- 1 de mar.
- 8 min de leitura
Atualizado: há 4 dias
Alice no País das Maravilhas Lewis Carrol
Texto Original Completo (em domínio público)

Na tarde toda dourada, Sem pressa a singrar; Os dois remos, sem destreza, Por bracinhos a remar, E mãozinhas, faz‑de‑conta, Fingem nos ir guiar.
Ah, cruéis três! Numa hora, Em clima de sonhar, Pedem conto: um sopro fraco Que nem pluma faz tremar! Que vale uma voz tão fraca Contra três a falar?
Primeira, imperiosa, brilha Seu édito: “Começa de uma vez!”— Segunda, em tom mais doce, espera: “Que haja tolices, talvez!”— E a Terceira corta a história Por minuto, só uma vez.
Logo, em súbito silêncio, Na fantasia, à vontade Vão seguindo a criança‑sonho Por maravilha selvagem e novidade, Em papo com ave ou bicho— E meio creem: é verdade.
E sempre, quando a história As fontes fez secar, E o cansado narrador Tentou o tema largar, “O resto, na próxima vez…” — “É a próxima vez!” Três vozes vêm gritar.
Assim cresceu o País das Maravilhas: Assim, de vagar, Seus casos mais curiosos, um a um, martelados— E agora o conto vai acabar, E rumo a casa seguimos, bando alegre, Sob o sol a declinar.
Alice! toma este conto de criança, E, com mão de mansidão, Guarda-o onde os sonhos da Infância Na mística Memória, ficam em união, Como a grinalda murcha de um peregrino, Colhida em longínqua região.
Capítulo I - Pela Toca do Coelho

Alice começava a ficar muito cansada de estar sentada ao lado da irmã, na margem do rio, sem ter nada para fazer; uma ou duas vezes espiara o livro que a irmã lia, mas ele não tinha figuras nem diálogos, “e de que serve um livro”, pensou Alice, “sem figuras nem diálogos?”
Assim, estava ela considerando consigo mesma (na medida do possível, pois o dia quente a deixava sonolenta e meio embotada) se o prazer de fazer uma corrente de margaridas compensaria o esforço de se levantar e colher as flores, quando de repente um Coelho Branco de olhos cor-de-rosa passou correndo bem perto dela.
Não havia nada de tão extraordinário nisso; nem Alice achou tão fora do comum ouvir o Coelho dizer para si mesmo: “Ai, meu Deus! Ai, meu Deus! Vou me atrasar!” (quando mais tarde refletiu sobre o fato, ocorreu-lhe que deveria ter se admirado; mas, no momento, tudo pareceu perfeitamente natural). Porém, quando o Coelho realmente tirou um relógio do bolso do colete, olhou para ele e apressou o passo, Alice levantou-se de um salto, pois lhe passou pela cabeça que jamais tinha visto antes um coelho com bolso de colete — nem com relógio para tirar dele — e, ardendo de curiosidade, atravessou o campo correndo atrás dele. Felizmente, ainda chegou a tempo de vê-lo desaparecer por uma grande toca de coelho sob a cerca-viva.
No instante seguinte, lá foi Alice atrás dele, sem sequer pensar em como faria para sair dali depois.
A toca seguia em linha reta como um túnel por algum trecho e, então, de repente mergulhava para baixo — tão de repente que Alice não teve um segundo para pensar em se deter antes de perceber que estava caindo por um poço muito fundo.
Ou o poço era muito profundo, ou ela caía muito devagar, pois teve bastante tempo, enquanto descia, para olhar ao redor e se perguntar o que aconteceria a seguir. Primeiro tentou olhar para baixo, para ver onde iria parar, mas estava escuro demais para enxergar qualquer coisa; então observou as paredes do poço e notou que estavam cheias de armários e estantes; aqui e ali viu mapas e quadros pendurados em pregos. Ao passar, pegou um pote de uma das prateleiras; estava etiquetado “GELEIA DE LARANJA”, mas, para sua grande decepção, estava vazio. Não quis largar o pote, com medo de matar alguém lá embaixo, e conseguiu colocá-lo dentro de um dos armários enquanto caía.
“Bem!”, pensou Alice consigo mesma, “depois de uma queda dessas, não vou achar nada cair de escadas! Como todos vão me achar corajosa em casa! Ora, eu nem diria nada, mesmo que caísse do alto do telhado!” (o que provavelmente era verdade).
