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2 de ago.
22 min de leitura

Atualizado: 6 de ago.


1984 George Orwell

Texto Original Completo (tradução livre, em domínio público)


Parte 1

Capítulo 1


Era um dia claro e frio de abril, e os relógios marcavam treze horas. Winston Smith, com o queixo apertado ao peito num vão esforço para escapar do vento vil, esgueirou-se rapidamente pelas portas de vidro das Mansões Vitória, ainda sem rapidez suficiente para impedir que um redemoinho de poeira áspera entrasse junto com ele.

O corredor cheirava a repolho cozido e trapos velhos. Em uma das extremidades um cartaz colorido, grande demais para ser exibido em ambientes internos, havia sido pregado na parede. A imagem retratava simplesmente um rosto enorme, com mais de um metro de largura: o rosto de um homem de cerca de quarenta e cinco anos, com um bigode preto espesso e de aparência robusta e bonita. Winston dirigiu-se às escadas. Não adiantava tentar o elevador. Mesmo nos melhores tempos ele mal funcionava, e atualmente a energia elétrica era cortada durante o dia. Isso fazia parte da campanha de economia que tinha em vista a Semana do Ódio. O apartamento ficava no sétimo andar, e Winston, que tinha trinta e nove anos e uma úlcera varicosa acima do tornozelo direito, foi devagar, descansando várias vezes ao longo do caminho. Em cada patamar, em frente ao poço do elevador, o pôster com o rosto enorme encarava da parede. Era uma daquelas imagens tão bem feitas que os olhos parecem te seguir quando você se mexe. O GRANDE IRMÃO ESTÁ TE OBSERVANDO, dizia a legenda abaixo.

Dentro do apartamento uma voz melodiosa lia uma lista sobre algo relacionado à produção de ferro-gusa. A voz vinha de uma placa metálica oblonga semelhante a um espelho fosco que fazia parte da superfície da parede à direita. Winston acionou um interruptor e a voz diminuiu de certa forma, embora as palavras ainda fossem compreensíveis. O instrumento (a teletela, como era chamada) podia ter o brilho reduzido, mas não havia como desligá-lo completamente. Ele se aproximou da janela: sua pequena, frágil figura, a magreza de seu corpo apenas enfatizada pelo macacão azul que era o uniforme do partido. Seu cabelo era muito claro, seu rosto naturalmente sanguíneo, sua pele áspera devido ao sabão grosseiro e à lâmina cega e ao frio do inverno que acabara de terminar.

Lá fora, mesmo através da janela fechada, o mundo parecia frio. Lá embaixo na rua pequenas correntes de vento rodopiavam poeira e pedaços de papel, e embora o sol brilhasse e o céu fosse de um azul intenso, parecia não haver cor em nada, exceto nos cartazes que estavam colados em todo lugar. O rosto de bigode preto encarava de cima a partir de todos os lugares de destaque. Havia um na fachada da casa imediatamente em frente. O GRANDE IRMÃO ESTÁ TE OBSERVANDO, dizia a legenda, enquanto os olhos escuros fitavam profundamente os do próprio Winston. Lá embaixo no nível da rua outro cartaz, rasgado em um canto, batia inquieto ao vento, ora cobrindo e ora descobrindo a palavra única INGSOC. Ao longe um helicóptero desceu rapidamente por entre os telhados, pairou por um instante como uma mosca varejeira, e disparou novamente com um voo em curva. Era a patrulha policial, bisbilhotando as janelas das pessoas. As patrulhas, porém, não importavam. Só a Polícia do Pensamento seria um problema.

Atrás das costas de Winston a voz na teletela continuava a tagarelar sobre ferro-gusa e o cumprimento folgado do Nono Plano Trienal. A teletela recebia e transmitia simultaneamente. Qualquer som que Winston emitisse, acima do nível de um sussurro muito baixo, seria captado por ela, e mais, desde que ele permanecesse dentro do campo de visão da placa metálica, ele podia ser visto e ouvido. Não havia, é claro, como saber se você estava sendo observado em determinado momento. Com que frequência, ou em que sistema, a Polícia do Pensamento se conectava a qualquer indivíduo era algo a se adivinhar. Era até possível que eles estivessem observando todo mundo o tempo todo. De toda forma eles poderiam conectar seu fio quando quisessem. Você tinha que viver — e vivia, por hábito que se tornou instinto — na suposição de que cada som que você emitisse era ouvido, e, exceto na escuridão, cada movimento era minuciosamente examinado.

