à prova até a paciência de uma ostra!
— Como eu queria que a nossa Diná estivesse aqui, como eu queria! — disse Alice em voz alta, sem se dirigir a ninguém em especial. — Ela logo o traria de volta!
— E quem é Diná, se me permite a pergunta? — disse o Papagaio.
Alice respondeu com entusiasmo, pois estava sempre pronta a falar do seu bichinho de estimação:
— Diná é a nossa gata. E ela é tão ótima para caçar camundongos que você nem imagina! Ah, como eu queria que vocês pudessem vê-la atrás dos pássaros! Ora, ela devora um passarinho num instante!
Esse discurso causou uma sensação notável entre o grupo. Alguns dos pássaros se afastaram na mesma hora: uma velha Pega começou a se embrulhar com todo cuidado, observando:
— Realmente preciso ir para casa; o ar da noite faz mal à minha garganta!
E um Canário chamou em voz trêmula aos filhos:
— Venham, meus queridos! Já passou da hora de todos vocês estarem na cama!
Sob vários pretextos, todos foram se retirando, e logo Alice ficou sozinha.
— Bem que eu podia não ter falado da Diná! — disse para si mesma em tom melancólico. — Parece que ninguém gosta dela aqui embaixo, e eu tenho certeza de que ela é a melhor gata do mundo! Ah, minha querida Diná! Será que ainda vou tornar a vê-la?
E aqui a pobre Alice começou a chorar outra vez, pois se sentia muito sozinha e desanimada. Depois de um tempo, porém, ouviu novamente ao longe um leve ruído de passinhos, e levantou a cabeça com avidez, meio esperando que o Camundongo tivesse mudado de ideia e estivesse voltando para terminar a sua história.
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