- 28 de ago. de 2024
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Atualizado: 30 de mai. de 2025

Romance LXVIII ou De outro maio fatal
Cecília Meireles evoca o mês de maio, que simboliza tanto a transitoriedade quanto a renovação, mas aqui é marcado por um tom de fatalidade e tristeza. A ausência dos cantos da calhandra e do rouxinol, aves tradicionalmente associadas à alegria e ao renascimento, reforça o ambiente de melancolia e lamento que permeia o poema. A referência ao pastor, uma figura que representa inocência e simplicidade, contrasta com a dura realidade da prisão e da traição, elementos centrais na narrativa do poema.
O poema também captura a atmosfera de Vila Rica (atual Ouro Preto), um importante centro da Inconfidência Mineira. A cidade, descrita com suas "pontes sonolentas" e "riachos torcidos", é um símbolo da riqueza e da beleza que estão sendo corroídas pela injustiça e pelo sofrimento dos inconfidentes. A imagem das "algemas, patas e bulha de mazombos e reinóis" traz à tona a repressão brutal enfrentada pelos conspiradores, reforçando o contraste entre a serenidade natural e a violência imposta pelos dominadores.
A repetição de "era em maio, foi em maio" e a insistência na ausência dos cantos dos pássaros servem como um refrão que enfatiza a monotonia e o desespero do tempo aprisionado. A melancolia aumenta com a descrição das "pedras das fortalezas" que comprime o coração, uma metáfora poderosa para o aprisionamento físico e emocional dos inconfidentes.
A última estrofe sugere uma reflexão sobre o tempo e a memória, com o eu lírico questionando sua própria identidade e rememorando o passado idealizado de Arcádia, uma referência à pastoral clássica que simboliza a harmonia perdida. O poema termina com uma nota amarga, reconhecendo a incapacidade de Deus de salvar este mundo de fraco valor, uma alusão à desesperança e à desilusão que marcaram os participantes da Inconfidência Mineira.
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