Para baixo, para baixo, para baixo. Será que a queda nunca acabaria? “Quantos quilômetros já terei caído até agora?”, disse em voz alta. “Devo estar chegando perto do centro da Terra. Deixe-me ver: isso deve dar uns seis mil quilômetros abaixo, acho eu —” (pois, como veem, Alice aprendera várias coisas desse tipo nas aulas, e embora aquela não fosse uma ótima oportunidade para exibir seus conhecimentos, já que não havia ninguém para ouvi-la, ainda assim era bom praticar) “— sim, essa deve ser mais ou menos a distância certa — mas então, em que Latitude ou Longitude estarei?” (Alice não tinha a menor ideia do que fosse Latitude ou Longitude, mas achava que eram palavras bonitas e imponentes de se dizer.)
Logo começou de novo: “Será que vou atravessar a Terra de um lado ao outro? Como será engraçado sair no meio de gente que anda de cabeça para baixo! Os Antípodas, acho que é esse o nome —” (ficou até contente por não haver ninguém ouvindo, pois não parecia ser bem a palavra certa) “— mas vou ter de perguntar o nome do país, sabe. Por favor, Senhora, isto é a Nova Zelândia ou a Austrália?” (e tentou fazer uma reverência enquanto falava — imaginem fazer reverência enquanto se cai pelo ar! Vocês conseguiriam?) “E como ela vai me achar uma menininha ignorante por perguntar isso! Não, não dá para perguntar; talvez eu veja o nome escrito em algum lugar.”
Para baixo, para baixo, para baixo. Não havia mais nada a fazer, então Alice logo voltou a falar. “Diná vai sentir muito a minha falta esta noite, imagino!” (Diná era a gata.) “Espero que se lembrem do pires de leite dela na hora do chá. Diná, minha querida! Quem me dera que você estivesse aqui comigo! Não há ratos no ar, receio, mas talvez você pudesse pegar um morcego — e morcego é bem parecido com rato, sabe. Mas será que gatos comem morcegos?” E aqui Alice começou a ficar meio sonolenta, repetindo para si, num tom de sonho: “Gatos comem morcegos? Gatos comem morcegos?” e às vezes: “Morcegos comem gatos?” Pois, como não conseguia responder a nenhuma das perguntas, tanto fazia formulá-las de um jeito ou de outro. Sentia que estava cochilando e já começava a sonhar que andava de mãos dadas com Diná, dizendo-lhe com muita seriedade: “Agora, Diná, diga a verdade: você já comeu um morcego?” quando de repente, pum! pum! caiu sobre um monte de gravetos e folhas secas, e a queda terminou.
Alice não se machucou nem um pouco; levantou-se num instante. Olhou para cima, mas tudo estava escuro; diante dela havia outro longo corredor, e o Coelho Branco ainda estava à vista, correndo por ele. Não havia tempo a perder: Alice disparou como o vento e ainda conseguiu ouvi-lo dizer, ao virar uma esquina: “Ai, minhas orelhas e meus bigodes, como está ficando tarde!” Ela estava logo atrás quando dobrou a esquina, mas o Coelho já não estava mais à vista. Encontrou-se numa sala comprida e baixa, iluminada por uma fileira de lâmpadas penduradas no teto.
Havia portas por toda a sala, mas todas estavam trancadas; e, depois de percorrer um lado e outro, experimentando cada porta, Alice caminhou tristemente pelo meio, perguntando-se como faria para sair dali.
De repente deparou-se com uma mesinha de três pés, toda feita de vidro maciço; não havia nada sobre ela, exceto uma pequena chave de ouro. O primeiro pensamento de Alice foi que ela pudesse pertencer a uma das portas da sala; mas, ai de mim! ou as fechaduras eram grandes demais, ou a chave pequena demais; de todo modo, não abriu nenhuma delas. No entanto, na segunda volta que deu, encontrou uma cortina baixa que não havia notado antes, e atrás dela havia uma portinha de cerca de quarenta centímetros de altura. Experimentou a pequena chave de ouro na fechadura e, para sua grande alegria, ela serviu!

Alice abriu a porta e viu que dava para uma passagem estreita, pouco maior que uma toca de rato. Ajoelhou-se e olhou pelo corredor, para o jardim mais lindo que se possa imaginar. Como desejava sair daquela sala escura e passear entre os canteiros de flores brilhantes e as fontes frescas! Mas não conseguia sequer passar a cabeça pela abertura; “e mesmo que minha cabeça passasse”, pensou a pobre Alice, “de pouco serviria sem os ombros. Ah, como eu gostaria de me fechar como um telescópio! Acho que conseguiria, se ao menos soubesse por onde começar.” Pois, vejam, tantas coisas estranhas tinham acontecido ultimamente, que Alice começava a achar que pouquíssimas coisas eram realmente impossíveis.