Winston manteve as costas viradas para a teletela. Era mais seguro assim; no entanto, como bem se sabe, até mesmo as costas podem ser reveladoras. A um quilômetro de distância o Ministério da Verdade, seu local de trabalho, erguia-se vasto e branco acima da paisagem suja. Isso, pensou ele com uma espécie de vago desagrado — isso era Londres, principal cidade da Faixa Aérea Um, ela própria a terceira mais populosa das províncias da Oceania. Ele tentou evocar alguma lembrança da infância que pudesse lhe dizer se Londres sempre fora assim. Será que sempre existiram estas vistas de casas em ruínas do século XIX, com as laterais escoradas por toras de madeira, suas janelas remendadas com papelão e seus telhados com chapas de ferro ondulado, seus muros de jardim malucos cedendo em todas as direções? E os locais bombardeados onde a poeira de gesso pairava no ar e as ervas se espalhavam pelos montes de entulho; e os lugares onde as bombas haviam devastado uma área maior e ali surgiram colônias sórdidas de moradias de madeira como galinheiros? Mas não adiantava, ele não conseguia lembrar-se: nada restou de sua infância exceto uma série de quadros iluminados que se desenrolavam sem contexto e eram em sua maioria ininteligíveis.

O Ministério da Verdade – Miniver, em Novilíngua [Novilíngua era a língua oficial da Oceania. Para uma descrição de sua estrutura e etimologia veja Apêndice.] – era surpreendentemente diferente de qualquer outro objeto à vista. Era uma enorme estrutura piramidal de concreto branco brilhante, elevando-se, terraço após terraço, 300 metros de altura. De onde Winston estava era possível ler, se destacando em sua superfície branca em letras elegantes, os três slogans do Partido:


GUERRA É PAZ

LIBERDADE É ESCRAVIDÃO

IGNORÂNCIA É FORÇA


O Ministério da Verdade continha, dizia-se, três mil salas acima do nível do solo, e ramificações correspondentes abaixo. Espalhados por Londres havia apenas outros três edifícios de aparência e tamanho semelhantes. Eles ofuscaram tão completamente a arquitetura circundante que do telhado das Mansões Vitória você podia ver os quatro simultaneamente. Eram as sedes dos quatro Ministérios entre os quais todo o aparato do governo era dividido. O Ministério da Verdade, que se ocupava com notícias, entretenimento, educação, e as belas artes. O Ministério da Paz, que se ocupava com a guerra. O Ministério do Amor, que mantinha a lei e a ordem. E o Ministério da Abundância, que era responsável por assuntos econômicos. Seus nomes, em Novilíngua: Miniver, Minipaz, Minamor, e Minabun.

O Ministério do Amor era realmente o mais assustador. Não havia janela alguma nele. Winston nunca estivera dentro do Ministério do Amor, nem a menos de meio quilômetro dali. Era um lugar impossível de entrar, exceto por alguém em assuntos oficiais, e mesmo assim apenas penetrando em um labirinto de emaranhados de arame farpado, portas de aço e ninhos de metralhadoras escondidos. Até mesmo as ruas que davam acesso às suas muralhas externas eram percorridas por guardas mal-encarados em uniformes pretos, armados com cassetetes articulados.

Winston virou-se abruptamente. Ele tinha fixado o rosto na expressão de otimismo sereno que era aconselhável usar ao enfrentar a teletela. Ele atravessou a sala em direção à pequena cozinha. Ao sair do Ministério a essa hora do dia ele havia sacrificado seu almoço na cantina, e ele sabia que não havia comida na cozinha exceto um pedaço de pão escuro que precisava ser guardado para o café da manhã do dia seguinte. Ele pegou da prateleira uma garrafa de líquido incolor com um rótulo branco simples escrito GIN VITÓRIA. Exalava um aroma enjoativo, oleoso, como o de aguardente de arroz chinesa. Winston despejou quase uma xícara de chá cheia, se preparou para o choque, e o engoliu como se fosse uma dose de remédio.

Instantaneamente seu rosto ficou avermelhado e lágrimas escorreram de seus olhos. A substância era como ácido nítrico, e além disso, ao ingeri-la de uma vez a pessoa tinha a sensação de ser atingido na nuca com um bastão de borracha. No instante seguinte, porém, a queimação em seu ventre diminuiu e o mundo começou a parecer mais animado. Tirou um cigarro de um maço amassado de CIGARROS VITÓRIA e descuidadamente o segurou verticalmente, fazendo com que todo seu tabaco caísse no chão. Na tentativa seguinte ele teve mais sucesso. Ele voltou para a sala de estar e sentou-se a uma pequena mesa que ficava em pé à esquerda da teletela. Da gaveta da mesa ele tirou um porta-canetas, um frasco de tinta, e um grosso livro em branco, de tamanho médio, com uma lombada vermelha e capa marmoreada.

