- 31 de mai.
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Atualizado: há 5 dias
O Capital Karl Marx
Texto Original Completo (em domínio público)
Volume 1
Parte 1 - Mercadorias e dinheiro
Capítulo 1 - Mercadorias
Seção 1: Os dois fatores de uma mercadoria: valor de uso e valor (A substância do valor e a grandeza do valor)
A riqueza das sociedades em que predomina o modo de produção capitalista aparece como “uma imensa acumulação de mercadorias”; sua unidade é uma mercadoria individual. Nossa investigação deve, portanto, começar pela análise da mercadoria.
Uma mercadoria é, antes de tudo, um objeto exterior a nós, uma coisa que, por suas propriedades, satisfaz necessidades humanas de algum tipo. A natureza dessas necessidades — se nascem, por exemplo, do estômago ou da fantasia — não faz diferença. Tampouco nos interessa aqui saber como o objeto satisfaz essas necessidades, se diretamente, como meio de subsistência, ou indiretamente, como meio de produção.
Toda coisa útil, como ferro, papel etc., pode ser considerada sob dois pontos de vista: o da qualidade e o da quantidade. Ela é um conjunto de muitas propriedades e, por isso, pode ser útil de várias maneiras. Descobrir os diversos usos das coisas é obra da história. Também o é o estabelecimento de padrões de medida socialmente reconhecidos para as quantidades desses objetos úteis. A diversidade dessas medidas tem origem, em parte, na natureza diversa dos objetos a serem medidos e, em parte, na convenção.
A utilidade de uma coisa faz dela um valor de uso. Mas essa utilidade não é algo etéreo. Estando limitada pelas propriedades físicas da mercadoria, ela não existe separada dessa mercadoria. Uma mercadoria, como ferro, trigo ou diamante, é, portanto, enquanto coisa material, um valor de uso, algo útil. Essa propriedade da mercadoria independe da quantidade de trabalho necessária para apropriar-se de suas qualidades úteis. Ao tratar do valor de uso, pressupomos sempre quantidades determinadas, como dúzias de relógios, metros de linho ou toneladas de ferro. Os valores de uso das mercadorias fornecem o material para um estudo específico, o conhecimento comercial das mercadorias. Os valores de uso tornam-se realidade apenas pelo uso ou consumo; eles também constituem a substância de toda riqueza, seja qual for a forma social dessa riqueza. Na forma de sociedade que estamos prestes a considerar, eles são, além disso, os depositários materiais do valor de troca.
O valor de troca, à primeira vista, apresenta-se como uma relação quantitativa, como a proporção em que valores de uso de uma espécie são trocados por valores de uso de outra espécie, uma relação que muda constantemente conforme o tempo e o lugar. Daí o valor de troca parecer algo acidental e puramente relativo; e, por conseguinte, um valor intrínseco, isto é, um valor de troca inseparavelmente ligado às mercadorias, inerente a elas, parece uma contradição nos próprios termos. Consideremos a questão um pouco mais de perto.
Uma determinada mercadoria, por exemplo, um quarto de trigo, é trocada por x de graxa, y de seda, ou z de ouro etc.; em suma, por outras mercadorias nas mais diferentes proporções. Em vez de um único valor de troca, o trigo tem, portanto, muitos. Mas, uma vez que x de graxa, y de seda ou z de ouro etc. representam, cada um, o valor de troca de um quarto de trigo, x de graxa, y de seda, z de ouro etc. devem, enquanto valores de troca, ser substituíveis entre si, ou iguais entre si. Portanto, em primeiro lugar: os valores de troca válidos de uma dada mercadoria expressam algo igual; em segundo lugar: o valor de troca, em geral, é apenas o modo de expressão, a forma aparente, de algo contido nele, mas distinguível dele.
Tomemos duas mercadorias, por exemplo, trigo e ferro. As proporções em que são permutáveis, quaisquer que sejam, podem sempre ser representadas por uma equação em que determinada quantidade de trigo é igualada a alguma quantidade de ferro: por exemplo, 1 quarto de trigo = x quintais de ferro. O que nos diz essa equação? Ela nos diz que, em duas coisas diferentes — em 1 quarto de trigo e x quintais de ferro — existe, em quantidades iguais, algo comum a ambas. As duas coisas devem, portanto, ser iguais a uma terceira, que em si mesma não é nem uma nem outra. Cada uma delas, enquanto valor de troca, deve, portanto, ser redutível a essa terceira coisa.
Uma simples ilustração geométrica deixará isso claro. Para calcular e comparar as áreas de figuras retilíneas, nós as decompomos em triângulos. Mas a área do próprio triângulo é expressa por algo totalmente diferente de sua figura visível, isto é, pela metade do produto da base multiplicada pela altura. Do mesmo modo, os valores de troca das mercadorias devem poder ser expressos em termos de algo comum a todas elas, algo de que elas representam uma quantidade maior ou menor.
Esse “algo” comum não pode ser uma propriedade geométrica, química ou qualquer outra propriedade natural das mercadorias. Tais propriedades só chamam nossa atenção na medida em que afetam a utilidade dessas mercadorias, fazendo delas valores de uso. Mas a troca de mercadorias é evidentemente um ato caracterizado por uma abstração total do valor de uso. Então, um valor de uso é tão bom quanto outro, desde que esteja presente em quantidade suficiente. Ou, como diz o velho Barbon:
— Um tipo de mercadoria é tão bom quanto outro, se os valores forem iguais. Não há diferença nem distinção entre coisas de igual valor... Cem libras em chumbo ou ferro têm tanto valor quanto cem libras em prata ou ouro.
Como valores de uso, as mercadorias são, antes de tudo, de qualidades diferentes; mas, como valores de troca, são apenas quantidades diferentes e, consequentemente, não contêm um átomo de valor de uso.
Se, então, deixamos de lado o valor de uso das mercadorias, elas conservam apenas uma propriedade comum: a de serem produtos do trabalho. Mas o próprio produto do trabalho já sofreu uma transformação em nossas mãos. Se abstraímos seu valor de uso, abstraímos também os elementos materiais e as formas que fazem do produto um valor de uso; já não vemos nele uma mesa, uma casa, fio ou qualquer outra coisa útil. Sua existência como coisa material é posta fora de consideração. Tampouco ele pode continuar a ser considerado produto do trabalho do marceneiro, do pedreiro, do fiandeiro ou de qualquer outro tipo determinado de trabalho produtivo. Junto com as qualidades úteis dos próprios produtos, pomos fora de consideração tanto o caráter útil dos diversos tipos de trabalho neles incorporados quanto as formas concretas desse trabalho; nada resta senão o que é comum a todos eles; todos são reduzidos a um mesmo tipo de trabalho, trabalho humano em abstrato.
Consideremos agora o resíduo de cada um desses produtos: ele consiste, em cada caso, na mesma realidade insubstancial, uma simples coagulação de trabalho humano homogêneo, de força de trabalho gasta sem consideração pelo modo de seu dispêndio. Tudo o que essas coisas nos dizem agora é que força de trabalho humana foi gasta em sua produção, que trabalho humano está nelas incorporado. Quando consideradas como cristais dessa substância social comum a todas elas, elas são valores.
Vimos que, quando as mercadorias são trocadas, seu valor de troca se manifesta como algo totalmente independente de seu valor de uso. Mas, se abstraímos seu valor de uso, resta seu valor, como definido acima. Portanto, a substância comum que se manifesta no valor de troca das mercadorias, sempre que são trocadas, é seu valor. O avanço de nossa investigação mostrará que o valor de troca é a única forma pela qual o valor das mercadorias pode se manifestar ou ser expresso. Por ora, porém, temos de considerar a natureza do valor independentemente dessa sua forma.
Um valor de uso, ou artigo útil, tem valor apenas porque trabalho humano em abstrato foi nele incorporado ou materializado. Como, então, se deve medir a grandeza desse valor? Evidentemente, pela quantidade da substância criadora de valor, o trabalho, contida no artigo. A quantidade de trabalho, porém, é medida por sua duração, e o tempo de trabalho, por sua vez, encontra seu padrão em semanas, dias e horas.
Algumas pessoas poderiam pensar que, se o valor de uma mercadoria é determinado pela quantidade de trabalho nela empregada, quanto mais preguiçoso e inábil o trabalhador, mais valiosa seria sua mercadoria, pois mais tempo seria necessário para produzi-la. O trabalho, porém, que forma a substância do valor é trabalho humano homogêneo, dispêndio de uma força de trabalho uniforme. A força de trabalho total da sociedade, que está incorporada na soma total dos valores de todas as mercadorias produzidas por essa sociedade, conta aqui como uma massa homogênea de força de trabalho humana, embora composta de inúmeras unidades individuais. Cada uma dessas unidades é igual a qualquer outra, na medida em que possui o caráter da força média de trabalho da sociedade e atua como tal; isto é, na medida em que exige, para produzir uma mercadoria, não mais tempo do que o necessário em média, não mais do que o socialmente necessário. O tempo de trabalho socialmente necessário é aquele requerido para produzir um artigo sob as condições normais de produção e com o grau médio de habilidade e intensidade predominante no momento. A introdução dos teares mecânicos na Inglaterra provavelmente reduziu à metade o trabalho necessário para tecer determinada quantidade de fio em tecido. Os tecelões manuais, de fato, continuaram a precisar do mesmo tempo de antes; mas, apesar disso, o produto de uma hora de seu trabalho passou a representar, depois da mudança, apenas meia hora de trabalho social e, consequentemente, caiu para metade de seu valor anterior.
Vemos, então, que aquilo que determina a grandeza do valor de qualquer artigo é a quantidade de trabalho socialmente necessário, ou o tempo de trabalho socialmente necessário para sua produção. Cada mercadoria individual, nesse sentido, deve ser considerada como uma amostra média de sua espécie. Mercadorias nas quais se incorporam quantidades iguais de trabalho, ou que podem ser produzidas no mesmo tempo, têm, portanto, o mesmo valor. O valor de uma mercadoria está para o valor de qualquer outra assim como o tempo de trabalho necessário para a produção de uma está para o tempo necessário para a produção da outra. “Como valores, todas as mercadorias são apenas massas determinadas de tempo de trabalho coagulado.”
O valor de uma mercadoria permaneceria, portanto, constante se o tempo de trabalho requerido para sua produção também permanecesse constante. Mas este muda com cada variação na produtividade do trabalho. Essa produtividade é determinada por várias circunstâncias, entre elas o grau médio de habilidade dos trabalhadores, o estado da ciência e o grau de sua aplicação prática, a organização social da produção, a extensão e a capacidade dos meios de produção e as condições naturais. Por exemplo, a mesma quantidade de trabalho se incorpora, em estações favoráveis, em 8 alqueires de trigo, e, em estações desfavoráveis, em apenas 4. O mesmo trabalho extrai mais metal de minas ricas do que de minas pobres. Diamantes são de ocorrência muito rara na superfície da Terra e, por isso, sua descoberta custa, em média, muito tempo de trabalho. Consequentemente, muito trabalho é representado em pequeno volume. Jacob duvida que o ouro jamais tenha sido pago por seu valor integral. Isso se aplica ainda mais aos diamantes. Segundo Eschwege, a produção total das minas brasileiras de diamantes durante os oitenta anos encerrados em 1823 não realizou o preço de um ano e meio de produção média das plantações de açúcar e café do mesmo país, embora os diamantes custassem muito mais trabalho e, portanto, representassem mais valor. Com minas mais ricas, a mesma quantidade de trabalho se incorporaria em mais diamantes, e seu valor cairia. Se conseguíssemos, com pequeno dispêndio de trabalho, converter carbono em diamantes, seu valor poderia cair abaixo do dos tijolos. Em geral, quanto maior a produtividade do trabalho, menor o tempo de trabalho requerido para a produção de um artigo, menor a quantidade de trabalho cristalizada nesse artigo e menor seu valor; e, inversamente, quanto menor a produtividade do trabalho, maior o tempo de trabalho requerido para a produção de um artigo e maior seu valor. O valor de uma mercadoria varia, portanto, diretamente conforme a quantidade de trabalho nela incorporada e inversamente conforme a produtividade desse trabalho.
