Atualizado: 9 de ago.
1984 George Orwell
Texto Original Completo (tradução livre, em domínio público)
Parte 1
Capítulo 2
Ao levar a mão à maçaneta Winston percebeu que havia deixado o diário aberto sobre a mesa. ABAIXO O GRANDE IRMÃO estava escrito por toda parte, em letras quase grandes o suficiente para serem legíveis do outro lado da sala. Era uma coisa inconcebivelmente estúpida de se fazer. Mas, ele percebeu, mesmo em pânico ele não quis borrar o papel cremoso fechando o livro enquanto a tinta ainda estivesse molhada.
Ele respirou fundo e abriu a porta. Instantaneamente uma calorosa onda de alívio o invadiu. Uma mulher sem cor, de aparência abatida, com cabelos finos e o rosto marcado por rugas, estava parada do lado de fora.
— Oh, camarada — começou ela com uma monótona, chorosa entonação de voz —, eu pensei ter ouvido você chegar. Você poderia vir dar uma olhada na nossa pia da cozinha? Ela entupiu e —
Era a Sra. Parsons, esposa de um vizinho do mesmo andar. ("Sra." era uma palavra um tanto desaprovada pelo Partido — você deveria chamar todos de "camarada" —, mas com algumas mulheres o termo era usado instintivamente.) Ela era uma mulher de cerca de trinta anos, mas com aparência bem mais velha. Tinha-se a impressão de que havia poeira nas rugas do rosto dela. Winston a seguiu pelo corredor. Esses reparos amadores eram uma irritação quase diária. As Mansões Vitória eram prédios antigos, construídos em 1930 ou por volta disso, e estavam caindo aos pedaços. O gesso descascava constantemente dos tetos e paredes, os canos estouravam a cada geada forte, o telhado gotejava sempre que chovia, o sistema de aquecimento geralmente funcionava com metade da potência quando não era fechado completamente por motivos econômicos. Reparos, exceto o que você podia fazer por si próprio, tinham de ser aprovados por comissões remotas capazes de atrasar até mesmo o conserto de um vidro por dois anos.
— Claro que é só porque o Tom não está em casa — disse a Sra. Parsons vagamente.
O apartamento dos Parsons era maior que o de Winston, e sombrio de um jeito diferente. Tudo tinha um aspecto desgastado, pisoteado, como se o local tivesse acabado de ser visitado por algum animal grande e violento. Artigos esportivos — tacos de hóquei, luvas de boxe, uma bola de futebol estourada, um par de calções suados virados do avesso — estavam espalhados por todo o chão e, sobre a mesa, havia uma pilha de pratos sujos e cadernos de exercícios com as orelhas dobradas. Nas paredes viam-se bandeiras escarlates da Liga da Juventude e dos Espiões, além de um pôster em tamanho real do Grande Irmão. Havia o habitual cheiro de repolho cozido, comum a todo o edifício, mas atravessado por um aroma mais intenso de suor — o que se percebia logo no primeiro momento, embora fosse difícil dizer como — era o suor de alguém que não estava mais lá. Em outro cômodo, alguém tentava acompanhar com um pente e um pedaço de papel higiênico a música militar que continuava a ser transmitida pela teletela.
— São as crianças — disse a Sra. Parsons, lançando um olhar apreensivo para a porta. — Eles não saíram hoje. E claro —
Ela tinha o hábito de interromper as frases no meio. A pia da cozinha estava quase cheia até a borda com uma água esverdeada e imunda que cheirava pior do que nunca a repolho. Winston ajoelhou-se e examinou a junta angular do cano. Ele detestava usar as mãos, e detestava se abaixar, o que sempre o fazia tossir. A Sra. Parsons observava impotente.
— É claro que, se o Tom estivesse em casa, ele resolveria isso num instante — disse ela. — Ele adora tudo isso. O Tom é muito habilidoso com as mãos.