Por algum motivo, a teletela na sala de estar estava em uma posição incomum. Em vez de ser colocada, como era normal, na parede do fundo, onde podia dominar toda a sala, estava na parede mais comprida, em frente à janela. De um lado dela havia uma alcova rasa onde Winston estava agora sentado, e que, quando os apartamentos foram construídos, provavelmente já havia sido projetada para acomodar estantes de livros. Ao sentar-se na alcova, mantendo-se bem ao fundo, Winston conseguia permanecer fora do alcance da teletela, ao menos visualmente. Ele podia ser ouvido, claro, mas contanto que permanecesse em sua posição atual não poderia ser visto. Foi em parte essa geografia incomum do quarto que lhe sugerira aquilo que ele estava prestes a fazer.

Mas o livro que ele acabara de tirar da gaveta também sugeria isso. Era um livro particularmente bonito. Seu papel liso e cremoso, um pouco amarelado pelo tempo, era de um tipo que não era fabricado há pelo menos quarenta anos. Ele supunha, no entanto, que o livro era muito mais antigo do que isso. Ele o tinha visto na vitrine de uma casinha desleixada de quinquilharias em um bairro miserável da cidade (qual bairro exatamente ele não lembrava agora) e fora imediatamente tomado por um desejo irresistível de possuí-lo. Os membros do Partido não deveriam entrar em lojas comuns (chamava-se "negociação no livre mercado"), mas a regra não era estritamente mantida, porque havia várias coisas, como cadarços e lâminas de barbear, que era impossível obter de qualquer outra forma. Ele deu uma rápida olhada para os dois lados da rua e depois entrou discretamente e comprou o livro por dois dólares e cinquenta. Naquele momento, não estava consciente de querê-lo para algum propósito específico. Ele o havia levado para casa com sentimento de culpa em sua pasta. Mesmo sem nada escrito nele, era uma posse comprometedora.

O que ele estava prestes a fazer era abrir um diário. Isso não era ilegal (nada era ilegal, já que não havia mais leis), mas se fosse detectado era razoavelmente certo que seria punido com a morte, ou pelo menos com vinte e cinco anos em um campo de trabalhos forçados. Winston encaixou uma caneta no porta-canetas e a puxou para tirar a oleosidade. A caneta era um instrumento arcaico, raramente usado até mesmo para assinaturas, e ele havia conseguido uma, furtivamente e com alguma dificuldade, simplesmente pela sensação de que aquele lindo papel cremoso merecia ser escrito com uma caneta de verdade em vez de ser arranhado permanentemente à lápis. Na verdade ele não estava acostumado a escrever à mão. Tirando anotações muito breves, era comum ditar tudo na comunicação oral e escrita o que era obviamente impossível para o seu presente propósito. Ele mergulhou a caneta na tinta e então hesitou por apenas um segundo. Um tremor percorreu suas entranhas. Gravar o papel era o ato decisivo. Em letras pequenas e desajeitadas, ele escreveu:

4 de abril de 1984.

Ele recostou-se. Uma sensação de completa impotência o invadiu. Para começar, ele não sabia com certeza se era 1984. Devia ser por volta dessa data, já que tinha quase certeza de que sua idade era trinta e nove anos, e acreditava ter nascido em 1944 ou 1945; mas hoje em dia é impossível precisar uma data sem uma margem de erro de um ou dois anos.

De repente, ele se perguntou para quem estava escrevendo aquele diário? Para o futuro, para os que ainda não nasceram. Sua mente vagou por um instante em torno da data duvidosa na página, e então colidiu com o termo em Novilíngua: DUPLOPENSAMENTO. Pela primeira vez, ele percebeu a magnitude do que havia empreendido. Como se comunicar com o futuro? Era impossível por sua própria natureza. Ou o futuro se assemelharia ao presente, caso em que não o ouviriam: ou seria diferente dele, e sua ação seria insignificante.

Por algum tempo ele ficou sentado olhando fixamente para o papel. A teletela tinha mudado para uma música militar estridente. Era curioso que ele parecesse não apenas ter perdido a capacidade de se expressar, mas até mesmo ter esquecido o que pretendia dizer originalmente. Durante semanas ele vinha se preparando para este momento, e nunca lhe ocorrera que qualquer outra coisa fosse necessária exceto coragem. A escrita em si seria fácil. Tudo o que ele tinha que fazer era transferir para o papel o interminável monólogo inquieto que corria dentro de sua cabeça, literalmente há anos. Nesse momento, porém, até o monólogo havia se esgotado. Além disso sua úlcera varicosa começara a coçar de forma insuportável. Ele não ousava coçá-la, porque se o fizesse ela sempre inflamaria. Os segundos estavam passando. Ele não tinha consciência de nada além da página em branco à sua frente, da coceira na pele acima do tornozelo, do som estridente da música e de uma leve sensação de embriaguez causada pelo gim.