Uma coisa pode ser valor de uso sem ter valor. É o caso sempre que sua utilidade para o homem não se deve ao trabalho. Assim são o ar, o solo virgem, os campos naturais etc. Uma coisa pode ser útil e produto do trabalho humano sem ser mercadoria. Quem satisfaz diretamente suas necessidades com o produto de seu próprio trabalho cria, de fato, valores de uso, mas não mercadorias. Para produzir estas últimas, ele deve não apenas produzir valores de uso, mas valores de uso para outros, valores de uso sociais. E não apenas para outros, sem mais. O camponês medieval produzia trigo de renda para seu senhor feudal e trigo de dízimo para seu padre. Mas nem o trigo de renda nem o trigo de dízimo se tornavam mercadorias pelo fato de terem sido produzidos para outros. Para tornar-se mercadoria, um produto deve ser transferido a outro, a quem servirá como valor de uso, por meio de uma troca. Por fim, nada pode ter valor sem ser objeto de utilidade. Se a coisa é inútil, também o é o trabalho nela contido; o trabalho não conta como trabalho e, portanto, não cria valor.
Seção 2: O duplo caráter do trabalho incorporado nas mercadorias
À primeira vista, a mercadoria se apresentou a nós como um complexo de duas coisas: valor de uso e valor de troca. Mais tarde, vimos também que o trabalho possui a mesma natureza dupla; pois, na medida em que encontra expressão no valor, não possui as mesmas características que lhe pertencem enquanto criador de valores de uso. Fui o primeiro a apontar e a examinar criticamente essa natureza dupla do trabalho contido nas mercadorias. Como este ponto é o eixo em torno do qual gira uma compreensão clara da economia política, devemos entrar em mais detalhes.
Tomemos duas mercadorias, como um casaco e 10 metros de linho, e suponhamos que a primeira tenha o dobro do valor da segunda, de modo que, se 10 metros de linho = W, o casaco = 2W.
O casaco é um valor de uso que satisfaz uma necessidade particular. Sua existência é resultado de um tipo especial de atividade produtiva, cuja natureza é determinada por seu objetivo, modo de operação, objeto, meios e resultado. O trabalho cuja utilidade é assim representada pelo valor de uso de seu produto, ou que se manifesta ao fazer de seu produto um valor de uso, chamamos de trabalho útil. Nesse contexto, consideramos apenas seu efeito útil.
Assim como o casaco e o linho são dois valores de uso qualitativamente diferentes, também o são as duas formas de trabalho que os produzem: alfaiataria e tecelagem. Se esses dois objetos não fossem qualitativamente diferentes, não fossem produzidos, respectivamente, por trabalhos de qualidades diferentes, não poderiam se confrontar como mercadorias. Casacos não são trocados por casacos; um valor de uso não é trocado por outro da mesma espécie.
A todas as diferentes variedades de valores de uso correspondem tantos tipos diferentes de trabalho útil, classificados segundo ordem, gênero, espécie e variedade a que pertencem na divisão social do trabalho. Essa divisão do trabalho é uma condição necessária para a produção de mercadorias, mas não se segue, inversamente, que a produção de mercadorias seja condição necessária para a divisão do trabalho. Na comunidade indiana primitiva há divisão social do trabalho sem produção de mercadorias. Ou, para tomar um exemplo mais próximo, em toda fábrica o trabalho é dividido segundo um sistema, mas essa divisão não se realiza por meio da troca mútua dos produtos individuais entre os operários. Só podem tornar-se mercadorias uns em relação aos outros os produtos que resultam de tipos diferentes de trabalho, cada qual realizado de modo independente e por conta de indivíduos privados.
Retomando: no valor de uso de cada mercadoria está contido trabalho útil, isto é, atividade produtiva de um tipo determinado e exercida com um objetivo determinado. Valores de uso não podem se confrontar como mercadorias a menos que o trabalho útil neles incorporado seja qualitativamente diferente em cada um. Numa comunidade cujo produto, em geral, assume a forma de mercadorias, isto é, numa comunidade de produtores de mercadorias, essa diferença qualitativa entre as formas úteis de trabalho realizadas independentemente por produtores individuais, cada um por sua própria conta, desenvolve-se num sistema complexo, numa divisão social do trabalho.
De todo modo, quer o casaco seja usado pelo alfaiate, quer por seu cliente, em ambos os casos funciona como valor de uso. Tampouco a relação entre o casaco e o trabalho que o produziu é alterada pela circunstância de que a alfaiataria tenha se tornado um ofício especial, um ramo independente da divisão social do trabalho. Onde quer que a necessidade de vestimenta os tenha obrigado a isso, os homens fizeram roupas durante milhares de anos sem que um só homem se tornasse alfaiate. Mas casacos e linho, como todo outro elemento de riqueza material que não seja produto espontâneo da natureza, devem invariavelmente sua existência a uma atividade produtiva especial, exercida com objetivo determinado, uma atividade que apropria materiais particulares dados pela natureza a necessidades humanas particulares. Portanto, na medida em que o trabalho é criador de valor de uso, é trabalho útil, ele é uma condição necessária, independente de todas as formas de sociedade, para a existência da raça humana; é uma necessidade eterna imposta pela natureza, sem a qual não pode haver intercâmbio material entre o homem e a natureza e, portanto, não pode haver vida.
Os valores de uso — casaco, linho etc. —, isto é, os corpos das mercadorias, são combinações de dois elementos: matéria e trabalho. Se subtrairmos o trabalho útil neles despendido, resta sempre um substrato material, fornecido pela natureza sem a ajuda do homem. Este só pode trabalhar como a própria natureza trabalha, isto é, modificando a forma da matéria. Mais ainda: nesse trabalho de modificação da forma, ele é constantemente auxiliado por forças naturais. Vemos, então, que o trabalho não é a única fonte da riqueza material, dos valores de uso produzidos pelo trabalho. Como diz William Petty, o trabalho é seu pai, e a terra, sua mãe.
Passemos agora da mercadoria considerada como valor de uso ao valor das mercadorias.
Por nossa hipótese, o casaco vale duas vezes mais que o linho. Mas isso é uma mera diferença quantitativa, que por ora não nos interessa. Temos em mente, contudo, que, se o valor do casaco é o dobro do valor de 10 metros de linho, 20 metros de linho devem ter o mesmo valor que um casaco. Enquanto valores, o casaco e o linho são coisas de uma mesma substância, expressões objetivas de trabalho essencialmente idêntico. Mas alfaiataria e tecelagem são, qualitativamente, tipos diferentes de trabalho. Há, contudo, estados da sociedade em que um mesmo homem alterna a alfaiataria e a tecelagem, caso em que essas duas formas de trabalho são simples modificações do trabalho do mesmo indivíduo, e não funções especiais e fixas de pessoas diferentes, assim como o casaco que nosso alfaiate faz num dia e as calças que faz noutro implicam apenas uma variação no trabalho de um mesmo indivíduo. Além disso, vemos de imediato que, em nossa sociedade capitalista, uma dada porção de trabalho humano é, conforme a variação da demanda, oferecida ora sob a forma de alfaiataria, ora sob a forma de tecelagem. Essa mudança talvez não ocorra sem atrito, mas deve ocorrer.
A atividade produtiva, se deixamos de lado sua forma especial, isto é, o caráter útil do trabalho, nada mais é que dispêndio de força de trabalho humana. Alfaiataria e tecelagem, embora atividades produtivas qualitativamente diferentes, são cada uma um dispêndio produtivo de cérebro, nervos e músculos humanos, e, nesse sentido, são trabalho humano. São apenas dois modos diferentes de despender força de trabalho humana. Naturalmente, essa força de trabalho, que permanece a mesma sob todas as suas modificações, deve ter atingido certo grau de desenvolvimento antes de poder ser despendida numa multiplicidade de modos. Mas o valor de uma mercadoria representa trabalho humano em abstrato, dispêndio de trabalho humano em geral. E assim como, na sociedade, um general ou um banqueiro desempenha um grande papel, enquanto o simples homem, por outro lado, desempenha um papel bem miserável, o mesmo ocorre aqui com o simples trabalho humano. Trata-se do dispêndio de força de trabalho simples, isto é, da força de trabalho que, em média, abstraindo de qualquer desenvolvimento especial, existe no organismo de todo indivíduo comum. O trabalho simples médio, é verdade, varia de caráter em diferentes países e em diferentes épocas, mas, numa sociedade determinada, ele é dado. O trabalho qualificado conta apenas como trabalho simples intensificado, ou melhor, como trabalho simples multiplicado, uma dada quantidade de trabalho qualificado sendo considerada igual a uma quantidade maior de trabalho simples. A experiência mostra que essa redução é constantemente efetuada. Uma mercadoria pode ser produto do trabalho mais qualificado, mas seu valor, ao igualá-la ao produto do trabalho simples não qualificado, representa apenas uma quantidade determinada deste último. As diferentes proporções em que diferentes tipos de trabalho são reduzidos ao trabalho não qualificado como seu padrão são estabelecidas por um processo social que ocorre pelas costas dos produtores e, consequentemente, aparecem como fixadas pelo costume. Para simplificar, doravante consideraremos todo tipo de trabalho como trabalho não qualificado, trabalho simples; com isso, apenas nos poupamos o trabalho de fazer a redução.
Assim, portanto, ao considerar o casaco e o linho como valores, abstraímos seus diferentes valores de uso; o mesmo se dá com o trabalho representado por esses valores: desconsideramos a diferença entre suas formas úteis, a tecelagem e a alfaiataria. Assim como os valores de uso — casaco e linho — são combinações de atividades produtivas especiais com tecido e fio, enquanto os valores — casaco e linho — são, ao contrário, simples coagulações homogêneas de trabalho indiferenciado, também o trabalho incorporado nesses últimos valores não conta em virtude de sua relação produtiva com tecido e fio, mas apenas como dispêndio de força de trabalho humana. Alfaiataria e tecelagem são fatores necessários na criação dos valores de uso casaco e linho precisamente porque esses dois tipos de trabalho são de qualidades diferentes; mas somente na medida em que se abstraem suas qualidades especiais, somente na medida em que ambos possuem a mesma qualidade de serem trabalho humano, a alfaiataria e a tecelagem formam a substância dos valores desses mesmos artigos.
Casacos e linho, contudo, não são apenas valores, mas valores de grandeza determinada; e, segundo nossa hipótese, o casaco vale duas vezes mais que os dez metros de linho. De onde vem essa diferença em seus valores? Vem do fato de que o linho contém apenas metade do trabalho contido no casaco e, consequentemente, de que, na produção deste último, a força de trabalho deve ter sido despendida durante o dobro do tempo necessário para a produção do primeiro.
Portanto, com referência ao valor de uso, o trabalho contido numa mercadoria conta apenas qualitativamente; com referência ao valor, conta apenas quantitativamente e deve antes ser reduzido a trabalho humano puro e simples. No primeiro caso, trata-se de como e o quê; no segundo, de quanto, por quanto tempo. Como a grandeza do valor de uma mercadoria representa apenas a quantidade de trabalho nela incorporada, segue-se que todas as mercadorias, tomadas em certas proporções, devem ser iguais em valor.
Se a força produtiva de todos os diferentes tipos de trabalho útil requeridos para a produção de um casaco permanece inalterada, a soma dos valores dos casacos produzidos aumenta com seu número. Se um casaco representa x dias de trabalho, dois casacos representam 2x dias de trabalho, e assim por diante. Mas suponhamos que a duração do trabalho necessário para a produção de um casaco dobre ou caia pela metade. No primeiro caso, um casaco vale tanto quanto dois casacos valiam antes; no segundo, dois casacos valem apenas tanto quanto um valia antes, embora, em ambos os casos, um casaco preste o mesmo serviço que antes, e o trabalho útil nele incorporado permaneça da mesma qualidade. Mas a quantidade de trabalho gasta em sua produção foi alterada.
