- 29 de ago. de 2024
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Atualizado: 30 de mai. de 2025

Romance LXXXIV ou Dos cavalos da Inconfidência
No poema os cavalos são personificados e descritos de maneira quase mística, como testemunhas silenciosas da história. A repetição da frase "Eles eram muitos cavalos" ao longo do poema sublinha a onipresença e a importância desses animais no contexto da Inconfidência Mineira. Os cavalos, com suas crinas ao vento e seus olhos tranquilos, são apresentados como parte integrante do cenário natural das serras e dos rios de Minas Gerais, e como participantes involuntários dos eventos históricos.
Os cavalos, ao transportarem coronéis, magistrados, poetas, e outras figuras importantes da época, tornam-se observadores passivos das intrigas, segredos e paixões humanas. Através de seu galope, eles conectam diversos pontos geográficos importantes, como Mariana, Serro Frio, Vila Rica e Rio das Mortes, demonstrando a extensão e a complexidade do movimento inconfidente. Eles também são descritos como ouvintes das músicas e dos lamentos dos escravos, ressaltando a presença da escravidão e o sofrimento humano que permeava aquele período.
No desenrolar do poema, os cavalos são apresentados como testemunhas de momentos cruciais da Inconfidência, desde o transporte de mensagens e esperanças até a observação silenciosa das execuções e das penas impostas aos inconfidentes. A referência ao Alferes (Tiradentes) cortado em pedaços é um dos momentos mais marcantes do poema, reforçando a brutalidade da repressão colonial e o sacrifício dos inconfidentes.
Ao final, Meireles lamenta o esquecimento desses cavalos, que, apesar de sua importância, não têm seus nomes, pelagens ou origens lembrados. Eles são misturados à natureza, aos montes, campos e abismos, como parte de um ciclo inevitável de vida e morte. A imagem dos cavalos cumprindo seu "duro serviço" até o fim, sem consciência de exílio ou morte, confere ao poema uma nota de resignação e inevitabilidade, refletindo a dura realidade enfrentada pelos participantes da Inconfidência Mineira.
Assim, Cecília Meireles utiliza a figura dos cavalos para tecer um elo entre a natureza, os eventos históricos e o destino dos seres humanos, criando um panorama lírico e profundo da Inconfidência Mineira e dos seus desdobramentos.
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