De repente ele começou a escrever em puro pânico, apenas vagamente consciente do que estava fazendo. Sua caligrafia pequena e infantil subia e descia desajeitadamente pela página, pendendo desde as letras maiúsculas e finalmente até mesmo os pontos finais:

4 de abril de 1984. Última noite no cinema. Todos filmes de guerra. Um muito bom de um navio cheio de refugiados sendo bombardeado em algum lugar do Mediterrâneo. O público se divertiu bastante com as cenas de um homem enorme e gordo tentando nadar para longe com um helicóptero em seu encalço, pimeiro você o via cambaleando na água como um boto, depois o via através da mira do helicóptero, então ele ficava cheio de buracos e o mar ao seu redor ficava rosa e ele afundava conforme os buracos deixavam a água entrar, a plateia deu gargalhadas quando ele afundou. depois você via um bote salva-vidas cheio de crianças com um helicóptero pairando sobre ele. havia uma mulher de meia-idade talvez uma judia sentada na proa com um menino de cerca de três anos nos braços. menino gritava de medo e escondia o rosto entre os seios dela como se estivesse tentando se enterrar nela e a mulher o abraçava e o confortava embora estivesse roxa de medo, o tempo todo cobrindo-o o máximo possível como se pensasse que seus braços poderiam protegê-lo das balas. então o helicóptero soltou uma bomba de vinte quilos no meio deles clarão terrível e o barco se desfez em pedaços. depois houve uma cena maravilhosa do braço de uma criança subindo subindo subindo pelo ar um helicóptero com uma câmera na ponta deve tê-lo seguido e houve muitos aplausos da plateia do partido mas uma mulher lá embaixo na parte proletária de repente começou a fazer alvoroço e a gritar que não deveriam ter mostrado isso na frente de crianças não era certo na frente das crianças até a polícia tirá-la de lá não creio que tenha acontecido nada com ela ninguém se importa com o que os proletários dizem é uma reação típica do proletariado eles nunca

Winston parou de escrever, em parte porque estava sofrendo de cãibras. Ele não sabia o que o havia levado a despejar aquele monte de lixo. Mas o curioso é que enquanto fazia isso uma memória completamente diferente se esclareceu em sua mente, a ponto de ele quase se sentir capaz de anotá-la. Ele percebeu, então, que fora por causa daquele outro incidente que decidira repentinamente voltar para casa e começar o diário hoje.

Aconteceu naquela manhã no Ministério, se é que algo tão nebuloso poderia ser chamado de acontecimento.

Eram quase onze horas, e no Departamento de Registros, onde Winston trabalhava, estavam arrastando as cadeiras para fora dos cubículos e agrupando-as no centro do salão em frente ao grande telão, em preparação para os Dois Minutos de Ódio. Winston estava assumindo seu lugar em uma das fileiras do meio quando duas pessoas que ele conhecia de vista, mas com quem nunca havia conversado, entraram inesperadamente na sala. Uma delas era uma garota com quem ele frequentemente se cruzava nos corredores. Ele não sabia o nome dela, mas sabia que trabalhava no Departamento de Ficção. Presumivelmente — já que às vezes a via com as mãos oleosas e carregando uma chave inglesa — ela tinha algum trabalho mecânico em uma das máquinas de escrever romances. Era uma garota de aparência ousada, de cerca de vinte e sete anos, com cabelos espessos, rosto sardento e movimentos ágeis, atléticos. Uma estreita faixa escarlate, emblema da Liga Juvenil Anti-Sexo, estava enrolada várias vezes em volta da cintura do seu macacão, apertada o suficiente para realçar as curvas dos seus quadris. Winston desgostou dela desde o primeiro instante em que a viu. Ele sabia o motivo: era por causa da atmosfera de campos de hóquei e banhos frios e caminhadas comunitárias e geral pureza de espírito que ela emanava. Ele desgostava de quase todas as mulheres, especialmente as jovens e bonitas. Eram sempre as mulheres, e sobretudo as jovens, as adeptas mais intolerantes do Partido, engolidoras de slogans, espiãs amadoras e investigadoras de heterodoxias. Mas essa garota em particular lhe dava a impressão de ser mais perigosa do que a maioria. Certa vez quando se cruzaram no corredor ela lhe lançara um olhar rápido de lado que parecera penetrá-lo profundamente e por um instante o encheu de terror absoluto. Passara-lhe pela cabeça a ideia de que ela pudesse ser uma agente da Polícia do Pensamento. Isso, é verdade, era muito improvável. Mas, ele continuava a sentir uma inquietação peculiar, que misturava medo e hostilidade, sempre que ela estava por perto.