Um aumento na quantidade de valores de uso é um aumento da riqueza material. Com dois casacos, dois homens podem vestir-se; com um casaco, apenas um. No entanto, a uma quantidade aumentada de riqueza material pode corresponder uma queda simultânea na grandeza de seu valor. Esse movimento antagônico tem origem no duplo caráter do trabalho. A força produtiva refere-se, evidentemente, apenas ao trabalho em alguma forma útil concreta, sendo a eficácia de qualquer atividade produtiva especial, durante dado tempo, dependente de sua produtividade. O trabalho útil torna-se, portanto, fonte mais ou menos abundante de produtos, na proporção em que sua produtividade aumenta ou diminui. Por outro lado, nenhuma mudança nessa produtividade afeta o trabalho representado pelo valor. Como a força produtiva é atributo das formas concretas úteis do trabalho, ela naturalmente não pode mais ter relação com esse trabalho assim que abstraímos essas formas concretas úteis. Assim, por mais que varie a força produtiva, o mesmo trabalho, exercido durante períodos iguais de tempo, sempre produz quantidades iguais de valor. Mas produzirá, durante períodos iguais de tempo, quantidades diferentes de valores de uso: mais, se a força produtiva aumentar; menos, se diminuir. A mesma mudança na força produtiva que aumenta a fecundidade do trabalho e, consequentemente, a quantidade de valores de uso produzidos por esse trabalho, diminuirá o valor total dessa quantidade aumentada de valores de uso, desde que tal mudança encurte o tempo total de trabalho necessário para sua produção; e vice-versa.
Por um lado, todo trabalho é, falando fisiologicamente, dispêndio de força de trabalho humana e, em seu caráter de trabalho humano abstrato idêntico, cria e forma o valor das mercadorias. Por outro lado, todo trabalho é dispêndio de força de trabalho humana numa forma especial e com um objetivo determinado; e, nesse caráter de trabalho concreto útil, produz valores de uso.
Seção 3: A forma do valor ou valor de troca
As mercadorias vêm ao mundo na forma de valores de uso, artigos ou bens, como ferro, linho, trigo etc. Essa é sua forma corpórea simples, caseira, natural. Contudo, elas só são mercadorias porque são algo duplo: objetos de utilidade e, ao mesmo tempo, depositários de valor. Portanto, elas se manifestam como mercadorias, ou possuem a forma de mercadorias, apenas na medida em que têm duas formas: uma forma física ou natural e uma forma de valor.
A realidade do valor das mercadorias difere, nesse aspecto, de Dame Quickly: não sabemos “onde encontrá-la”. O valor das mercadorias é o oposto direto da materialidade grosseira de sua substância; nem um átomo de matéria entra em sua composição. Vire e examine uma mercadoria isolada, como quiser; enquanto ela permanece objeto de valor, parece impossível apreendê-la. Se, porém, temos em mente que o valor das mercadorias possui uma realidade puramente social, e que elas adquirem essa realidade somente na medida em que são expressões ou incorporações de uma substância social idêntica, isto é, trabalho humano, segue-se naturalmente que o valor só pode manifestar-se na relação social de mercadoria com mercadoria. De fato, partimos do valor de troca, ou da relação de troca das mercadorias, para chegar ao valor que se esconde por trás dele. Devemos agora retornar a essa forma sob a qual o valor apareceu pela primeira vez para nós.
Todos sabem, mesmo que não saibam mais nada, que as mercadorias têm uma forma de valor comum a todas elas, e que apresenta um contraste marcante com as variadas formas corpóreas de seus valores de uso. Refiro-me à sua forma dinheiro. Aqui, porém, coloca-se diante de nós uma tarefa cuja execução jamais foi sequer tentada pela economia burguesa: rastrear a gênese dessa forma dinheiro, desenvolver a expressão de valor implícita na relação de valor das mercadorias desde seu contorno mais simples, quase imperceptível, até a deslumbrante forma dinheiro. Ao fazer isso, resolveremos ao mesmo tempo o enigma apresentado pelo dinheiro.
A relação de valor mais simples é evidentemente a de uma mercadoria com alguma outra mercadoria de tipo diferente. Por isso, a relação entre os valores de duas mercadorias nos fornece a expressão mais simples do valor de uma mercadoria individual.
A. Forma elementar ou acidental do valor
x mercadoria A = y mercadoria B, oux mercadoria A vale y mercadoria B.
20 metros de linho = 1 casaco, ou20 metros de linho valem 1 casaco.
1. Os dois polos da expressão de valor. Forma relativa e forma equivalente
Todo o mistério da forma do valor está escondido nessa forma elementar. Sua análise é, portanto, nossa verdadeira dificuldade.
Aqui, dois tipos diferentes de mercadoria — em nosso exemplo, o linho e o casaco — desempenham evidentemente dois papéis diferentes. O linho expressa seu valor no casaco; o casaco serve como material no qual esse valor é expresso. O primeiro desempenha um papel ativo; o segundo, um papel passivo. O valor do linho é representado como valor relativo, ou aparece em forma relativa. O casaco funciona como equivalente, ou aparece em forma equivalente.
A forma relativa e a forma equivalente são dois elementos intimamente ligados, mutuamente dependentes e inseparáveis da expressão de valor; mas, ao mesmo tempo, são extremos mutuamente exclusivos, antagônicos — isto é, polos da mesma expressão. Elas são atribuídas, respectivamente, às duas mercadorias diferentes postas em relação por essa expressão. Não é possível expressar o valor do linho em linho. 20 metros de linho = 20 metros de linho não é uma expressão de valor. Pelo contrário, tal equação apenas diz que 20 metros de linho nada mais são que 20 metros de linho, uma quantidade determinada do valor de uso linho. O valor do linho, portanto, só pode ser expresso relativamente, isto é, em alguma outra mercadoria. A forma relativa do valor do linho pressupõe, portanto, a presença de alguma outra mercadoria — aqui, o casaco — sob a forma de equivalente. Por outro lado, a mercadoria que figura como equivalente não pode assumir ao mesmo tempo a forma relativa. Essa segunda mercadoria não é aquela cujo valor é expresso. Sua função é apenas servir como material no qual se expressa o valor da primeira mercadoria.
Sem dúvida, a expressão 20 metros de linho = 1 casaco, ou 20 metros de linho valem 1 casaco, implica a relação oposta: 1 casaco = 20 metros de linho, ou 1 casaco vale 20 metros de linho. Mas, nesse caso, devo inverter a equação para expressar relativamente o valor do casaco; e, assim que faço isso, o linho se torna o equivalente em vez do casaco. Uma única mercadoria não pode, portanto, assumir simultaneamente, na mesma expressão de valor, ambas as formas. A própria polaridade dessas formas as torna mutuamente exclusivas.
Assim, se uma mercadoria assume a forma relativa ou a forma oposta, equivalente, depende inteiramente de sua posição acidental na expressão de valor — isto é, de ser ela a mercadoria cujo valor está sendo expresso ou a mercadoria na qual o valor está sendo expresso.
2. A forma relativa do valor
a) A natureza e o significado dessa forma
Para descobrir como a expressão elementar do valor de uma mercadoria se encontra oculta na relação de valor entre duas mercadorias, devemos, em primeiro lugar, considerar esta última inteiramente à parte de seu aspecto quantitativo. O procedimento usual costuma ser o inverso: na relação de valor, vê-se apenas a proporção entre quantidades determinadas de dois tipos diferentes de mercadorias que são consideradas iguais entre si. Esquece-se facilmente que as grandezas de coisas diferentes só podem ser comparadas quantitativamente quando essas grandezas são expressas em termos da mesma unidade. É apenas como expressões dessa unidade que elas pertencem à mesma denominação e, portanto, são comensuráveis.
Quer 20 metros de linho = 1 casaco, ou = 20 casacos, ou = x casacos — isto é, quer uma dada quantidade de linho valha poucos ou muitos casacos —, toda afirmação desse tipo implica que linho e casacos, como grandezas de valor, são expressões da mesma unidade, coisas da mesma espécie. Linho = casaco é a base da equação.
Mas as duas mercadorias cuja identidade qualitativa é assim pressuposta não desempenham o mesmo papel. Apenas o valor do linho é expresso. E como? Por sua referência ao casaco como seu equivalente, como algo que pode ser trocado por ele. Nessa relação, o casaco é o modo de existência do valor, é valor incorporado, pois somente como tal é o mesmo que o linho. Por outro lado, o próprio valor do linho vem à tona, recebe expressão independente, pois somente enquanto valor ele é comparável ao casaco como coisa de igual valor, ou permutável com o casaco. Para tomar emprestada uma ilustração da química, o ácido butírico é uma substância diferente do formiato de propila. Contudo, ambos são compostos das mesmas substâncias químicas — carbono, hidrogênio e oxigênio — e, além disso, nas mesmas proporções: C₄H₈O₂. Se agora igualássemos o ácido butírico ao formiato de propila, então, em primeiro lugar, o formiato de propila seria, nessa relação, apenas uma forma de existência de C₄H₈O₂; e, em segundo lugar, estaríamos afirmando que o ácido butírico também consiste em C₄H₈O₂. Portanto, ao igualar assim as duas substâncias, seria dada expressão à sua composição química, enquanto suas diferentes formas físicas seriam negligenciadas.
Se dizemos que, enquanto valores, as mercadorias são simples coagulações de trabalho humano, nós as reduzimos, por nossa análise, é verdade, à abstração valor; mas não atribuímos a esse valor nenhuma forma separada de sua forma corpórea. Ocorre de outro modo na relação de valor de uma mercadoria com outra. Aqui, uma se destaca em seu caráter de valor por meio de sua relação com a outra.
Ao fazer do casaco o equivalente do linho, igualamos o trabalho incorporado no primeiro ao incorporado no segundo. É verdade que a alfaiataria que faz o casaco é trabalho concreto de um tipo diferente da tecelagem que faz o linho. Mas o ato de igualá-la à tecelagem reduz a alfaiataria àquilo que é realmente igual nos dois tipos de trabalho, ao seu caráter comum de trabalho humano. Desse modo indireto, expressa-se então o fato de que a tecelagem também, na medida em que tece valor, nada tem que a distinga da alfaiataria e, consequentemente, é trabalho humano abstrato. É a expressão de equivalência entre tipos diferentes de mercadorias que põe em relevo o caráter específico do trabalho criador de valor, e o faz reduzindo efetivamente as diferentes variedades de trabalho incorporadas nos diferentes tipos de mercadorias à sua qualidade comum de trabalho humano em abstrato.
Há, contudo, algo mais exigido além da expressão do caráter específico do trabalho de que consiste o valor do linho. Força de trabalho humana em movimento, ou trabalho humano, cria valor, mas não é ela própria valor. Torna-se valor apenas em seu estado coagulado, quando incorporada na forma de algum objeto. Para expressar o valor do linho como coagulação de trabalho humano, esse valor deve ser expresso como tendo existência objetiva, como sendo algo materialmente diferente do próprio linho e, no entanto, algo comum ao linho e a todas as outras mercadorias. O problema já está resolvido.
Quando ocupa a posição de equivalente na equação de valor, o casaco figura qualitativamente como igual ao linho, como algo da mesma espécie, porque é valor. Nessa posição, é uma coisa na qual nada vemos senão valor, ou cuja forma corpórea palpável representa valor. Contudo, o próprio casaco, o corpo da mercadoria casaco, é um simples valor de uso. Um casaco, como tal, não nos diz que é valor mais do que o primeiro pedaço de linho que pegamos. Isso mostra que, quando colocado em relação de valor com o linho, o casaco significa mais do que quando está fora dessa relação, assim como muitos homens, ao desfilar com um uniforme esplêndido, contam mais do que quando estão à paisana.
Na produção do casaco, força de trabalho humana, sob a forma de alfaiataria, deve ter sido efetivamente despendida. Portanto, trabalho humano está acumulado nele. Nesse aspecto, o casaco é depositário de valor; mas, embora gasto até o fio, ele não deixa transparecer esse fato. E, como equivalente do linho na equação de valor, ele existe apenas sob esse aspecto; conta, portanto, como valor incorporado, como um corpo que é valor. A, por exemplo, não pode ser “vossa majestade” para B a menos que, ao mesmo tempo, a majestade, aos olhos de B, assuma a forma corpórea de A e, além disso, a cada novo pai do povo, mude suas feições, cabelos e muitas outras coisas.