Parsons era colega de Winston no Ministério da Verdade. Era um homem gordo porém ativo e de uma estupidez paralisante, um amontoado de entusiasmos imbecis — um daqueles completamente inquestionáveis, dedicados trabalhadores dos quais, até mesmo mais que da Polícia do Pensamento, a estabilidade do Partido era dependente. Aos trinta e cinco anos ele acabara de ser despejado contra a vontade da Liga Juvenil, e antes disso conseguira permanecer nos Espiões por um ano além da idade legal. No Ministério ele estava empregado em algum cargo subordinado para o qual não era necessária inteligência, mas por outro lado ele era uma figura de destaque no Comitê de Esportes e em todos os outros comitês envolvidos na organização de caminhadas comunitárias, manifestações espontâneas, campanhas de poupança, e atividades voluntárias em geral. Ele informava com um certo orgulho, entre uma baforada e outra do seu cachimbo, que havia comparecido ao Centro Comunitário todas as noites nos últimos quatro anos. Um cheiro insuportável de suor, uma espécie de testemunho inconsciente da dureza de sua vida, o seguia por onde quer que fosse, permanecendo no ar mesmo depois de sua partida.
— Você tem uma chave inglesa? — perguntou Winston, mexendo na rosca da junta.
— Uma chave inglesa... — disse a Sra. Parsons, transformando-se imediatamente em um ser hesitante. — Eu não sei, tenho certeza. Talvez as crianças —
Houve um estrondo de botas e outra explosão de barulho quando as crianças invadiram a sala de estar. A Sra. Parsons trouxe a chave inglesa. Winston deixou a água escorrer e, com nojo, removeu o emaranhado de cabelo humano que entupira o cano. Limpou os dedos o melhor que pôde na água fria da torneira e voltou para o outro cômodo.
— Mãos para cima! — gritou uma voz selvagem.
Um menino bonito e de aparência durona, de nove anos, surgiu de trás da mesa e o ameaçou com uma pistola automática de brinquedo, enquanto sua irmãzinha, cerca de dois anos ou menos, fazia o mesmo gesto com um pedaço de madeira. Ambos estavam vestidos com shorts azuis, camisas cinza e lenços vermelhos no pescoço que eram o uniforme dos Espiões. Winston ergueu as mãos acima da cabeça, mas com uma sensação incômoda, tão cruel era o comportamento do garoto, de forma que aquilo não parecia apenas um jogo.
— Você é um traidor! — gritou o menino. — Você é um pensacriminoso! É um espião eurasiático! Vou atirar em você, vou vaporizar você, vou mandá-lo para as minas de sal!
De repente ambos começaram a pular em volta dele, gritando "Traidor!" e "Pensacriminoso!", a menina imitando o irmão em cada movimento. Era de certa forma assustador, como o brincar de filhotes de tigre que em breve se tornarão devoradores de homens. Havia uma ferocidade calculada no olhar do menino, um desejo evidente de bater ou chutar Winston e a consciência de ser quase grande o suficiente para fazê-lo. "Ainda bem que não era uma pistola de verdade", pensou Winston.
Os olhos da Sra. Parsons oscilavam nervosamente entre Winston e as crianças. Sob a luz da sala de estar Winston observou com interesse que realmente havia poeira nas rugas do rosto dela.
— Eles fazem muito barulho — disse ela. — Estão desapontados porque não puderam ir ver o enforcamento, é isso. Estou muito ocupada para levá-los, e o Tom não voltará do trabalho a tempo.
— Por que não podemos ir ver o enforcamento? — rugiu o menino com sua voz enorme.
— Quero ver o enforcamento! Quero ver o enforcamento! — cantava a menina, ainda saltitando.
Alguns prisioneiros eurasiáticos, culpados de crimes de guerra, seriam enforcados no parque naquela noite, lembrou-se Winston. Isso acontecia mais ou menos uma vez por mês, e era um espetáculo popular. As crianças sempre imploravam para ser levadas. Ele se despediu da Sra. Parsons e dirigiu-se à porta. Não havia percorrido nem seis degraus no corredor quando algo atingiu a sua nuca num golpe terrivelmente doloroso. Era como se um fio em brasa o tivesse perfurado. Ele se virou a tempo de ver a Sra. Parsons arrastando o filho de volta para a porta enquanto o menino guardava no bolso um estilingue.
— Goldstein! — berrou o garoto assim que a porta se fechou. Mas o que mais impressionou Winston foi a expressão de pavor e impotência no rosto acinzentado da mulher.
De volta ao seu apartamento ele passou rapidamente pela teletela e sentou-se à mesa, esfregando o pescoço. A música havia parado. Em seu lugar, uma voz militar concisa lia em voz alta, com uma espécie de prazer brutal, a descrição do armamento da nova Fortaleza Flutuante recentemente ancorada entre a Islândia e as Ilhas Faroé.