A outra pessoa era um homem chamado O'Brien, membro do Partido Interno e ocupante de um cargo tão importante e remoto que Winston só tinha uma vaga ideia de sua natureza. Um silêncio momentâneo tomou conta do grupo reunido em volta das cadeiras ao avistarem o macacão preto de um membro do Partido Interno se aproximando. O'Brien era um homem grande, corpulento com pescoço grosso e um rosto áspero, bem-humorado e brutal. Apesar de sua aparência formidável ele tinha um certo charme nos modos. Possuía o hábito de ajeitar os óculos no nariz que era curiosamente desarmante — e de alguma maneira indefinível, curiosamente civilizado. Era um gesto que, se alguém ainda pensasse nestes termos, poderia lembrar um nobre do século XVIII oferecendo sua caixa de rapé. Winston tinha visto O'Brien talvez uma dúzia de vezes em quase tantos anos. Sentia-se profundamente atraído por ele, e não apenas por estar intrigado pelo contraste entre os modos refinados de O'Brien e seu físico de lutador. Mas muito mais por causa de uma crença secreta — ou talvez nem mesmo uma crença, apenas uma esperança — de que a ortodoxia política de O'Brien não era perfeita. Algo em seu rosto sugeria isso irresistivelmente. Ou ainda, talvez nem fosse heterodoxia que estava impressa em sua face, mas simplesmente inteligência. De qualquer forma ele tinha a aparência de ser alguém com quem você poderia conversar se conseguisse enganar a teletela e ficar a sós com ele. Winston nunca fizera o menor esforço para verificar essa suposição: de fato, não havia como fazê-lo. Nesse momento O'Brien olhou para o relógio de pulso, viu que eram quase onze horas, e evidentemente decidiu ficar no Departamento de Registros até que os Dois Minutos de Ódio terminassem. Ele se sentou em uma cadeira na mesma fileira que Winston, a alguns lugares de distância. Uma pequena, loira mulher que trabalhava na baia ao lado da de Winston estava entre eles. A garota de cabelos escuros sentou-se logo atrás.

No instante seguinte um guincho horrível, estridente, como o de alguma máquina monstruosa funcionando sem óleo, irrompeu da grande tela no fundo da sala. Era um ruído que fazia os dentes rangerem e os pelos se eriçarem na nuca. O Ódio havia começado.

Como de costume, o rosto de Emmanuel Goldstein, o Inimigo do Povo, apareceu na tela. Ouviram-se assobios aqui e ali entre o público. A pequena mulher de cabelos cor de areia soltou um guincho de medo misturado com desgosto. Goldstein era o renegado que, há muito tempo (há quanto tempo, ninguém se lembrava ao certo), tinha sido uma das principais figuras do Partido, quase no mesmo nível do próprio Grande Irmão, e que depois se envolvera em atividades contrarrevolucionárias, fora condenado à morte, e misteriosamente escapara e desaparecera. O programa dos Dois Minutos de Ódio variava de dia para dia, mas não havia nenhum em que Goldstein não fosse a figura principal. Ele era o traidor primordial, o primeiro a profanar a pureza do Partido. Todos os crimes subsequentes contra o Partido, todas as traições, atos de sabotagem, heresias, desvios, surgiam diretamente de seu ensinamento. De alguma forma ele ainda estava vivo e tramando suas conspirações: talvez em algum lugar além do mar, sob a proteção de seus patrões estrangeiros, ou talvez — como ocasionalmente se especulava — escondido na própria Oceania.