Daí que, na equação de valor em que o casaco é o equivalente do linho, o casaco funcione como forma de valor. O valor da mercadoria linho é expresso pela forma corpórea da mercadoria casaco, o valor de uma pelo valor de uso da outra. Como valor de uso, o linho é algo palpavelmente diferente do casaco; como valor, é o mesmo que o casaco e agora tem a aparência de um casaco. Assim, o linho adquire uma forma de valor diferente de sua forma física. O fato de que é valor torna-se manifesto por sua igualdade com o casaco, assim como a natureza ovina de um cristão se mostra em sua semelhança com o Cordeiro de Deus.
Vemos, então, que tudo aquilo que nossa análise do valor das mercadorias já nos disse é dito pelo próprio linho assim que ele entra em comunicação com outra mercadoria, o casaco. Só que ele trai seus pensamentos naquela linguagem que lhe é familiar, a linguagem das mercadorias. Para nos dizer que seu próprio valor é criado pelo trabalho em seu caráter abstrato de trabalho humano, ele diz que o casaco, na medida em que vale tanto quanto o linho e, portanto, é valor, consiste no mesmo trabalho que o linho. Para nos informar que sua sublime realidade como valor não é a mesma que seu corpo engomado, ele diz que o valor tem a aparência de um casaco e, consequentemente, que, na medida em que o linho é valor, ele e o casaco se parecem como duas gotas d’água. Observemos aqui que a linguagem das mercadorias tem, além do hebraico, muitos outros dialetos mais ou menos corretos. O alemão Wertsein, “valer”, por exemplo, expressa de modo menos marcante que os verbos românicos valere, valer, valoir, que a equiparação da mercadoria B à mercadoria A é o modo próprio da mercadoria A expressar seu valor. Paris vale bem uma missa.
Por meio, portanto, da relação de valor expressa em nossa equação, a forma corpórea da mercadoria B torna-se a forma de valor da mercadoria A, ou o corpo da mercadoria B atua como espelho do valor da mercadoria A. Ao pôr-se em relação com a mercadoria B, como valor em pessoa, como a matéria de que é feito o trabalho humano, a mercadoria A converte o valor de uso B na substância em que expressa seu próprio valor. O valor de A, assim expresso no valor de uso de B, assumiu a forma de valor relativo.
b) Determinação quantitativa do valor relativo
Toda mercadoria cujo valor se pretende expressar é um objeto útil de quantidade determinada, como 15 alqueires de trigo ou 100 libras de café. E uma dada quantidade de qualquer mercadoria contém uma quantidade determinada de trabalho humano. A forma de valor deve, portanto, expressar não apenas valor em geral, mas também valor em quantidade determinada. Logo, na relação de valor da mercadoria A com a mercadoria B, do linho com o casaco, não só esta última, como valor em geral, é tornada qualitativamente igual ao linho, mas uma quantidade determinada de casaco — 1 casaco — é tornada equivalente a uma quantidade determinada de linho — 20 metros.
A equação 20 metros de linho = 1 casaco, ou 20 metros de linho valem 1 casaco, implica que a mesma quantidade de substância de valor — trabalho coagulado — está incorporada em ambos; que as duas mercadorias custaram cada uma a mesma quantidade de trabalho, isto é, a mesma quantidade de tempo de trabalho. Mas o tempo de trabalho necessário para a produção de 20 metros de linho ou de 1 casaco varia com cada mudança na produtividade da tecelagem ou da alfaiataria. Devemos agora considerar a influência dessas mudanças sobre o aspecto quantitativo da expressão relativa do valor.
I. Suponhamos que o valor do linho varie, permanecendo constante o do casaco. Se, digamos, em consequência do esgotamento do solo cultivado com linho, o tempo de trabalho necessário para a produção do linho dobrar, o valor do linho também dobrará. Em vez da equação 20 metros de linho = 1 casaco, teríamos 20 metros de linho = 2 casacos, pois 1 casaco conteria agora apenas metade do tempo de trabalho incorporado em 20 metros de linho. Se, por outro lado, em consequência, digamos, de teares aperfeiçoados, esse tempo de trabalho for reduzido pela metade, o valor do linho cairá pela metade. Consequentemente, teríamos 20 metros de linho = ½ casaco. O valor relativo da mercadoria A, isto é, seu valor expresso na mercadoria B, sobe e desce diretamente conforme o valor de A, supondo-se constante o valor de B.
II. Suponhamos que o valor do linho permaneça constante, enquanto o valor do casaco varia. Nessas circunstâncias, se, por exemplo, em consequência de uma má safra de lã, o tempo de trabalho necessário para a produção de um casaco dobrar, teremos, em vez de 20 metros de linho = 1 casaco, 20 metros de linho = ½ casaco. Se, por outro lado, o valor do casaco cair pela metade, então 20 metros de linho = 2 casacos. Portanto, se o valor da mercadoria A permanece constante, seu valor relativo expresso na mercadoria B sobe e desce inversamente ao valor de B.
Se compararmos os diferentes casos em I e II, veremos que a mesma mudança de grandeza no valor relativo pode surgir de causas totalmente opostas. Assim, a equação 20 metros de linho = 1 casaco torna-se 20 metros de linho = 2 casacos ou porque o valor do linho dobrou ou porque o valor do casaco caiu pela metade; e torna-se 20 metros de linho = ½ casaco ou porque o valor do linho caiu pela metade ou porque o valor do casaco dobrou.
III. Suponhamos que as quantidades de tempo de trabalho respectivamente necessárias para a produção do linho e do casaco variem simultaneamente na mesma direção e na mesma proporção. Nesse caso, 20 metros de linho continuam iguais a 1 casaco, por mais que seus valores tenham se alterado. Sua mudança de valor aparece assim que são comparados com uma terceira mercadoria cujo valor permaneceu constante. Se os valores de todas as mercadorias subissem ou caíssem simultaneamente e na mesma proporção, seus valores relativos permaneceriam inalterados. Sua mudança real de valor apareceria na quantidade diminuída ou aumentada de mercadorias produzidas em dado tempo.
IV. O tempo de trabalho respectivamente necessário para a produção do linho e do casaco, e, portanto, o valor dessas mercadorias, pode variar simultaneamente na mesma direção, mas em proporções desiguais; ou em direções opostas; ou de outros modos. O efeito de todas essas variações possíveis sobre o valor relativo de uma mercadoria pode ser deduzido dos resultados de I, II e III.
Assim, mudanças reais na grandeza do valor não se refletem de maneira inequívoca nem exaustiva em sua expressão relativa, isto é, na equação que expressa a grandeza do valor relativo. O valor relativo de uma mercadoria pode variar embora seu valor permaneça constante. Seu valor relativo pode permanecer constante embora seu valor varie; e, por fim, variações simultâneas na grandeza do valor e na de sua expressão relativa de modo algum correspondem necessariamente em quantidade.
3. A forma equivalente do valor
Vimos que a mercadoria A — o linho —, ao expressar seu valor no valor de uso de uma mercadoria de tipo diferente — o casaco —, imprime ao mesmo tempo a esta última uma forma específica de valor, a forma de equivalente. A mercadoria linho manifesta sua qualidade de ter valor pelo fato de que o casaco, sem ter assumido uma forma de valor diferente de sua forma corpórea, é equiparado ao linho. O fato de que este último tem valor é expresso, portanto, dizendo-se que o casaco é diretamente permutável por ele. Assim, quando dizemos que uma mercadoria está na forma equivalente, expressamos o fato de que ela é diretamente permutável por outras mercadorias.
Quando uma mercadoria, como um casaco, serve de equivalente de outra, como o linho, e os casacos adquirem consequentemente a propriedade característica de serem diretamente permutáveis por linho, estamos longe de saber em que proporção os dois são permutáveis. Dado o valor do linho em sua grandeza, essa proporção depende do valor do casaco. Quer o casaco sirva de equivalente e o linho de valor relativo, quer o linho sirva de equivalente e o casaco de valor relativo, a grandeza do valor do casaco é determinada, independentemente de sua forma de valor, pelo tempo de trabalho necessário para sua produção. Mas sempre que o casaco assume, na equação de valor, a posição de equivalente, seu valor não adquire expressão quantitativa; ao contrário, a mercadoria casaco figura agora apenas como uma quantidade determinada de algum artigo.
Por exemplo: 40 metros de linho valem o quê? 2 casacos. Como a mercadoria casaco desempenha aqui o papel de equivalente, porque o valor de uso casaco, em oposição ao linho, figura como incorporação de valor, um número determinado de casacos basta para expressar a quantidade determinada de valor existente no linho. Dois casacos podem, portanto, expressar a quantidade de valor de 40 metros de linho, mas nunca podem expressar a quantidade de seu próprio valor. Uma observação superficial desse fato, isto é, de que na equação de valor o equivalente figura exclusivamente como uma simples quantidade de algum artigo, de algum valor de uso, levou Bailey, assim como muitos outros antes e depois dele, a ver na expressão de valor apenas uma relação quantitativa. A verdade é que, quando uma mercadoria atua como equivalente, nenhuma determinação quantitativa de seu valor é expressa.
A primeira peculiaridade que nos chama a atenção ao considerar a forma equivalente é esta: o valor de uso torna-se a forma de manifestação, a forma aparente, de seu oposto, o valor.
A forma corpórea da mercadoria torna-se sua forma de valor. Mas, note-se bem: esse quid pro quo existe no caso de qualquer mercadoria B somente quando alguma outra mercadoria A entra em relação de valor com ela, e apenas dentro dos limites dessa relação. Como nenhuma mercadoria pode estar em relação de equivalente consigo mesma e, assim, transformar sua própria forma corpórea na expressão de seu próprio valor, toda mercadoria é obrigada a escolher alguma outra mercadoria como seu equivalente e a aceitar o valor de uso, isto é, a forma corpórea dessa outra mercadoria como a forma de seu próprio valor.
Uma das medidas que aplicamos às mercadorias como substâncias materiais, como valores de uso, servirá para ilustrar esse ponto. Um pão de açúcar, sendo um corpo, é pesado e, portanto, tem peso; mas não podemos ver nem tocar esse peso. Tomamos então diversos pedaços de ferro, cujo peso foi previamente determinado. O ferro, como ferro, não é mais a forma de manifestação do peso do que o pão de açúcar. No entanto, para expressar o pão de açúcar como tendo determinado peso, nós o colocamos numa relação de peso com o ferro. Nessa relação, o ferro funciona como um corpo que representa nada além de peso. Uma certa quantidade de ferro serve, portanto, como medida do peso do açúcar e representa, em relação ao pão de açúcar, peso incorporado, a forma de manifestação do peso. Esse papel é desempenhado pelo ferro apenas dentro dessa relação na qual o açúcar, ou qualquer outro corpo cujo peso deva ser determinado, entra com o ferro. Se ambos não fossem pesados, não poderiam entrar nessa relação, e um deles não poderia, portanto, servir de expressão do peso do outro. Quando lançamos ambos na balança, vemos, na realidade, que, como peso, eles são ambos o mesmo e que, portanto, quando tomados nas devidas proporções, têm o mesmo peso. Assim como a substância ferro, como medida de peso, representa em relação ao pão de açúcar apenas o peso, em nossa expressão de valor o objeto material casaco representa, em relação ao linho, apenas valor.
Aqui, contudo, cessa a analogia. O ferro, na expressão do peso do pão de açúcar, representa uma propriedade natural comum aos dois corpos, isto é, seu peso; mas o casaco, na expressão do valor do linho, representa uma propriedade não natural de ambos, algo puramente social, isto é, seu valor.