Parecia não haver vantagem em esperar junto à portinha, então voltou à mesa, meio esperando encontrar outra chave sobre ela ou, ao menos, um livro de instruções para fechar pessoas como telescópios. Desta vez encontrou uma pequena garrafa (“que certamente não estava aqui antes”, disse Alice), e ao redor do gargalo havia uma etiqueta de papel com as palavras “BEBA-ME”, lindamente impressas em letras grandes.
Era muito fácil dizer “Beba-me”, mas a prudente pequena Alice não ia fazer isso às pressas. “Não, primeiro vou olhar”, disse ela, “e ver se está marcado ‘veneno’ ou não”; pois havia lido várias historinhas agradáveis sobre crianças que se queimaram, foram devoradas por feras e sofreram outras coisas desagradáveis, tudo porque não quiseram lembrar-se das regras simples que seus amigos lhes haviam ensinado: como a de que um atiçador em brasa queima se a gente o segura por muito tempo; ou que, se cortar o dedo muito fundo com uma faca, ele geralmente sangra; e nunca se esquecera de que, se se bebe muito de uma garrafa marcada “veneno”, é quase certo que fará mal, mais cedo ou mais tarde.

Entretanto, aquela garrafa não estava marcada como “veneno”, então Alice arriscou provar; e, achando-a muito saborosa (tinha, na verdade, um gosto misturado de torta de cereja, creme, abacaxi, peru assado, caramelo e torrada quente com manteiga), não demorou a bebê-la toda.
“Que sensação curiosa!”, disse Alice. “Devo estar me fechando como um telescópio.”
E era exatamente isso: agora tinha apenas vinte e cinco centímetros de altura, e seu rosto iluminou-se ao pensar que estava do tamanho certo para passar pela portinha até aquele belo jardim. Antes, porém, esperou alguns minutos para ver se diminuiria ainda mais; sentia-se um pouco nervosa quanto a isso; “pois pode acabar, sabe”, disse Alice a si mesma, “em eu desaparecer por completo, como uma vela. Como será que eu ficaria então?” E tentou imaginar como é a chama de uma vela depois que se apaga, pois não se lembrava de jamais ter visto tal coisa.
Depois de algum tempo, vendo que nada mais acontecia, decidiu ir imediatamente ao jardim; mas, ai da pobre Alice! quando chegou à porta, percebeu que havia esquecido a pequena chave de ouro. E, ao voltar à mesa para buscá-la, viu que não conseguia alcançá-la de modo algum: podia vê-la claramente através do vidro, e tentou ao máximo subir por uma das pernas da mesa, mas era escorregadia demais; e, quando se cansou de tanto tentar, a pobrezinha sentou-se e chorou.
“Vamos, não adianta chorar desse jeito!”, disse Alice a si mesma, num tom bastante severo. “Aconselho você a parar imediatamente!” Em geral dava a si mesma conselhos muito bons (embora raramente os seguisse), e às vezes se repreendia com tanta severidade que chegava a fazer os próprios olhos se encherem de lágrimas; e certa vez lembrou-se de ter tentado dar tapas em si mesma por ter trapaceado num jogo de croqué que jogava contra si própria, pois essa criança curiosa gostava muito de fingir que era duas pessoas. “Mas agora não adianta”, pensou a pobre Alice, “fingir que sou duas pessoas! Ora, mal há de mim o bastante para formar uma pessoa respeitável!”
Logo seu olhar caiu sobre uma pequena caixa de vidro que estava debaixo da mesa; abriu-a e encontrou um bolinho muito pequeno, no qual estavam lindamente marcadas, com passas, as palavras “COMA-ME”. “Bem, vou comê-lo”, disse Alice, “e se me fizer crescer, poderei alcançar a chave; e se me fizer diminuir, poderei passar por baixo da porta; assim, de qualquer jeito entrarei no jardim, e não me importa o que aconteça!”
Deu uma mordidinha e disse ansiosa para si mesma: “Para que lado? Para que lado?”, mantendo a mão sobre o topo da cabeça para sentir em que direção estava crescendo; e ficou bastante surpresa ao perceber que continuava do mesmo tamanho. É verdade que isso geralmente acontece quando se come bolo, mas Alice estava tão acostumada a esperar apenas coisas extraordinárias, que lhe parecia muito sem graça e aborrecido que a vida seguisse de maneira comum.
Então pôs-se a trabalhar e logo acabou com o bolo inteiro.
Comentários