O diafragma de Winston se contraiu. Ele nunca conseguia ver o rosto de Goldstein sem uma dolorosa mistura de emoções. Era um rosto judeu magro, com uma grande auréola difusa de cabelos brancos e uma pequena barba — um rosto inteligente e, ainda assim, de alguma forma inerentemente desprezível, com uma espécie de tolice senil no nariz comprido e fino, perto da ponta do qual um par de óculos estava empoleirado. Parecia o rosto de uma ovelha, e a voz, também, tinha uma qualidade balante. Goldstein desferia seu ataque venenoso habitual sobre as doutrinas do Partido — um ataque tão exagerado e perverso que até uma criança seria capaz de perceber, e ainda assim plausível o suficiente para encher qualquer um com o receio alarmante de que outras pessoas, menos sensatas que si mesmos, pudessem ser enganadas. Ele atacava o Grande Irmão, denunciava a ditadura do Partido, exigia a conclusão imediata da paz com a Eurásia, defendia a liberdade de expressão, de imprensa, de reunião e de pensamento, e gritava histericamente que a revolução fora traída — tudo isso em uma fala rápida e polissilábica que parodiava o estilo habitual dos oradores do Partido, contendo inclusive palavras em Novilíngua: mais palavras em Novilíngua, aliás, do que qualquer membro do Partido usaria na vida real. E durante todo esse tempo, para que não houvesse dúvida quanto à realidade que a conversa fiada de Goldstein encobria, por trás de sua cabeça a teletela transmitia as intermináveis colunas do exército eurasiático: fileiras de homens de aparência robusta com rostos asiáticos inexpressivos, que surgiam na superfície da tela e desapareciam, substituídos por outros exatamente iguais. O som abafado e rítmico das botas dos soldados formava o pano de fundo para a voz estridente de Goldstein.

Antes que o Ódio tivesse prosseguido por trinta segundos, exclamações incontroláveis de raiva irromperam de metade das pessoas na sala. O rosto de ovelha autossatisfeito na tela, e o poder aterrador do exército eurasiático por trás dele, eram demais para suportar: além disso, a simples visão ou o pensamento em Goldstein provocava medo e raiva automaticamente. Ele era um objeto de ódio mais constante do que a Eurásia ou a Lestásia, já que quando a Oceania estava em guerra com uma dessas potências geralmente estava em paz com a outra. Mas o estranho era que embora Goldstein fosse odiado e desprezado por todos, embora todos os dias e mil vezes por dia, em palanques, na teletela, nos jornais, nos livros, suas teorias fossem refutadas, destroçadas, ridicularizadas e expostas ao olhar público como a lamentável bobagem que eram — apesar de tudo isso, sua influência jamais parecia diminuir. Sempre havia novos tolos esperando para ser seduzidos por ele. Nunca passava um dia sem que espiões e sabotadores agindo sob suas ordens fossem desmascarados pela Polícia do Pensamento. Ele era o comandante de um vasto exército misterioso, uma rede subterrânea de conspiradores dedicados à derrubada do Estado. A Irmandade, como era chamada. Também corriam boatos sobre um livro terrível, um compêndio de todas as heresias, do qual Goldstein era o autor e que circulava clandestinamente. Era um livro sem título. As pessoas se referiam a ele simplesmente como O LIVRO. Mas todos sabiam dessas coisas apenas por meio de boatos vagos. Nem a Irmandade nem O LIVRO eram assuntos que qualquer membro comum do Partido mencionaria se houvesse uma maneira de evitar.

No segundo minuto o Ódio atingiu o ápice do frenesi. As pessoas saltavam e se agitavam em seus lugares gritando a plenos pulmões na intenção de abafar a voz irritante e estridente da tela. A pequena mulher de cabelos cor de areia ficou rosa brilhante, abrindo e fechando a boca como um peixe fisgado. Até o rosto pesado de O'Brien ficou corado. Ele estava sentado bem ereto, com o peito musculoso estufado e tremendo como se enfrentasse o ataque de uma onda. A garota de cabelos escuros atrás de Winston começou a gritar "Porco! Porco! Porco!" e de repente pegou um pesado dicionário de Novilíngua e o atirou contra a tela. O livro atingiu o nariz de Goldstein e ricocheteou; a voz continuou inexoravelmente. Num momento de lucidez Winston percebeu que também estava gritando com os outros e chutando violentamente o travessão de sua cadeira. O pior dos Dois Minutos de Ódio não era a obrigação de fingir, mas, pelo contrário, a impossibilidade de evitar a participação. Em trinta segundos qualquer disfarce se tornava desnecessário. Um êxtase horrendo de medo e vingança, um desejo de matar, torturar, esmagar rostos com uma marreta, parecia fluir por todo o grupo como uma corrente elétrica, transformando cada um, mesmo contra sua vontade, em um lunático gritando e fazendo caretas. E no entanto a raiva que se sentia era uma emoção abstrata e sem direção, que podia ser transferida de um objeto para outro como a chama de um maçarico. Assim, num instante o ódio de Winston não se voltou contra Goldstein, mas, pelo contrário, contra o Grande Irmão, o Partido e a Polícia do Pensamento; e nesses momentos seu coração se compadecia do herege solitário, ridicularizado na tela, único guardião da verdade e da sanidade em um mundo de mentiras. Contudo no instante seguinte ele estava em sintonia com as pessoas ao seu redor, e tudo o que se dizia sobre Goldstein parecia-lhe verdade. Naqueles momentos seu ódio secreto pelo Grande Irmão se transformava em adoração, e o Grande Irmão parecia se erguer imponente, um protetor invencível, destemido, firme como uma rocha contra as hordas da Ásia, enquanto Goldstein, apesar de seu isolamento, sua impotência, e da dúvida que circulava sobre sua real existência, parecia um feiticeiro sinistro, capaz de destruir a estrutura da civilização apenas com o poder de sua voz.