Como a forma relativa de valor de uma mercadoria — o linho, por exemplo — expressa o valor dessa mercadoria como algo inteiramente diferente de sua substância e de suas propriedades, como algo, por exemplo, semelhante a casaco, vemos que essa própria expressão indica que alguma relação social está na sua base. Com a forma equivalente, ocorre o contrário. A própria essência dessa forma é que a mercadoria material em si — o casaco —, tal como é, expressa valor e é dotada da forma de valor pela própria natureza. É claro que isso só vale enquanto existe a relação de valor em que o casaco ocupa a posição de equivalente em relação ao linho. Contudo, como as propriedades de uma coisa não resultam de suas relações com outras coisas, mas apenas se manifestam nessas relações, o casaco parece estar dotado de sua forma equivalente, de sua propriedade de ser diretamente permutável, tanto por natureza quanto está dotado da propriedade de ser pesado ou da capacidade de nos manter aquecidos. Daí o caráter enigmático da forma equivalente, que escapa à atenção do economista político burguês até que essa forma, plenamente desenvolvida, se confronte com ele na figura do dinheiro. Ele então procura explicar o caráter místico do ouro e da prata substituindo-os por mercadorias menos deslumbrantes e recitando, com satisfação sempre renovada, o catálogo de todas as mercadorias possíveis que em algum momento desempenharam o papel de equivalente. Ele não suspeita minimamente que a expressão mais simples de valor, como 20 metros de linho = 1 casaco, já propõe à nossa solução o enigma da forma equivalente.
O corpo da mercadoria que serve de equivalente figura como materialização do trabalho humano em abstrato e, ao mesmo tempo, é produto de algum trabalho concreto especificamente útil. Esse trabalho concreto torna-se, portanto, o meio para expressar o trabalho humano abstrato. Se, por um lado, o casaco figura como nada além da incorporação de trabalho humano abstrato, por outro, a alfaiataria que está efetivamente incorporada nele conta como nada além da forma sob a qual esse trabalho abstrato se realiza. Na expressão do valor do linho, a utilidade da alfaiataria consiste não em fazer roupas, mas em fazer um objeto que reconhecemos imediatamente como valor e, portanto, como uma coagulação de trabalho, mas de trabalho indistinguível daquele realizado no valor do linho. Para agir como esse espelho de valor, o trabalho de alfaiataria não deve refletir nada além de sua qualidade abstrata de ser trabalho humano em geral.
Na alfaiataria, assim como na tecelagem, força de trabalho humana é despendida. Ambas possuem, portanto, a propriedade geral de serem trabalho humano e, por isso, em certos casos, como na produção de valor, podem ter de ser consideradas apenas sob esse aspecto. Não há nada de misterioso nisso. Mas, na expressão de valor, há uma completa inversão dos termos. Por exemplo: como expressar o fato de que a tecelagem cria o valor do linho não em virtude de ser tecelagem, como tal, mas por causa de sua propriedade geral de ser trabalho humano? Simplesmente opondo à tecelagem aquela outra forma particular de trabalho concreto — neste caso, a alfaiataria — que produz o equivalente do produto da tecelagem. Assim como o casaco em sua forma corpórea tornou-se expressão direta de valor, também agora a alfaiataria, uma forma concreta de trabalho, aparece como a incorporação direta e palpável do trabalho humano em geral.
Daí a segunda peculiaridade da forma equivalente: o trabalho concreto torna-se a forma sob a qual se manifesta seu oposto, o trabalho humano abstrato.
Mas, porque esse trabalho concreto, em nosso caso a alfaiataria, figura como trabalho humano indiferenciado e é diretamente identificado com ele, também figura como idêntico a qualquer outro tipo de trabalho e, portanto, ao trabalho incorporado no linho. Consequentemente, embora, como todo outro trabalho produtor de mercadorias, seja trabalho de indivíduos privados, ele figura ao mesmo tempo como trabalho diretamente social em seu caráter. Essa é a razão pela qual resulta num produto diretamente permutável por outras mercadorias. Temos, então, uma terceira peculiaridade da forma equivalente: o trabalho de indivíduos privados assume a forma de seu oposto, trabalho diretamente social em sua forma.
As duas últimas peculiaridades da forma equivalente tornar-se-ão mais inteligíveis se voltarmos ao grande pensador que foi o primeiro a analisar tantas formas, seja do pensamento, da sociedade ou da natureza, e entre elas também a forma do valor. Refiro-me a Aristóteles.
Em primeiro lugar, ele enuncia claramente que a forma dinheiro das mercadorias é apenas o desenvolvimento ulterior da forma simples do valor — isto é, da expressão do valor de uma mercadoria em alguma outra mercadoria tomada ao acaso; pois ele diz:
5 leitos = 1 casa
não se distingue de
5 leitos = tanto dinheiro.
Ele vê ainda que a relação de valor que dá origem a essa expressão torna necessário que a casa seja qualitativamente igualada ao leito, e que, sem tal equiparação, essas duas coisas claramente diferentes não poderiam ser comparadas entre si como quantidades comensuráveis. “A troca”, diz ele, “não pode ocorrer sem igualdade, e a igualdade sem comensurabilidade.” Aqui, porém, ele se detém e abandona a análise ulterior da forma do valor. “É, contudo, na realidade, impossível que coisas tão diferentes sejam comensuráveis”, isto é, qualitativamente iguais. Tal equiparação só pode ser algo estranho à sua natureza real, portanto apenas “um expediente para fins práticos”.
Aristóteles, portanto, ele próprio nos diz o que bloqueou seu caminho para uma análise mais avançada: a ausência de qualquer conceito de valor. O que é esse algo igual, essa substância comum que admite que o valor dos leitos seja expresso por uma casa? Tal coisa, na verdade, não pode existir, diz Aristóteles. E por que não? Comparada aos leitos, a casa de fato representa algo igual a eles, na medida em que representa aquilo que é realmente igual tanto nos leitos quanto na casa. E isso é trabalho humano.
Havia, contudo, um fato importante que impediu Aristóteles de ver que atribuir valor às mercadorias é apenas um modo de expressar todo trabalho como trabalho humano igual e, consequentemente, como trabalho de igual qualidade. A sociedade grega era fundada na escravidão e tinha, portanto, por base natural a desigualdade dos homens e de suas forças de trabalho. O segredo da expressão do valor, isto é, que todos os tipos de trabalho são iguais e equivalentes porque, e na medida em que, são trabalho humano em geral, não pode ser decifrado até que a noção de igualdade humana já tenha adquirido a fixidez de um preconceito popular. Isso, contudo, só é possível numa sociedade em que a grande massa dos produtos do trabalho assume a forma de mercadorias, na qual, consequentemente, a relação dominante entre homem e homem é a de proprietários de mercadorias. O brilho do gênio de Aristóteles se mostra apenas por isto: ele descobriu, na expressão do valor das mercadorias, uma relação de igualdade. As condições peculiares da sociedade em que viveu é que o impediram de descobrir o que, “na verdade”, estava por trás dessa igualdade.
4. A forma elementar do valor considerada como um todo
A forma elementar do valor de uma mercadoria está contida na equação que expressa sua relação de valor com outra mercadoria de tipo diferente, ou em sua relação de troca com esta. O valor da mercadoria A é expresso qualitativamente pelo fato de que a mercadoria B é diretamente permutável por ela. Seu valor é expresso quantitativamente pelo fato de que uma quantidade determinada de B é permutável por uma quantidade determinada de A. Em outras palavras, o valor de uma mercadoria obtém expressão independente e definida ao assumir a forma de valor de troca. Quando, no início deste capítulo, dissemos, na linguagem comum, que uma mercadoria é ao mesmo tempo valor de uso e valor de troca, estávamos, falando com rigor, errados. Uma mercadoria é um valor de uso, ou objeto de utilidade, e um valor. Ela se manifesta como essa coisa dupla que é assim que seu valor assume uma forma independente — a forma de valor de troca. Ela nunca assume essa forma quando isolada, mas apenas quando colocada numa relação de valor ou de troca com outra mercadoria de tipo diferente. Uma vez que sabemos disso, tal modo de expressão não causa prejuízo; serve simplesmente como abreviação.
Nossa análise mostrou que a forma ou expressão do valor de uma mercadoria se origina da natureza do valor, e não que o valor e sua grandeza se originem do modo de sua expressão como valor de troca. Esta, porém, é a ilusão tanto dos mercantilistas e de seus recentes revivificadores, Ferrier, Ganilh e outros, quanto de seus antípodas, os modernos mascates do livre-comércio, como Bastiat. Os mercantilistas põem ênfase especial no aspecto qualitativo da expressão de valor e, consequentemente, na forma equivalente das mercadorias, que atinge sua plena perfeição no dinheiro. Os modernos vendedores ambulantes do livre-comércio, que precisam se livrar de seu artigo a qualquer preço, por outro lado, enfatizam sobretudo o aspecto quantitativo da forma relativa do valor. Para eles, consequentemente, não existe valor nem grandeza de valor em parte alguma, exceto em sua expressão por meio da relação de troca das mercadorias, isto é, na lista diária dos preços correntes. Macleod, que assumiu a tarefa de vestir as ideias confusas da Lombard Street com os mais eruditos ornamentos, é uma bem-sucedida mistura dos mercantilistas supersticiosos com os iluminados mascates do livre-comércio.
Um exame atento da expressão do valor de A em termos de B, contida na equação que expressa a relação de valor de A com B, mostrou-nos que, dentro dessa relação, a forma corpórea de A figura apenas como valor de uso; a forma corpórea de B, apenas como forma ou aspecto do valor. A oposição ou contraste existente internamente em cada mercadoria entre valor de uso e valor torna-se, portanto, evidente externamente quando duas mercadorias são colocadas numa relação tal entre si que a mercadoria cujo valor se pretende expressar figura diretamente como simples valor de uso, enquanto a mercadoria na qual esse valor deve ser expresso figura diretamente como simples valor de troca. Daí que a forma elementar do valor de uma mercadoria seja a forma elementar em que se torna aparente o contraste contido nessa mercadoria entre valor de uso e valor.
Todo produto do trabalho é, em todos os estados da sociedade, um valor de uso; mas é apenas numa época histórica determinada do desenvolvimento de uma sociedade que tal produto se torna mercadoria: precisamente na época em que o trabalho gasto na produção de um artigo útil passa a ser expresso como uma das qualidades objetivas desse artigo, isto é, como seu valor. Segue-se, portanto, que a forma elementar do valor é também a forma primitiva sob a qual um produto do trabalho aparece historicamente como mercadoria, e que a transformação gradual desses produtos em mercadorias avança passo a passo com o desenvolvimento da forma de valor.
Percebemos, à primeira vista, as deficiências da forma elementar do valor: ela é um mero germe, que deve passar por uma série de metamorfoses antes de amadurecer na forma preço.
A expressão do valor da mercadoria A em termos de qualquer outra mercadoria B apenas distingue o valor do valor de uso de A e, portanto, coloca A apenas numa relação de troca com uma única mercadoria diferente, B; mas está ainda longe de expressar a igualdade qualitativa e a proporcionalidade quantitativa de A em relação a todas as mercadorias. À forma elementar relativa do valor de uma mercadoria corresponde a forma equivalente singular de uma outra mercadoria. Assim, na expressão relativa do valor do linho, o casaco assume a forma de equivalente, ou de ser diretamente permutável, apenas em relação a uma única mercadoria, o linho.
Não obstante, a forma elementar do valor passa por uma transição fácil a uma forma mais completa. É verdade que, por meio da forma elementar, o valor de uma mercadoria A é expresso em termos de uma, e apenas uma, outra mercadoria. Mas essa outra pode ser uma mercadoria de qualquer espécie: casaco, ferro, trigo ou qualquer outra coisa. Portanto, conforme A é colocada em relação com uma ou outra, obtemos, para uma mesma mercadoria, diferentes expressões elementares de valor. O número dessas expressões possíveis é limitado apenas pelo número de diferentes espécies de mercadorias distintas dela. A expressão isolada do valor de A é, portanto, conversível numa série, prolongável indefinidamente, de diferentes expressões elementares desse valor.
B. Forma total ou desenvolvida do valor
z mercadoria A = u mercadoria B, ou = v mercadoria C, ou = w mercadoria D, ou = mercadoria E etc.
20 metros de linho = 1 casaco, ou = 10 libras de chá, ou = 40 libras de café, ou = 1 quarto de trigo, ou = 2 onças de ouro, ou = ½ tonelada de ferro etc.
