Resumo Por Capítulo: Mayombe

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2 - A BASE


A Base fora construída em uma clareira aberta no meio da floresta do Mayombe: as árvores ao redor estendiam seus galhos e folhas sobre as tendas, escondendo-as dos aviões que sobrevoavam o local. A comida era escassa, mas havia as “comunas”, amêndoas nutritivas que matavam a fome dos guerrilheiros.


Chegaram à Base oito novos combatentes, todos muito jovens, quase sem formação. Um deles, batizado de Vewê (que significa cágado, devido a sua timidez) era parente do Comandante, mas este deixava claro que não teria qualquer privilégio por isso.


Na reunião do comando Sem Medo reclamou que haviam mandado novos homens, porém não enviaram mais comida. O Comandante não desejava ir ao povoado de Dolisie pedir mantimentos a André, seu primo, pois não tinha com ele um bom relacionamento. Também não confiava que o Chefe de Operações fizesse a viagem, já que ele era parente de Ingratidão, que seria levado para a prisão, havendo o risco de libertá-lo. O Comissário, portanto, foi o escolhido para cumprir estas tarefas e partiu na manhã seguinte.


A maioria dos guerrilheiros estava na sala central da Base, que servia de escola, enquanto outros faziam guarda, ou eram treinados pelo Comandante. Mundo Novo, um rapaz que havia estudado na Europa, juntou-se a Lutamos, que fugia das aulas. Este dizia não ter pretensões de ser um oficial, não achando necessário os estudos, e Mundo Novo tentava convencê-lo da importância da educação para a revolução. Lutamos insistia que aqueles que estudavam não o faziam para a revolução, mas apenas por um interesse pessoal de crescimento e Mundo Novo dizia que era preciso acreditar que nem todos os homens pensavam desta maneira.


Ouvindo a conversa dos dois, Sem Medo aproximou-se e argumentou que não adiantava idealizar um ser humano perfeito quando a realidade era diferente. Mas também era inútil negar a necessidade de estudar, já que essa é a única maneira de se conseguir pensar com a própria cabeça. Mundo Novo ainda tentava argumentar que grandes homens agiram desinteressadamente pela humanidade, mas o Comandante dizia que nunca conheceu um pessoalmente. Para ele os jovens idealistas tomavam esta crença na generosidade humana como uma fé religiosa que era totalmente desnecessária. Mundo Novo não acreditava no que Sem Medo lhe dizia, pois acreditava que suas ações, baseadas no que o marxismo lhe ensinou, eram totalmente desinteressadas.


Em Dolisie o Comissário não encontrava André, que era o responsável pelo envio de alimentos à Base. Foi à escola onde sua noiva, Ondina, dava aulas. A relação entre eles era complicada: a mulher era mais experiente, sexualmente, deixando-o pouco à vontade e tornando as relações desprazerosas para ambos. Ela o cobrou de ficarem juntos por mais tempo, mas o Comissário dizia que precisava encontrar logo André.


Quando surgiu, André ofereceu ao Comissário 500 francos para que ele bebesse uma cerveja e convidou-o para o almoço, em que seria servida uma galinha. Esses privilégios pagos com o dinheiro do movimento revoltavam o Comissário, que sabia das necessidades que seus companheiros passavam no Mayombe. Após comerem, André combinou de encontrá-lo à noite para enviar o carregamento à selva. O Comissário retornava à escola quando cruzou com Verdade: ele estava com uma mulher e dizia que não poderia partir naquela noite. O Comissário foi inflexível, dizendo que Verdade não poderia ficar, mas sentiu-se culpado pois ele mesmo planejava permanecer mais dias em Dolisie, também por conta de uma mulher.


Encontrando-se com Ondina, fizeram amor mais de uma vez, com ambos mentindo um ao outro, dizendo estarem sentindo prazer. A moça acreditava que com o tempo seu noivo iria se descontrair e a relação melhoraria. O Comissário passou a reclamar do comportamento de André, que não se preocupava com as condições dos guerrilheiros, e Ondina disse não ter a mesma opinião sobre ele. Enfim o Comissário contou-lhe que partiria na mesma noite, por não ter mais nada o que resolver ali, e Ondina reclamou, pois desejava ficar mais tempo com ele.


À noite André havia levado poucos mantimentos, o suficiente para dois dias somente, e sugeriu que o Comissário ficasse na cidade para levar uma quantidade maior nos próximos dias. O Comissário, no entanto, não suportava mais ficar distante de sua Base, onde o movimento era realmente levado a sério, e disse que partiria imediatamente. Chamado para o jantar, o Comissário ressaltou que havia comido galinha no almoço, portanto não precisava comer novamente, e ainda iria usar os 500 francos que havia ganho para comprar comida para seus companheiros: assim deixava clara sua insatisfação com André. Para completar sua frustração, o Comissário soube que Verdade fora autorizado por André para permanecer mais dias em Dolisie. O retorno à Base foi feito com pressa e raiva.