Com aqueles filhos, pensou ele, aquela mulher infeliz deve levar uma vida de terror. Mais um ano, dois anos, e eles estariam vigiando-a noite e dia à procura de sintomas de heterodoxia. Quase todas as crianças hoje em dia eram horríveis. O pior de tudo era que, por meio de organizações como os Espiões, elas eram sistematicamente transformadas em pequenas selvagens ingovernáveis, sem que isso produzisse qualquer tendência de rebelião contra a disciplina do Partido. Pelo contrário, adoravam o Partido e tudo relacionado a ele. As canções, as passeatas, os estandartes, as caminhadas, o treinamento com rifles, os gritos de slogans, a adoração ao Grande Irmão — tudo era um jogo glorioso para elas. Toda a sua ferocidade voltava-se para fora: contra os inimigos do Estado, contra estrangeiros, traidores, sabotadores, pensacriminosos. Tornara-se quase normal que pessoas com mais de trinta anos tivessem medo dos próprios filhos. E com razão, pois dificilmente passava uma semana sem que o The Times publicasse um parágrafo descrevendo como algum pequeno espião bisbilhoteiro — "herói mirim” era o termo geralmente usado — ouvira um comentário comprometedor e denunciara os pais à Polícia do Pensamento.
A dor do tiro de estilingue passou. Ele pegou a caneta sem muita convicção, perguntando-se se encontraria algo mais para escrever no diário. De repente voltou a pensar em O'Brien.
Anos atrás — quanto tempo faz? Devem ter sido sete anos — ele sonhara que caminhava por uma sala completamente escura. Alguém sentado a um canto lhe dissera, ao passar: "Nos encontraremos no lugar onde não há escuridão." Fora dito muito baixinho, quase casualmente — uma afirmação, não uma ordem. Ele continuara andando. O curioso era que, no sonho, as palavras não lhe causaram grande impressão; só mais tarde, e gradualmente, pareceram adquirir importância. Ele não conseguia lembrar se fora antes ou depois desse sonho que vira O'Brien pela primeira vez, nem quando identificara aquela voz como sendo a dele. Mas de toda forma a identificação existia. Fora O'Brien quem falara com ele vindo da escuridão.
Winston nunca pudera ter certeza — mesmo após o olhar trocado naquela manhã ainda era impossível saber se O'Brien era um amigo ou um inimigo. Isso nem parecia importar muito. Havia um elo de compreensão entre eles, mais importante do que o afeto ou o partidarismo. "Nos encontraremos no lugar onde não há escuridão", ele dissera. Winston não sabia o que aquilo significava, apenas que de alguma forma se tornaria realidade.
A voz na teletela fez uma pausa. Um toque de clarim, claro e belo, flutuou no ar estagnado. A voz continuou roucamente:
— Atenção! Sua atenção, por favor! Uma notícia urgente acabou de chegar da frente de Malabar. Nossas forças no sul da Índia conquistaram uma vitória gloriosa. Estou autorizado a dizer que a ação relatada agora pode levar a guerra a uma distância mensurável do seu fim. Aqui estão as últimas notícias...
"Más notícias a caminho", pensou Winston. E, de fato, após uma sangrenta descrição da aniquilação de um exército eurasiático, com números estupendos de mortos e prisioneiros, veio o anúncio de que, a partir da próxima semana, a ração de chocolate seria reduzida de trinta gramas para vinte.
Winston arrotou novamente. O efeito do gim passara, deixando uma sensação de desânimo. A teletela — talvez para celebrar a vitória, talvez para afogar a triste lembrança do chocolate perdido — executou “Oceania, é para ti”. Era obrigatório estar em posição de sentido. De toda forma, em sua posição atual ele estava invisível.
“Oceania, é para ti” deu lugar a uma música mais leve. Winston caminhou até a janela, mantendo as costas viradas para a teletela. O dia continuava frio e claro. Em algum lugar distante uma bomba-foguete explodiu com um rugido abafado, reverberante. Cerca de vinte ou trinta delas caíam sobre Londres por semana no momento.