1. A forma relativa desenvolvida do valor
O valor de uma única mercadoria, o linho, por exemplo, é agora expresso em termos de inúmeros outros elementos do mundo das mercadorias. Toda outra mercadoria torna-se agora um espelho do valor do linho. É assim que, pela primeira vez, esse valor se mostra em sua verdadeira luz como coagulação de trabalho humano indiferenciado. Pois o trabalho que o cria se revela agora expressamente como trabalho que conta igualmente com todo outro tipo de trabalho humano, não importa sua forma — alfaiataria, lavoura, mineração etc. —, e não importa, portanto, se se realiza em casacos, trigo, ferro ou ouro. O linho, em virtude da forma de seu valor, entra agora numa relação social não mais com apenas um outro tipo de mercadoria, mas com todo o mundo das mercadorias. Como mercadoria, ele é cidadão desse mundo. Ao mesmo tempo, a série interminável de equações de valor implica que, no que diz respeito ao valor de uma mercadoria, é indiferente sob qual forma particular, ou tipo de valor de uso, ele aparece.
Na primeira forma, 20 metros de linho = 1 casaco, poderia, pelo que aparece, ser puro acaso que essas duas mercadorias fossem permutáveis em quantidades determinadas. Na segunda forma, ao contrário, percebemos de imediato o pano de fundo que determina e é essencialmente diferente dessa aparência acidental. O valor do linho permanece inalterado em grandeza, quer seja expresso em casacos, café ou ferro, ou em inúmeras mercadorias diferentes, propriedade de muitos proprietários diferentes. A relação acidental entre dois proprietários individuais de mercadorias desaparece. Torna-se claro que não é a troca de mercadorias que regula a grandeza de seu valor; ao contrário, é a grandeza de seu valor que controla suas proporções de troca.
2. A forma equivalente particular
Cada mercadoria, como casaco, chá, trigo, ferro etc., figura na expressão do valor do linho como equivalente e, consequentemente, como coisa que é valor. A forma corpórea de cada uma dessas mercadorias figura agora como uma forma equivalente particular, uma entre muitas. Do mesmo modo, os múltiplos tipos concretos úteis de trabalho incorporados nessas diferentes mercadorias contam agora como tantas formas diferentes de realização ou manifestação do trabalho humano indiferenciado.
3. Defeitos da forma total ou desenvolvida do valor
Em primeiro lugar, a expressão relativa do valor é incompleta porque a série que a representa é interminável. A cadeia da qual cada equação de valor é um elo pode, a qualquer momento, ser alongada por cada novo tipo de mercadoria que venha a existir e forneça o material para uma nova expressão de valor. Em segundo lugar, ela é um mosaico multicolorido de expressões de valor díspares e independentes. Por fim, se, como deve ocorrer, o valor relativo de cada mercadoria por sua vez passa a ser expresso nessa forma desenvolvida, obtemos para cada uma delas uma forma relativa de valor diferente em cada caso e composta de uma série interminável de expressões de valor. Os defeitos da forma relativa desenvolvida do valor se refletem na forma equivalente correspondente. Como a forma corpórea de cada mercadoria individual é uma forma equivalente particular entre inúmeras outras, temos, no conjunto, apenas formas equivalentes fragmentárias, cada uma excluindo as outras. Do mesmo modo, também o tipo especial, concreto e útil de trabalho incorporado em cada equivalente particular é apresentado apenas como um tipo particular de trabalho e, portanto, não como representante exaustivo do trabalho humano em geral. Este último, de fato, ganha manifestação adequada na totalidade de suas múltiplas formas particulares concretas. Mas, nesse caso, sua expressão numa série infinita é sempre incompleta e carente de unidade.
A forma relativa desenvolvida do valor, contudo, nada mais é que a soma das expressões ou equações relativas elementares do primeiro tipo, tais como:
20 metros de linho = 1 casaco20 metros de linho = 10 libras de chá etc.
Cada uma delas implica a equação invertida correspondente:
1 casaco = 20 metros de linho10 libras de chá = 20 metros de linho etc.
De fato, quando uma pessoa troca seu linho por muitas outras mercadorias e assim expressa seu valor numa série de outras mercadorias, segue-se necessariamente que os vários proprietários destas últimas as trocam pelo linho e, consequentemente, expressam o valor de suas várias mercadorias numa mesma terceira mercadoria, o linho. Se, então, invertemos a série — 20 metros de linho = 1 casaco, ou = 10 libras de chá etc. — isto é, se damos expressão à relação inversa já implícita na série, obtemos:
C. A forma geral do valor
1 casaco10 libras de chá40 libras de café1 quarto de trigo2 onças de ouro½ tonelada de ferrox mercadoria A etc.
= 20 metros de linho
1. O caráter alterado da forma do valor
Todas as mercadorias agora expressam seu valor: 1) numa forma elementar, porque numa única mercadoria; 2) com unidade, porque numa mesma mercadoria. Essa forma de valor é elementar e igual para todas, portanto geral.
As formas A e B eram aptas apenas a expressar o valor de uma mercadoria como algo distinto de seu valor de uso ou forma material.
A primeira forma, A, fornece equações como as seguintes: 1 casaco = 20 metros de linho, 10 libras de chá = ½ tonelada de ferro. O valor do casaco é equiparado ao linho; o do chá, ao ferro. Mas ser equiparado ao linho e, de novo, ao ferro é ser tão diferente quanto são o linho e o ferro. Essa forma, é claro, ocorre praticamente apenas no começo, quando os produtos do trabalho são convertidos em mercadorias por trocas acidentais e ocasionais.
A segunda forma, B, distingue de modo mais adequado que a primeira o valor de uma mercadoria de seu valor de uso; pois o valor do casaco ali é colocado em contraste, sob todas as formas possíveis, com a forma corpórea do casaco; ele é equiparado ao linho, ao ferro, ao chá, em suma, a tudo o mais, exceto a si mesmo, o casaco. Por outro lado, qualquer expressão geral de valor comum a todas é diretamente excluída; pois, na equação de valor de cada mercadoria, todas as outras mercadorias agora aparecem apenas sob a forma de equivalentes. A forma desenvolvida do valor passa a existir efetivamente pela primeira vez assim que um produto particular do trabalho, como o gado, deixa de ser trocado por várias outras mercadorias apenas excepcionalmente e passa a sê-lo habitualmente.
A terceira e última forma desenvolvida expressa os valores de todo o mundo das mercadorias em termos de uma única mercadoria separada para esse fim, a saber, o linho, e assim nos representa seus valores por meio de sua igualdade com o linho. O valor de toda mercadoria é agora, por ser equiparado ao linho, não só diferenciado de seu próprio valor de uso, mas de todos os outros valores de uso em geral e, por esse próprio fato, expresso como aquilo que é comum a todas as mercadorias. Por meio dessa forma, as mercadorias são, pela primeira vez, efetivamente postas em relação umas com as outras como valores, ou feitas aparecer como valores de troca.
As duas formas anteriores ou expressam o valor de cada mercadoria em termos de uma única mercadoria de tipo diferente, ou numa série de muitas dessas mercadorias. Em ambos os casos, é, por assim dizer, a ocupação especial de cada mercadoria individual encontrar uma expressão para seu valor, e ela o faz sem a ajuda das outras. Essas outras, em relação à primeira, desempenham os papéis passivos de equivalentes. A forma geral do valor, C, resulta da ação conjunta de todo o mundo das mercadorias, e somente dela. Uma mercadoria só pode adquirir uma expressão geral de seu valor se todas as outras mercadorias, simultaneamente com ela, expressarem seus valores no mesmo equivalente; e toda nova mercadoria deve fazer o mesmo. Torna-se assim evidente que, uma vez que a existência das mercadorias como valores é puramente social, essa existência social só pode ser expressa pela totalidade de suas relações sociais e, consequentemente, que a forma de seu valor deve ser uma forma socialmente reconhecida.
Todas as mercadorias equiparadas ao linho aparecem agora não só como qualitativamente iguais enquanto valores em geral, mas também como valores cujas grandezas são passíveis de comparação. Ao expressar as grandezas de seus valores no mesmo material, o linho, essas grandezas são também comparadas entre si. Por exemplo, 10 libras de chá = 20 metros de linho, e 40 libras de café = 20 metros de linho. Portanto, 10 libras de chá = 40 libras de café. Em outras palavras, em 1 libra de café está contido apenas um quarto de substância de valor — trabalho — do que está contido em 1 libra de chá.
A forma geral do valor relativo, abrangendo todo o mundo das mercadorias, converte a mercadoria individual que é excluída do restante e levada a desempenhar o papel de equivalente — aqui, o linho — em equivalente universal. A forma corpórea do linho é agora a forma assumida em comum pelos valores de todas as mercadorias; por isso, ele se torna diretamente permutável por todas e cada uma delas. A substância linho torna-se a encarnação visível, o estado social de crisálida de todo tipo de trabalho humano. A tecelagem, que é o trabalho de certos indivíduos privados que produzem um artigo particular, o linho, adquire, em consequência, um caráter social, o caráter de igualdade com todos os outros tipos de trabalho. As inúmeras equações de que se compõe a forma geral do valor equiparam sucessivamente o trabalho incorporado no linho ao incorporado em toda outra mercadoria, e assim convertem a tecelagem na forma geral de manifestação do trabalho humano indiferenciado. Desse modo, o trabalho realizado nos valores das mercadorias é apresentado não só sob seu aspecto negativo, sob o qual se abstrai toda forma concreta e toda propriedade útil do trabalho real, mas sua própria natureza positiva passa a se revelar expressamente. A forma geral do valor é a redução de todos os tipos de trabalho real ao seu caráter comum de serem trabalho humano em geral, de serem dispêndio de força de trabalho humana.
A forma geral do valor, que representa todos os produtos do trabalho como simples coagulações de trabalho humano indiferenciado, mostra por sua própria estrutura que é o resumo social do mundo das mercadorias. Essa forma torna, portanto, indiscutivelmente evidente que, no mundo das mercadorias, o caráter que todo trabalho possui de ser trabalho humano constitui seu caráter social específico.
2. O desenvolvimento interdependente da forma relativa do valor e da forma equivalente
O grau de desenvolvimento da forma relativa do valor corresponde ao da forma equivalente. Mas devemos ter em mente que o desenvolvimento desta última é apenas a expressão e o resultado do desenvolvimento da primeira.
A forma relativa primária ou isolada do valor de uma mercadoria converte alguma outra mercadoria em equivalente isolado. A forma desenvolvida do valor relativo, que é a expressão do valor de uma mercadoria em termos de todas as outras mercadorias, confere a essas outras mercadorias o caráter de equivalentes particulares diferentes em espécie. E, por fim, um tipo particular de mercadoria adquire o caráter de equivalente universal porque todas as outras mercadorias fazem dele o material em que expressam uniformemente seu valor.
O antagonismo entre a forma relativa do valor e a forma equivalente, os dois polos da forma de valor, desenvolve-se simultaneamente com essa própria forma.
A primeira forma, 20 metros de linho = 1 casaco, já contém esse antagonismo, embora ainda sem fixá-lo. Conforme lemos essa equação para frente ou para trás, os papéis desempenhados pelo linho e pelo casaco são diferentes. Num caso, o valor relativo do linho é expresso no casaco; no outro, o valor relativo do casaco é expresso no linho. Nessa primeira forma de valor, portanto, é difícil apreender o contraste polar.
A forma B mostra que apenas uma única mercadoria por vez pode expandir completamente seu valor relativo, e que ela adquire essa forma desenvolvida apenas porque, e na medida em que, todas as outras mercadorias são, em relação a ela, equivalentes. Aqui não podemos inverter a equação, como podemos fazer com a equação 20 metros de linho = 1 casaco, sem alterar seu caráter geral e convertê-la da forma desenvolvida do valor na forma geral do valor.
Por fim, a forma C confere ao mundo das mercadorias uma forma relativa de valor geral e social porque, e na medida em que, com isso todas as mercadorias, exceto uma, são excluídas da forma equivalente. Uma única mercadoria, o linho, parece portanto ter adquirido o caráter de permutabilidade direta com toda outra mercadoria porque, e na medida em que, esse caráter é negado a toda outra mercadoria.