Era até possível, em certos momentos, mudar o rumo do ódio por um ato de vontade. Subitamente, com o tipo de esforço violento com que se arranca a cabeça do travesseiro em um pesadelo, Winston conseguiu transferir seu ódio do rosto na tela para a garota de cabelos escuros atrás dele. Belas, vívidas alucinações passaram por sua mente. Ele a açoitaria até a morte com um cassetete de borracha. A amarraria nua em um poste e a cravaria de flechas como São Sebastião. Ele a violentaria e cortaria sua garganta no momento do clímax. Melhor que antes, ainda melhor, ele percebeu POR QUE a odiava. Ele a odiava porque ela era jovem e bonita e assexuada, porque ele queria ir pra cama com ela e nunca o faria, porque em volta de sua cintura flexível, que parecia convidá-lo a circundar com seu braço, havia apenas a odiosa faixa escarlate, símbolo agressivo de castidade.

O Ódio atingiu seu clímax. A voz de Goldstein transformou-se no balido real de uma ovelha, e por um instante seu rosto assumiu a forma do animal. Em seguida essa imagem se fundiu na figura de um soldado eurasiático avançando, enorme e terrível, com sua metralhadora rugindo, parecendo sair da tela, a ponto de alguns na primeira fila recuarem em seus assentos. Mas no mesmo instante, trazendo um profundo suspiro de alívio a todos, a figura hostil dissolveu-se no rosto do Grande Irmão, cabelos e bigodes negros, cheio de poder e calma misteriosa, tão vasto que preenchia quase a tela inteira. Ninguém ouviu exatamente o que ele dizia. Eram apenas palavras de encorajamento, do tipo que são ditas no calor da batalha, indistinguíveis individualmente mas que restauravam a confiança pelo simples fato de serem proferidas. Então o rosto do Grande Irmão desapareceu e deu lugar aos três slogans do Partido em letras maiúsculas:


GUERRA É PAZ

LIBERDADE É ESCRAVIDÃO

IGNORÂNCIA É FORÇA


Mas o rosto do Grande Irmão parecia persistir por vários segundos na tela, como se o impacto provocado nos olhos de todos fosse vivo demais para sumir de imediato. A pequena mulher de cabelos cor de areia atirou-se sobre o encosto da cadeira à sua frente. Com um murmúrio trêmulo que soava como "Meu Salvador!" ela estendeu os braços em direção à tela. Então enterrou o rosto em suas mãos. Ela parecia estar em oração.

Nesse momento todo o grupo irrompeu em um profundo, lento e rítmico canto de "G-I!...G-I!..." — repetidamente, muito lentamente, com uma longa pausa entre o “G” e o "I" — um som pesado, murmuroso e curiosamente selvagem, ao fundo do qual parecia ouvir-se o pisar de pés descalços e o bater de tambores. Por cerca de trinta segundos eles continuaram assim. Era um refrão comum em momentos de emoção avassaladora. Parcialmente como um tipo de hino à sabedoria e majestade do Grande Irmão, mas sobretudo como um ato de auto-hipnose, um afogamento deliberado da consciência por meio do ruído rítmico. As entranhas de Winston gelavam. Nos Dois Minutos de Ódio ele não conseguia evitar compartilhar do delírio geral, mas esse canto subhumano de "G-I!...G-I!" sempre o enchia de terror. É claro que ele cantava junto: era impossível fazer o contrário. Disfarçar os sentimentos, controlar a expressão facial, fazer o que todos faziam, era uma reação instintiva. Mas houve um intervalo de alguns segundos durante o qual a expressão de seus olhos poderia tê-lo traído. E foi exatamente nesse momento que o fato significativo ocorreu — se é que, realmente, ocorreu.