Lá embaixo na rua o vento fazia o cartaz rasgado balançar para lá e para cá, e a palavra INGSOC aparecia e desaparecia intermitentemente. Ingsoc. Os princípios sagrados do Ingsoc. Novilíngua, duplipensar, a mutabilidade do passado. Sentia-se como se estivesse vagando pelas florestas do fundo do mar, perdido em um mundo monstruoso onde ele próprio era o monstro. Estava sozinho. O passado estava morto, o futuro era inimaginável. Que certeza ele tinha de que uma única criatura humana viva estava do seu lado? Como saber se o domínio do Partido não duraria PARA SEMPRE? Como resposta, os três slogans estampados na fachada branca do Ministério da Verdade voltaram à sua mente:
GUERRA É PAZ
LIBERDADE É ESCRAVIDÃO
IGNORÂNCIA É FORÇA
Ele tirou uma moeda de vinte e cinco centavos do bolso. Ali, também, em minúsculas letras nítidas, os mesmos slogans estavam inscritos, e na outra face da moeda via-se a cara do Grande Irmão. Mesmo das moedas os olhos o perseguiriam. Em moedas, selos, capas de livros, bandeiras, cartazes e embalagens de cigarros — por toda parte. Sempre os olhos observando você e a voz o envolvendo. Dormindo ou acordado, trabalhando ou comendo, dentro de casa ou ao ar livre, no banho ou na cama — não havia escapatória. Nada era seu, exceto os poucos centímetros cúbicos dentro do seu crânio.
O sol mudara de posição, e as inúmeras janelas do Ministério da Verdade, sem a luz incidindo diretamente sobre elas, pareciam sombrias como as frestas de uma fortaleza. Seu coração estremeceu diante da enorme forma piramidal. Era forte demais, não podia ser tomada de assalto. Mil bombas-foguete não a destruiriam. Ele voltou a se perguntar para quem escrevia o diário. Para o futuro, para o passado — para uma era talvez imaginária. E diante dele não jazia a morte e sim a aniquilação. O diário seria reduzido a cinzas e ele próprio vaporizado. Só a Polícia do Pensamento leria o que escrevera, antes de apagá-lo da existência e da memória. Como fazer um apelo ao futuro quando nem mesmo um vestígio, nem uma palavra anônima rabiscada em um pedaço de papel, poderia sobreviver fisicamente?
A teletela bateu quatorze horas. Ele tinha que sair em dez minutos. Precisava estar de volta ao trabalho às quatorze e trinta.
Curiosamente, o toque das horas pareceu dar-lhe novo ânimo. Ele era um fantasma solitário proferindo uma verdade que ninguém jamais ouviria. Mas enquanto pronunciasse essas palavras, de alguma forma obscura a continuidade não seria interrompida. Não era fazendo-se ouvir e sim mantendo a sanidade que se carregava o patrimônio da humanidade. Ele voltou à mesa, molhou a caneta, e escreveu:
Para o futuro ou para o passado, para um tempo em que o pensamento é livre, quando os homens são diferentes uns dos outros e não vivem sozinhos — para um tempo em que a verdade existe e o que foi feito não pode ser desfeito:Da era da uniformidade, da era da solidão, da era do Grande Irmão, da era do duplipensar — saudações!
Já estava morto, refletiu. Parecia-lhe que só agora, quando começara a ser capaz de formular seus pensamentos, dera o passo decisivo. As consequências de cada ato estão incluídas no próprio ato. Ele escreveu:
Pensacrime não implica morte: pensacrime É a morte.
Agora que se reconhecera como um homem morto tornava-se importante permanecer vivo o máximo de tempo possível. Dois dedos de sua mão direita estavam manchados de tinta. Era exatamente o tipo de detalhe que poderia denunciá-lo. Algum fanático intrometido no Ministério (uma mulher, provavelmente: alguém como a baixinha de cabelos cor de areia ou a garota de cabelos escuros do Departamento de Ficção) poderia começar a se perguntar por que ele esteve escrevendo durante o intervalo do almoço, por que usou uma caneta antiquada, O QUE estava escrevendo — e dar uma dica no setor apropriado. Ele foi ao banheiro e esfregou cuidadosamente a tinta com o sabão áspero marrom-escuro que arranhava sua pele como lixa e por isso era mesmo bem adequado a esse propósito.
Guardou o diário na gaveta. Era inútil tentar escondê-lo, mas ele ao menos poderia ter uma forma de saber se sua existência fosse descoberta. Um fio de cabelo estendido na borda da página seria muito óbvio. Com a ponta do dedo ele pegou um grão identificável de poeira esbranquiçada e depositou-o no canto da capa, de onde certamente seria sacudido se o livro fosse movido.
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