A mercadoria que figura como equivalente universal, por outro lado, é excluída da forma relativa do valor. Se o linho, ou qualquer outra mercadoria que sirva de equivalente universal, participasse ao mesmo tempo da forma relativa do valor, teria de servir como seu próprio equivalente. Teríamos então 20 metros de linho = 20 metros de linho; essa tautologia não expressa nem valor nem grandeza de valor. Para expressar o valor relativo do equivalente universal, devemos antes inverter a forma C. Esse equivalente não possui uma forma relativa de valor comum às outras mercadorias; seu valor é relativamente expresso por uma série interminável de outras mercadorias. Assim, a forma relativa desenvolvida do valor, ou forma B, mostra-se agora como a forma específica de valor relativo para a mercadoria equivalente.
3. Transição da forma geral do valor à forma dinheiro
A forma de equivalente universal é uma forma de valor em geral. Portanto, pode ser assumida por qualquer mercadoria. Por outro lado, se uma mercadoria é encontrada tendo assumido a forma de equivalente universal — forma C —, isso só ocorre porque e na medida em que ela foi excluída do restante de todas as outras mercadorias como equivalente delas, e por ato delas próprias. E somente a partir do momento em que essa exclusão se restringe definitivamente a uma mercadoria particular é que a forma geral de valor relativo do mundo das mercadorias obtém consistência real e validade social geral.
A mercadoria particular com cuja forma corpórea a forma equivalente é assim socialmente identificada torna-se a mercadoria-dinheiro, ou serve como dinheiro. Torna-se a função social especial dessa mercadoria e, consequentemente, seu monopólio social desempenhar, no mundo das mercadorias, o papel de equivalente universal. Entre as mercadorias que, na forma B, figuram como equivalentes particulares do linho e, na forma C, expressam em comum seus valores relativos em linho, esse lugar principal foi alcançado por uma em particular: o ouro. Se, então, na forma C substituímos o linho pelo ouro, obtemos:
D. A forma dinheiro
20 metros de linho1 casaco10 libras de chá40 libras de café1 quarto de trigo½ tonelada de ferrox mercadoria A
= 2 onças de ouro
Na passagem da forma A à forma B, e desta à forma C, as mudanças são fundamentais. Por outro lado, não há diferença entre as formas C e D, exceto que, nesta última, o ouro assumiu a forma equivalente no lugar do linho. O ouro é, na forma D, o que o linho era na forma C: o equivalente universal. O progresso consiste apenas nisto: o caráter de permutabilidade direta e universal — em outras palavras, a forma de equivalente universal — está agora, pelo costume social, definitivamente identificado com a substância ouro.
O ouro é agora dinheiro em relação a todas as outras mercadorias apenas porque antes, em relação a elas, era uma simples mercadoria. Como todas as outras mercadorias, ele também era capaz de servir como equivalente, seja como equivalente simples em trocas isoladas, seja como equivalente particular ao lado de outros. Gradualmente começou a servir, dentro de limites variáveis, como equivalente universal. Tão logo monopoliza essa posição na expressão de valor para o mundo das mercadorias, torna-se mercadoria-dinheiro; e só então, e não antes, a forma D se torna distinta da forma C, e a forma geral do valor se transforma na forma dinheiro.
A expressão elementar do valor relativo de uma única mercadoria, como o linho, em termos da mercadoria que desempenha o papel de dinheiro, como o ouro, é a forma preço dessa mercadoria. A forma preço do linho é, portanto:
20 metros de linho = 2 onças de ouro, ou, se 2 onças de ouro, cunhadas, são £2,20 metros de linho = £2.
A dificuldade em formar um conceito da forma dinheiro consiste em compreender claramente a forma de equivalente universal e, como corolário necessário, a forma geral do valor, a forma C. Esta última é dedutível da forma B, a forma desenvolvida do valor, cujo componente essencial, como vimos, é a forma A: 20 metros de linho = 1 casaco, ou x mercadoria A = y mercadoria B. A forma mercadoria simples é, portanto, o germe da forma dinheiro.
Seção 4: O fetichismo das mercadorias e seu segredo
Uma mercadoria parece, à primeira vista, uma coisa muito trivial e facilmente compreensível. Sua análise mostra que ela é, na realidade, uma coisa muito estranha, cheia de sutilezas metafísicas e requintes teológicos. Enquanto valor de uso, não há nada de misterioso nela, quer a consideremos do ponto de vista de que, por suas propriedades, é capaz de satisfazer necessidades humanas, quer do ponto de vista de que essas propriedades são produto do trabalho humano. É claro como a luz do dia que o homem, por sua atividade, modifica as formas dos materiais fornecidos pela natureza de modo a torná-los úteis para si. A forma da madeira, por exemplo, é alterada ao se fazer dela uma mesa. Apesar disso, a mesa continua sendo aquela coisa comum, cotidiana: madeira. Mas, assim que se apresenta como mercadoria, transforma-se em algo transcendente. Ela não apenas se mantém com os pés no chão, mas, em relação a todas as outras mercadorias, põe-se de cabeça para baixo e desenvolve, a partir de seu cérebro de madeira, ideias grotescas, muito mais maravilhosas do que jamais foram as “mesas girantes”.
O caráter místico das mercadorias não se origina, portanto, de seu valor de uso. Tampouco procede da natureza dos fatores determinantes do valor. Pois, em primeiro lugar, por mais variados que sejam os tipos úteis de trabalho, ou atividades produtivas, é um fato fisiológico que eles são funções do organismo humano, e que cada uma dessas funções, qualquer que seja sua natureza ou forma, é essencialmente dispêndio de cérebro, nervos, músculos etc. humanos. Em segundo lugar, no que diz respeito àquilo que forma a base da determinação quantitativa do valor, isto é, a duração desse dispêndio, ou a quantidade de trabalho, é bastante claro que há uma diferença palpável entre sua quantidade e sua qualidade. Em todos os estados da sociedade, o tempo de trabalho que custa produzir os meios de subsistência deve necessariamente ser objeto de interesse para a humanidade, embora não de igual interesse em diferentes estágios de desenvolvimento. E, por fim, a partir do momento em que os homens, de algum modo, trabalham uns para os outros, seu trabalho assume uma forma social.
De onde surge, então, o caráter enigmático do produto do trabalho, tão logo ele assume a forma de mercadoria? Claramente dessa própria forma. A igualdade de todos os tipos de trabalho humano é expressa objetivamente pelo fato de todos os seus produtos serem igualmente valores; a medida do dispêndio de força de trabalho pela duração desse dispêndio toma a forma da quantidade de valor dos produtos do trabalho; e, por fim, as relações mútuas dos produtores, nas quais o caráter social de seu trabalho se afirma, assumem a forma de uma relação social entre os produtos.
Uma mercadoria é, portanto, uma coisa misteriosa simplesmente porque nela o caráter social do trabalho dos homens aparece para eles como um caráter objetivo impresso no produto desse trabalho; porque a relação dos produtores com a soma total de seu próprio trabalho é apresentada a eles como uma relação social existente não entre eles mesmos, mas entre os produtos de seu trabalho. É por essa razão que os produtos do trabalho se tornam mercadorias, coisas sociais cujas qualidades são ao mesmo tempo perceptíveis e imperceptíveis aos sentidos. Do mesmo modo, a luz proveniente de um objeto é percebida por nós não como a excitação subjetiva de nosso nervo óptico, mas como a forma objetiva de algo exterior ao próprio olho. Mas, no ato de ver, há, de qualquer modo, uma passagem real de luz de uma coisa a outra, do objeto externo ao olho. Há uma relação física entre coisas físicas. Com as mercadorias, porém, é diferente. Ali, a existência das coisas enquanto mercadorias e a relação de valor entre os produtos do trabalho que as marca como mercadorias não têm absolutamente nenhuma conexão com suas propriedades físicas nem com as relações materiais delas decorrentes. Ali, uma relação social definida entre homens assume, aos olhos deles, a forma fantástica de uma relação entre coisas. Para encontrar uma analogia, portanto, devemos recorrer às regiões envoltas em névoa do mundo religioso. Nesse mundo, as produções do cérebro humano aparecem como seres independentes, dotados de vida e em relação tanto uns com os outros quanto com a raça humana. Assim ocorre, no mundo das mercadorias, com os produtos das mãos humanas. A isso chamo de fetichismo que se prende aos produtos do trabalho tão logo são produzidos como mercadorias, e que, portanto, é inseparável da produção de mercadorias.
Esse fetichismo das mercadorias tem sua origem, como já mostrou a análise anterior, no caráter social peculiar do trabalho que as produz.
Como regra geral, artigos de utilidade tornam-se mercadorias apenas porque são produtos do trabalho de indivíduos privados ou grupos de indivíduos que realizam seu trabalho independentemente uns dos outros. A soma total do trabalho de todos esses indivíduos privados forma o trabalho agregado da sociedade. Como os produtores não entram em contato social entre si até trocarem seus produtos, o caráter social específico do trabalho de cada produtor não se mostra senão no ato da troca. Em outras palavras, o trabalho do indivíduo só se afirma como parte do trabalho da sociedade por meio das relações que o ato de troca estabelece diretamente entre os produtos e, indiretamente, por meio deles, entre os produtores. Para estes últimos, portanto, as relações que ligam o trabalho de um indivíduo ao dos demais aparecem não como relações sociais diretas entre indivíduos em trabalho, mas como aquilo que realmente são: relações materiais entre pessoas e relações sociais entre coisas. É somente ao serem trocados que os produtos do trabalho adquirem, como valores, uma posição social uniforme, distinta de suas variadas formas de existência como objetos de utilidade. Essa divisão de um produto em coisa útil e valor torna-se praticamente importante apenas quando a troca alcançou tal extensão que artigos úteis são produzidos com a finalidade de serem trocados e, por isso, seu caráter de valores deve ser levado em conta de antemão, durante a produção. A partir desse momento, o trabalho do produtor individual adquire socialmente um duplo caráter. Por um lado, deve, como tipo determinado de trabalho útil, satisfazer uma necessidade social determinada e, assim, ocupar seu lugar como parte integrante do trabalho coletivo de todos, como um ramo de uma divisão social do trabalho surgida espontaneamente. Por outro lado, ele só pode satisfazer as múltiplas necessidades do próprio produtor individual na medida em que a permutabilidade mútua de todos os tipos de trabalho privado útil é um fato social estabelecido e, portanto, o trabalho privado útil de cada produtor figura em igualdade com o de todos os outros. A equiparação dos tipos mais diferentes de trabalho só pode ser resultado de uma abstração de suas desigualdades, ou de sua redução ao denominador comum: dispêndio de força de trabalho humana, ou trabalho humano em abstrato. O duplo caráter social do trabalho do indivíduo aparece para ele, quando refletido em sua mente, apenas sob as formas que são impressas a esse trabalho na prática cotidiana pela troca de produtos. Desse modo, o caráter que seu próprio trabalho possui de ser socialmente útil assume a forma da condição de que o produto deve ser não apenas útil, mas útil para outros; e o caráter social que seu trabalho particular tem de ser igual a todos os outros tipos particulares de trabalho assume a forma de que todos os artigos fisicamente diferentes que são produtos do trabalho têm uma qualidade comum: a de possuir valor.