Por um instante ele cruzou o olhar com O'Brien. O'Brien havia se levantado. Tirou os óculos e os ajeitava no nariz com seu gesto característico. Mas houve uma fração de segundo em que seus olhares se encontraram, e então imediatamente Winston soube — sim, ele SABIA! — que O'Brien estava pensando a mesma coisa que ele. Uma mensagem inconfundível fora transmitida. Era como se ambas mentes tivessem se aberto uma para a outra e seus pensamentos fluíssem de uma a outra através de seus olhos. "Estou com você", O'Brien parecia dizer a ele. "Sei exatamente o que sente. Sei tudo sobre o seu desprezo, seu ódio, seu nojo. Mas não se preocupe, eu estou do seu lado!" E então aquele lampejo de compreensão se foi, e o rosto de O'Brien voltou a ser tão indecifrável quanto o de qualquer outro.

Foi só isso, e Winston já nem tinha certeza se acontecera de fato. Incidentes assim nunca tinham continuação. Serviam apenas para manter viva a crença, ou esperança, de que outros também eram inimigos do Partido. Talvez os boatos sobre vastas conspirações subterrâneas fossem verdadeiros afinal — talvez a Irmandade realmente existisse! Era impossível, apesar de todas as prisões e execuções, ter certeza de que a Irmandade não era simplesmente um mito. Alguns dias ele acreditava nela, em outros dias não. Não havia evidências, apenas vislumbres fugazes que podiam significar algo ou nada: trechos de conversas ouvidas por acaso, rabiscos fracos em paredes de banheiros — ou, até mesmo, quando dois estranhos se encontravam, um pequeno movimento de mão que parecia com algo que poderia ser um sinal de reconhecimento. Era tudo palpite: muito provavelmente ele imaginara tudo. Ele voltara para seu cubículo sem olhar para O'Brien novamente. A ideia de dar continuidade àquele contato momentâneo duramente passava por sua cabeça. Por um segundo, ou dois, eles haviam trocado um olhar equívoco, e esse fora o fim da história. Mas mesmo isso fora um evento memorável, na solidão em que ele era obrigado a viver.

Winston se recompôs e endireitou a postura. Soltou um arroto. O gim subia de seu estômago.

Seus olhos voltaram à página. Ele descobriu que enquanto permanecia refletindo continuara escrevendo, como que de forma automática. Sua caligrafia não era mais a mesma, apertada e desajeitada como antes. Sua caneta escorregara voluptuosamente sobre o papel liso, imprimindo em letras maiúsculas grandes e nítidas —


ABAIXO O GRANDE IRMÃO

ABAIXO O GRANDE IRMÃO

ABAIXO O GRANDE IRMÃO

ABAIXO O GRANDE IRMÃO

ABAIXO O GRANDE IRMÃO


repetidamente, preenchendo metade da página.

Ele não pôde evitar uma pontada de pânico. Era absurdo, já que escrever aquelas palavras não era mais perigoso do que o ato inicial de abrir o diário, mas por um momento ele se sentiu tentado a arrancar as páginas e abandonar todo o projeto.

Ele não o fez, porém, porque sabia que era inútil. Escrever "ABAIXO O GRANDE IRMÃO", ou evitar fazê-lo, não fazia diferença. Continuar com o diário, ou não continuar, não fazia diferença. A Polícia do Pensamento o pegaria da mesma forma. Ele havia cometido — e ainda o teria cometido, mesmo que nunca tivesse tocado a caneta no papel — o crime essencial que continha todos os outros em si. Pensacrime, como chamavam. O Pensacrime não podia ser ocultado para sempre. Você podia se esquivar por um tempo, até por anos, mas cedo ou tarde eles acabariam pegando você.

Era sempre à noite — as prisões invariavelmente aconteciam à noite. Um sobressalto repentino, a mão áspera sacudindo seu ombro, as luzes nos seus olhos e o círculo de rostos duros ao redor da cama. Na vasta maioria dos casos não havia julgamento, nem registro da prisão. As pessoas simplesmente desapareciam, sempre durante a noite. Seu nome era removido dos registros, todo o registro de tudo o que você jamais houvesse feito era apagado, sua existência era negada e esquecida. Você era abolido, aniquilado: VAPORIZADO era a palavra usual.

Por um instante, ele foi tomado por uma espécie de histeria. Ele começou a escrever em um rabisco apressado:

vão me atirar não me importo vão me dar um tiro na nuca não me importo abaixo o grande irmão eles sempre atiram na sua nuca eu não ligo abaixo o grande irmão —

Ele recostou-se na cadeira, envergonhado, e descansou a caneta. O instante seguinte foi abrupto. Uma batida na porta.

Já! Ele ficou sentado quieto como um rato, na vã esperança de que quem quer que fosse fosse embora após a primeira tentativa. Mas não, as batidas se repetiram. Adiar seria o pior. Seu coração batia como um tambor, mas seu rosto, por hábito, permanecia inexpressivo. Ele se levantou e caminhou pesadamente em direção à porta.




 
 
 

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