Resumo Por Capítulo: Capitães da Areia

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As luzes do carrossel


Grande Japonês era o nome de um antigo e desgastado carrossel que passava pela cidade. Nhozinho França, seu dono, contava sua história para os meninos Volta Seca e Sem-Pernas: além do carrossel, possuía uma roda-gigante e uma sombrinha, que ficavam em uma praça na área nobre da cidade, só recebendo famílias endinheiradas; com o tempo, porém, o gosto pela bebida fez com que ele se endividasse, perdendo a roda-gigante, a sombrinha e seus clientes; começou a andar pelo interior do estado só com o carrossel, atendendo um público mais pobre, apenas cobrindo seus custos e sua bebida; certa vez foi a salvação de uma cidadezinha que era invadida por Lampião: ele e seu bando se encantaram pelo brinquedo, deram muitas voltas, e acabaram por não atacar os moradores.

Entusiasmados pelas histórias, os garotos não hesitaram em aceitar uma proposta do Nhozinho França: trabalhariam para ele enquanto o Grande Japonês estivesse na cidade, vendendo ingressos, cuidando do maquinário e da pianola, recebendo pagamento conforme houvesse público.


Os meninos nunca haviam tido a chance de estar num carrossel. Sem-Pernas, certa vez, conseguiu dinheiro para ir a um Parque de Diversões, mas foi barrado por estar vestindo farrapos; com raiva, meteu a mão na bilheteria do parque e saiu correndo, sendo chamado de ladrão; saiu com cinco vezes o valor que tinha ao entrar, no entanto preferia ter conseguido andar no carrossel. Agora, com a oportunidade que tinha, Sem-Pernas não via Nhozinho França apenas como um homem bêbado, mas como um ídolo, um salvador.


Quando Sem-Pernas contou a novidade aos garotos do trapiche, muitos duvidaram, até que Volta Seca, enquanto mexia com seu revólver, furtado de uma casa de armas, confirmou, contando ainda sobre a aventura de Lampião no brinquedo. Os garotos sentiram inveja da alegria dos dois, que trabalhariam no carrossel. Depois de ajudarem a armar o Grande Japonês, ficou combinado que uma noite levariam todos os meninos do trapiche para brincar.


Quando chegava a noite, Volta Seca ficava à frente do carrossel, imitando animais, chamando o público e vendendo entradas; Sem-Pernas aprendeu a lidar com as máquinas e cuidava para que nenhuma criança ficasse mais tempo que o devido no brinquedo.


Certa hora Nhozinho França mandou Volta Seca brincar enquanto Sem-Pernas cuidava da entrada. O menino subiu no cavalo que outrora fora de Lampião, imaginando-se com arma em punho, atirando em policiais e fazendeiros, seus inimigos. Depois foi a vez do Sem-Pernas, que via aquele momento como sagrado, experimentava o que só as crianças que tinham família, casa e carinho podiam ter, sem medo de soldados que poderiam surrá-lo.


No trapiche havia ansiedade pela visita ao carrossel quando, numa tarde de domingo, receberam a visita do Padre José Pedro.


O Padre tornou-se amigo dos Capitães da Areia por meio de Boa-Vida, que certo dia estava na igreja, prestes a roubar um relicário dourado. Boa-Vida não era muito engajado nos roubos do bando, mas de vez em quando conseguia algo que entregava a Pedro Bala, como pagamento pela estadia no trapiche; ele gostava mesmo era da liberdade, de andar pela cidade, pelas praças, conhecer as pessoas. Tal abertura permitiu que o Padre entrasse em contato com os meninos.


José Pedro era um padre diferente: entrou para o seminário já mais velho; nunca conseguiu ser bom aluno, apesar de sua grande devoção; seu grande objetivo era trabalhar com a catequização de índios ou crianças – por isso se interessava nos Capitães da Areia. Desapontado com o reformatório da cidade, onde já havia arranjado problemas por denunciá-lo ao jornal, imaginava resgatar os meninos e entregá-los aos cuidados das beatas que frequentavam a Igreja, mas percebeu que isso também não daria certo, já que o maior interesse das senhoras era apenas bajular os membros do clero. Chegou a demonstrar insatisfação com o comportamento dessas mulheres, criando inimizade com algumas delas. Além disso, uma experiência havia mostrado que os meninos de rua gostavam da liberdade que tinham, e não abririam mão dela em troca de uma vida regrada, cheia de obrigações religiosas.


A relação com os Capitães da Areia deu-se com facilidade, já que o Padre José Pedro conversava com eles de forma natural, como homens, como amigos. Apensar de não ter grandes devotos entre os garotos – com exceção a Pirulito – ele tinha o respeito de todos.


Naquela tarde o Padre foi ao trapiche fazer um convite: tinha dinheiro para levar todos os garotos ao carrossel e esperava uma grande comoção das crianças, mas não teve a reação esperada. Encabulados, os meninos explicaram que Volta Seca e Sem-Pernas estavam trabalhando no brinquedo, e os levariam de graça à noite. O Padre ficou envergonhado, pensando aquilo ser um sinal divino do pecado que havia cometido: o dinheiro era da Igreja, parte do que foi dado por uma senhora para comprar velas. Percebendo o constrangimento os meninos o apoiaram, dizendo que compreendiam a boa intenção dele. Convidaram-no para ir ao carrossel, de qualquer jeito.


Na praça os garotos admiravam a beleza do Grande Japonês. O Professor, com giz e uma tampa de caixa, iniciou um desenho de Volta Seca vestido de cangaceiro – ele tinha certa habilidade nesta arte, que também lhe rendia algum dinheiro, dado pelas pessoas que passeavam – ela ainda lamentavam que as crianças de rua não tivessem apoio do governo para explorar suas capacidades artísticas.


Certa hora surgiu uma senhora junto ao Padre, exclamando descontentamento por vê-lo em meio àquelas crianças maltrapilhas. José Pedro tentou argumentar, lembrando o amor de Jesus pelos pequenos, mas a senhora insistia que eles não eram crianças, e sim ladrões, ameaçando o Padre por seu comportamento.


À noite, após uma chuva que dispersou a multidão, Sem-Pernas ligou o carrossel e os Capitães da Areia puderam experimentar a alegria que antes lhes era impossível. Por instantes esqueceram-se de que não tinham família, dinheiro, que eram vistos como meros ladrões… Eram, mais do que nunca, crianças sob o brilho das luzes do Grande Carrossel Japonês.

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