Ao saber de todos os ocorridos, Sem Medo riu do Comissário, dizendo que ele havia sido muito severo consigo, pois poderia ter ficado em Dolisie, já que não havia qualquer atividade urgente na Base, além de que com certeza ninguém enviaria mais mantimentos, sendo necessária a ida de mais um homem para a cidade. O Chefe de Operações ainda havia caçado uma cabra, e a carne os manteria por mais alguns dias.


O Comissário foi tomar banho e o Comandante o acompanhou. Ele perguntou sobre Ondina e comentou que estranhava o relacionamento dos dois, questionando sobre a questão sexual. O Comissário demonstrava que havia algum problema e Sem Medo pensava que a única forma de ele entender Ondina seria deitando-se com ela, mas afastava este pensamento, já que ela não o interessava. Por outro lado, dava dicas de como manter uma mulher conquistada permanentemente, ressaltando que não havia uma resposta tão clara, já que a teoria é diferente da prática, assim como ocorre na guerra.


Sobre André, o Comandante disse que ele próprio iria a Dolisie para resolver a questão e o Comissário sugeriu que ele também procurasse Ondina, para talvez ajudá-lo em seu relacionamento. Sem Medo foi deitar-se pensando na moça, que havia se oferecido para ele quando chegou à cidade, mas não lhe interessou justamente pela facilidade com que a teria.


Vewê, o jovem guerrilheiro, veio ao Comandante e sentou-se na sua cama. O Comandante questionou se o garoto havia perdido o medo ou a vergonha, por fazê-lo sem pedir licença, ou ainda se achava que tinha este direito por ser seu parente. O rapaz negou, dizendo que apenas o fazia pois entendia que o Comandante tinha o mesmo direito de sentar-se em sua cama, se o quisesse. Sem Medo admirou a postura de Vewê e o elogiou, porém percebeu que o jovem olhou para a janela, onde outros guerrilheiros se amontoavam para assistir a cena: tudo não passava de uma aposta que havia sido feita. Enfurecido, o Comandante expulsou grosseiramente Vewê do local. Assistindo o que se passou, o Comissário exaltou-se com Sem Medo, dizendo que ele não poderia falar daquela maneira com um combatente.


Teoria entrou na cabana do chefe de grupo Kiluanje, onde estavam Milagre, Pangu-A-Kitina e Ekuikui, além de outros guerrilheiros. Após assistirem à discussão entre o Comandante e o Comissário, eles alimentavam uma rusga entre kikongos e kibundos, duas tribos das quais os chefes se originaram, respectivamente. Percebendo a tensão crescente na conversa, o professor tentava encerrar a discussão, porém os ânimos se exaltaram cada vez mais, até a chegada do Chefe de Operações, que ouviu os gritos e dispersou o grupo. Teoria ficou contente consigo, pois ele havia vencido seu medo ao se intrometer na discussão, ao invés de evitar o confronto, como faria normalmente.


Novo Mundo também vira a discussão entre os chefes e imaginou que estava surgindo aí um conflito que poderia alterar o equilíbrio de forças na organização: finalmente o Comissário iria se opor ao Comandante junto ao Chefe de Operações, podendo destituir o seu poder.


No dia seguinte André não havia enviado mais mantimentos. Sem Medo chamou Lutamos e Muatiânvua para fazerem uma patrulha. Quando estavam no deserto, uma montanha que não era coberta por árvores, o Comandante perguntou aos guerrilheiros o que havia acontecido na base que alterara o ânimo de todos. Eles revelaram que havia desconfiança de que o Comando estava se dividindo e que assim os companheiros também se dividiam, defendendo a um ou outro. Sem Medo esclareceu que a discussão que ocorrera era normal e que não poderia ser motivo de desentendimento entre os combatentes.

Voltando à Base, o Comissário chamou o Comandante para acertarem-se sobre o ocorrido do dia anterior. Sem Medo não achava necessário desenterrar o assunto, mas o Comissário insistiu, defendendo que a discussão aberta fora um erro e deveria ter sido travada em uma reunião do Comando. Sem Medo argumentou que, pelo contrário, era interessante que os chefes declarassem suas divergências sem considerar isso um pecado e sem esconder a verdade de suas bases. O Comandante desconfiava da estrutura do movimento, que formava militantes que não aceitavam serem criticados: isto, futuramente, poderia resultar em um partido e um governo totalitário. Para Sem Medo o intelectualismo dos dirigentes os afastam da condição de trabalhadores, portanto dizer que pode haver um governo do proletariado se torna uma mentira. Por isso ele não se imaginava tornando-se um quadro político numa futura Angola independente.


O Comissário discordava, mas compreendia a posição do Comandante, a quem enxergava como um homem solitário. Retornaram aos problemas da Base, como a rixa entre kikongos e kibundos, que poderia estar sendo alimentada pelo Chefe de Operações, com ambições de poder. Definiram que era melhor deixar as coisas fluírem, realizando uma nova operação em breve: quando o povo de Cabinda aderisse ao movimento, o tribalismo perderia espaço. Para isso precisavam de mais comida e enviariam o Chefe de Operações a Dolisie para conversar com o André.


Muatiânvua, que fora marinheiro e tivera contato com diversos povos da África, não podia tolerar o sentimento tribalista que crescia na Base.

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