- 31 de mai.
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Atualizado: 2 de jun.

Volume 1
Parte 1 - Mercadorias e dinheiro
Capítulo 1 - Mercadorias
O autor inicia explicando que, nas sociedades capitalistas, a riqueza aparece como uma grande acumulação de mercadorias, razão pela qual a análise começa pela mercadoria individual. A mercadoria é apresentada como algo duplo: por um lado, é valor de uso, isto é, uma coisa útil, capaz de satisfazer necessidades humanas; por outro, é valor de troca, pois pode ser trocada por outras mercadorias em determinadas proporções. A utilidade depende das propriedades materiais do objeto e só se realiza no uso ou no consumo, mas, na sociedade capitalista, esses objetos úteis também carregam valor.
O texto mostra então que o valor de troca não pode ser explicado pelas qualidades naturais das mercadorias, pois objetos muito diferentes podem ser igualados na troca. Ao comparar trigo, ferro, seda ou ouro, o que aparece é que todos devem conter algo comum. Esse elemento comum não é sua utilidade, já que a troca abstrai justamente das diferenças de uso. O que resta, quando se deixam de lado as qualidades concretas dos objetos, é o fato de serem produtos do trabalho humano. Mas não se trata do trabalho particular do alfaiate, do tecelão ou do pedreiro, e sim de trabalho humano abstrato, reduzido a simples gasto de força humana.
A grandeza do valor de uma mercadoria é medida pela quantidade de trabalho socialmente necessário para produzi-la. Isso não significa que um trabalhador lento produza mais valor apenas por demorar mais; o que conta é o tempo médio exigido nas condições normais de produção, com habilidade e intensidade médias. Assim, quando a produtividade aumenta, a mesma quantidade de trabalho produz mais objetos, mas cada unidade tende a valer menos, porque contém menos tempo de trabalho. O valor varia diretamente com a quantidade de trabalho incorporado e inversamente com a produtividade desse trabalho.
Em seguida, o capítulo aprofunda o duplo caráter do trabalho. Enquanto trabalho concreto e útil, ele produz valores de uso: alfaiataria produz casacos, tecelagem produz linho, agricultura produz trigo. Cada forma de trabalho possui finalidade, meios e resultados próprios. Mas, enquanto criador de valor, o trabalho é considerado apenas como gasto de força humana em geral. Por isso, trabalhos qualitativamente diferentes podem ser comparados quantitativamente. O trabalho qualificado é tratado como trabalho simples multiplicado, segundo proporções estabelecidas socialmente, ainda que esse processo pareça acontecer “por trás” dos produtores.
A partir daí, o texto passa à forma do valor, buscando explicar como o valor se expressa. Como o valor não é uma propriedade física visível da mercadoria, ele só aparece na relação social entre mercadorias. A forma mais simples é uma equação como “20 metros de linho = 1 casaco”. Nela, o linho expressa seu valor no casaco; o linho ocupa a forma relativa, e o casaco a forma equivalente. Essas posições são opostas e dependentes: uma mercadoria tem seu valor expresso, enquanto a outra serve como corpo no qual esse valor aparece.
Essa relação mostra que o valor de uma mercadoria só se manifesta por meio de outra. O casaco, quando funciona como equivalente do linho, não expressa seu próprio valor; ele aparece como algo diretamente permutável pelo linho. Por isso, o valor de uso do casaco passa a servir como forma de manifestação do valor do linho. Daí surge uma inversão importante: uma coisa material, com propriedades úteis concretas, parece possuir naturalmente a capacidade de representar valor, embora essa capacidade venha da relação social em que ela é colocada.
O livro desenvolve então as formas sucessivas do valor. A forma elementar expressa o valor de uma mercadoria em uma única outra mercadoria, mas é limitada e acidental. A forma desenvolvida expressa o valor de uma mercadoria em muitas outras, mostrando melhor que todas são expressões de trabalho humano abstrato, mas ainda permanece dispersa e interminável. A forma geral surge quando todas as mercadorias expressam seu valor em uma única mercadoria, que passa a funcionar como equivalente universal. Por fim, quando esse papel se fixa socialmente em uma mercadoria específica, como o ouro, surge a forma dinheiro. O dinheiro, portanto, não aparece como invenção externa, mas como resultado do desenvolvimento das formas de expressão do valor.
Na seção sobre o fetichismo da mercadoria, o autor afirma que a mercadoria parece simples, mas contém um caráter enigmático. Esse mistério não vem de sua utilidade nem do fato de ser produto do trabalho, mas da forma social que o trabalho assume na produção de mercadorias. As relações entre produtores aparecem como relações entre coisas. Em vez de os indivíduos perceberem diretamente a ligação social entre seus trabalhos, eles a veem mediada pelos produtos, que passam a parecer dotados de valor por natureza.
Esse fetichismo ocorre porque produtores privados trabalham separadamente e só se relacionam socialmente por meio da troca. Assim, o caráter social de seus trabalhos não aparece durante a produção, mas apenas quando seus produtos entram no mercado. A igualdade entre trabalhos diferentes se apresenta como igualdade entre mercadorias; o tempo de trabalho socialmente necessário aparece como valor das coisas; e as proporções sociais entre produtores aparecem como proporções de troca entre objetos. O valor torna-se, por isso, uma espécie de “hieróglifo social”: algo produzido pelos homens, mas que eles precisam decifrar como se fosse uma propriedade das coisas.
Para esclarecer essa inversão, o texto compara a produção mercantil com outras formas sociais. Em Robinson Crusoé, o indivíduo sabe diretamente quanto tempo gasta em cada atividade e como distribui seu trabalho. Na sociedade medieval, as relações de dependência pessoal tornam claro quem trabalha para quem, ainda que sob formas de dominação. Numa família camponesa ou numa comunidade de produtores livres associados, o trabalho pode ser distribuído de modo diretamente social e inteligível. Já na produção de mercadorias, a relação social fica escondida atrás da forma valor e da forma dinheiro.
O capítulo conclui que a economia política clássica chegou a analisar o valor e sua grandeza, mas não perguntou por que o trabalho assume a forma de valor dos produtos e por que o tempo de trabalho aparece como grandeza desse valor. Ao tratar essas formas como naturais, a economia burguesa acaba presa ao próprio fetichismo que deveria explicar. O valor não é uma propriedade química ou física das coisas, como se pudesse ser encontrado numa pérola, num diamante ou no ouro; ele é uma forma social específica, própria de uma sociedade em que os produtos do trabalho aparecem como mercadorias e em que as relações entre pessoas se apresentam como relações entre coisas.
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