O Rei da Vela Oswald de Andrade
Texto Original Completo (domínio público, ortografia atualizada)
3º ATO
Cena 3
UMA VOZ (Grossa, terrificante, da porta escancarada que mostra a jaula vazia.) — Eu sou o corifeu dos devedores relapsos! Dos maus pagadores! Dos desonrados da sociedade capitalista! Os que têm o nome tingido para sempre pela má tinta dos protestos! Os que mandam dizer que não estão em casa aos oficiais de justiça! Os que pedem envergonhadamente tostões para dar de comer aos filhos! Os desocupados que esperam sem esperança! Os aflitos que não dormem, pensando nas penhoras. (Grita.) A Amé-ri-ca é um blefe!!! Nós todos mudamos de continente para enriquecer. Só encontramos aqui escravidão e trabalho! Sob as garras do imperialismo! Hoje morremos de miséria e de vergonha! Somos os recrutas da pobreza! Milhões de falidos transatlânticos! Para as nossas famílias, educadas na ilusão da A-mé-ri-ca, só há a escolher a cadeia ou o rendez-vous! Há o sui-cí-dio também! O sui-cí-dio...
ABELARDO I — E a revolução... Fogo! Faça fogo...
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