Portanto, quando colocamos os produtos de nosso trabalho em relação uns com os outros como valores, não é porque vemos nesses artigos os receptáculos materiais de trabalho humano homogêneo. Muito pelo contrário: sempre que, por meio de uma troca, equiparamos como valores nossos diferentes produtos, por esse mesmo ato também equiparamos, como trabalho humano, os diferentes tipos de trabalho neles despendidos. Não temos consciência disso, mas o fazemos. O valor, portanto, não circula com uma etiqueta dizendo o que é. É antes o valor que converte todo produto num hieróglifo social. Mais tarde, tentamos decifrar o hieróglifo, penetrar o segredo de nossos próprios produtos sociais; pois imprimir a um objeto de utilidade a marca de valor é tão produto social quanto a linguagem. A recente descoberta científica de que os produtos do trabalho, na medida em que são valores, são apenas expressões materiais do trabalho humano gasto em sua produção marca, de fato, uma época na história do desenvolvimento da humanidade, mas de modo algum dissipa a névoa pela qual o caráter social do trabalho nos aparece como um caráter objetivo dos próprios produtos. O fato de que, na forma particular de produção com que estamos lidando, isto é, a produção de mercadorias, o caráter social específico do trabalho privado realizado independentemente consiste na igualdade de todo tipo desse trabalho, em virtude de ser trabalho humano, e que esse caráter assume, portanto, no produto, a forma de valor — esse fato aparece aos produtores, apesar da descoberta acima referida, como algo tão real e definitivo quanto o fato de que, depois da descoberta científica dos gases componentes do ar, a própria atmosfera permaneceu inalterada.
O que, antes de tudo, interessa praticamente aos produtores quando fazem uma troca é a pergunta: quanto de algum outro produto recebem pelo seu? Em que proporções os produtos são permutáveis? Quando essas proporções, pelo costume, alcançam certa estabilidade, parecem resultar da natureza dos produtos, de modo que, por exemplo, uma tonelada de ferro e duas onças de ouro parecem ter naturalmente o mesmo valor, assim como uma libra de ouro e uma libra de ferro, apesar de suas diferentes qualidades físicas e químicas, parecem ter o mesmo peso. O caráter de possuir valor, uma vez impresso nos produtos, só obtém fixidez em razão da ação e reação deles como quantidades de valor. Essas quantidades variam continuamente, independentemente da vontade, da previsão e da ação dos produtores. Para eles, sua própria ação social assume a forma da ação de objetos, que governam os produtores em vez de serem governados por eles. É necessária uma produção de mercadorias plenamente desenvolvida para que, apenas da experiência acumulada, surja a convicção científica de que todos os diferentes tipos de trabalho privado, realizados independentemente uns dos outros e, no entanto, como ramos espontaneamente desenvolvidos da divisão social do trabalho, são continuamente reduzidos às proporções quantitativas em que a sociedade deles necessita. E por quê? Porque, em meio a todas as relações de troca acidentais e sempre flutuantes entre os produtos, o tempo de trabalho socialmente necessário para sua produção se impõe à força como uma lei dominante da natureza. A lei da gravidade se afirma assim quando uma casa desaba sobre nossas cabeças. A determinação da grandeza do valor pelo tempo de trabalho é, portanto, um segredo escondido sob as oscilações aparentes dos valores relativos das mercadorias. Sua descoberta, embora remova toda aparência de mera casualidade da determinação da grandeza dos valores dos produtos, de modo algum altera o modo como essa determinação ocorre.
As reflexões do homem sobre as formas da vida social e, consequentemente, também sua análise científica dessas formas, seguem um curso diretamente oposto ao de seu desenvolvimento histórico real. Ele começa, depois da festa, com os resultados do processo de desenvolvimento já prontos diante de si. Os caracteres que marcam os produtos como mercadorias, e cuja fixação é uma condição preliminar necessária à circulação das mercadorias, já adquiriram a estabilidade de formas naturais e autoevidentes da vida social antes que o homem procure decifrar não seu caráter histórico — pois, a seus olhos, são imutáveis —, mas seu significado. Consequentemente, foi apenas a análise dos preços das mercadorias que levou à determinação da grandeza do valor, e foi apenas a expressão comum de todas as mercadorias em dinheiro que levou ao estabelecimento de seu caráter como valores. É, contudo, precisamente essa forma dinheiro final do mundo das mercadorias que de fato oculta, em vez de revelar, o caráter social do trabalho privado e as relações sociais entre os produtores individuais. Quando afirmo que casacos ou botas estão em relação com o linho porque este é a encarnação universal do trabalho humano abstrato, o absurdo da afirmação é evidente. No entanto, quando os produtores de casacos e botas comparam esses artigos com o linho, ou, o que dá no mesmo, com ouro ou prata, como equivalente universal, expressam a relação entre seu próprio trabalho privado e o trabalho coletivo da sociedade nessa mesma forma absurda.
As categorias da economia burguesa consistem em formas desse tipo. São formas de pensamento que expressam com validade social as condições e relações de um modo de produção definido e historicamente determinado, isto é, a produção de mercadorias. Todo o mistério das mercadorias, toda a magia e necromancia que cercam os produtos do trabalho enquanto assumem a forma de mercadorias, desaparece, portanto, assim que passamos a outras formas de produção.
Como as experiências de Robinson Crusoé são um tema favorito dos economistas políticos, lancemos um olhar sobre ele em sua ilha. Moderado como é, ele ainda assim tem algumas necessidades a satisfazer e, por isso, deve realizar um pouco de trabalho útil de vários tipos, como fabricar ferramentas e móveis, domesticar cabras, pescar e caçar. De suas orações e coisas semelhantes não levamos conta, pois são para ele fonte de prazer, e ele as encara como recreação. Apesar da variedade de seu trabalho, ele sabe que seu trabalho, qualquer que seja sua forma, é apenas a atividade de um mesmo Robinson e, consequentemente, consiste em nada além de diferentes modos de trabalho humano. A própria necessidade o obriga a repartir seu tempo com precisão entre seus diferentes tipos de trabalho. Se um tipo ocupa espaço maior em sua atividade geral do que outro depende das dificuldades, maiores ou menores conforme o caso, a serem superadas para alcançar o efeito útil visado. Nosso amigo Robinson logo aprende isso por experiência e, tendo resgatado do naufrágio um relógio, um livro-caixa, pena e tinta, começa, como um verdadeiro britânico, a manter seus livros. Seu inventário contém uma lista dos objetos de utilidade que lhe pertencem, das operações necessárias para produzi-los e, por fim, do tempo de trabalho que quantidades determinadas desses objetos lhe custaram, em média. Todas as relações entre Robinson e os objetos que formam essa riqueza de sua própria criação são aqui tão simples e claras que se tornam inteligíveis sem esforço, até mesmo para o senhor Sedley Taylor. E, no entanto, essas relações contêm tudo que é essencial para a determinação do valor.
Transportemo-nos agora da ilha de Robinson, banhada em luz, para a Idade Média europeia, envolta em trevas. Aqui, em vez do homem independente, encontramos todos dependentes: servos e senhores, vassalos e suseranos, leigos e clero. A dependência pessoal caracteriza aqui as relações sociais de produção tanto quanto as demais esferas da vida organizadas sobre a base dessa produção. Mas justamente porque a dependência pessoal forma o fundamento da sociedade, não há necessidade de que o trabalho e seus produtos assumam uma forma fantástica diferente de sua realidade. Eles tomam, nas transações da sociedade, a forma de serviços em espécie e pagamentos em espécie. Aqui, a forma particular e natural do trabalho, e não, como numa sociedade baseada na produção de mercadorias, sua forma geral abstrata, é a forma social imediata do trabalho. O trabalho compulsório é tão propriamente medido pelo tempo quanto o trabalho produtor de mercadorias; mas todo servo sabe que aquilo que despende a serviço de seu senhor é uma quantidade determinada de sua própria força de trabalho pessoal. O dízimo a ser entregue ao padre é mais palpável do que sua bênção. Não importa, então, o que pensemos dos papéis desempenhados pelas diferentes classes de pessoas nessa sociedade: as relações sociais entre indivíduos no desempenho de seu trabalho aparecem, de todo modo, como suas próprias relações pessoais mútuas, e não são disfarçadas sob a forma de relações sociais entre os produtos do trabalho.
Para um exemplo de trabalho comum ou diretamente associado, não precisamos recuar à forma espontaneamente desenvolvida que encontramos no limiar da história de todos os povos civilizados. Temos um exemplo próximo nas indústrias patriarcais de uma família camponesa que produz trigo, gado, fio, linho e roupas para uso doméstico. Esses diferentes artigos são, para a família, tantos produtos de seu trabalho, mas, entre si, não são mercadorias. Os diferentes tipos de trabalho, como lavrar, cuidar do gado, fiar, tecer e confeccionar roupas, que resultam nos vários produtos, são, em si mesmos e tais como são, funções sociais diretas, porque funções da família, que, tanto quanto uma sociedade baseada na produção de mercadorias, possui um sistema espontaneamente desenvolvido de divisão do trabalho. A distribuição do trabalho dentro da família e a regulação do tempo de trabalho de seus vários membros dependem tanto das diferenças de idade e sexo quanto das condições naturais que variam com as estações. A força de trabalho de cada indivíduo, por sua própria natureza, opera nesse caso apenas como uma porção determinada da força de trabalho total da família e, portanto, a medida do dispêndio de força de trabalho individual por sua duração aparece aqui, por sua própria natureza, como um caráter social de seu trabalho.
Imaginemos agora, para variar, uma comunidade de indivíduos livres que trabalham com os meios de produção em comum, na qual a força de trabalho de todos os diferentes indivíduos é conscientemente aplicada como força de trabalho combinada da comunidade. Todas as características do trabalho de Robinson se repetem aqui, mas com esta diferença: elas são sociais, em vez de individuais. Tudo o que ele produzia era exclusivamente resultado de seu próprio trabalho pessoal e, portanto, simplesmente um objeto de uso para si mesmo. O produto total de nossa comunidade é um produto social. Uma parte serve como novos meios de produção e permanece social. Mas outra parte é consumida pelos membros como meios de subsistência. Uma distribuição dessa parte entre eles é, consequentemente, necessária. O modo dessa distribuição variará conforme a organização produtiva da comunidade e o grau de desenvolvimento histórico alcançado pelos produtores. Suponhamos, porém, apenas em nome de um paralelo com a produção de mercadorias, que a parte de cada produtor individual nos meios de subsistência seja determinada por seu tempo de trabalho. O tempo de trabalho desempenharia, nesse caso, um duplo papel. Sua repartição de acordo com um plano social definido manteria a proporção adequada entre os diferentes tipos de trabalho a realizar e as diversas necessidades da comunidade. Por outro lado, serviria também como medida da porção do trabalho comum suportada por cada indivíduo e de sua participação na parte do produto total destinada ao consumo individual. As relações sociais dos produtores individuais, tanto no que diz respeito ao seu trabalho quanto aos seus produtos, são, nesse caso, perfeitamente simples e inteligíveis, e isso não apenas em relação à produção, mas também à distribuição.
O mundo religioso é apenas o reflexo do mundo real. E, para uma sociedade baseada na produção de mercadorias, na qual os produtores em geral entram em relações sociais uns com os outros tratando seus produtos como mercadorias e valores, reduzindo assim seu trabalho privado individual ao padrão do trabalho humano homogêneo — para tal sociedade, o cristianismo, com seu culto do homem abstrato, especialmente em seus desenvolvimentos burgueses, protestantismo, deísmo etc., é a forma de religião mais adequada. Nos antigos modos asiáticos e em outros modos antigos de produção, encontramos a conversão dos produtos em mercadorias e, portanto, a conversão dos homens em produtores de mercadorias, ocupando um lugar subordinado, que, contudo, cresce em importância à medida que as comunidades primitivas se aproximam cada vez mais de sua dissolução. Nações comerciais propriamente ditas existem no mundo antigo apenas em seus interstícios, como os deuses de Epicuro nos intermúndios, ou como os judeus nos poros da sociedade polonesa. Esses antigos organismos sociais de produção são, em comparação com a sociedade burguesa, extremamente simples e transparentes. Mas estão fundados ou no desenvolvimento imaturo do homem individual, que ainda não cortou o cordão umbilical que o une a seus semelhantes numa comunidade tribal primitiva, ou em relações diretas de sujeição. Só podem surgir e existir quando o desenvolvimento da força produtiva do trabalho ainda não ultrapassou um estágio baixo e quando, portanto, as relações sociais no âmbito da vida material, entre homem e homem e entre homem e natureza, são correspondentemente estreitas. Essa estreiteza se reflete no antigo culto da natureza e nos demais elementos das religiões populares. O reflexo religioso do mundo real só pode, em qualquer caso, desaparecer finalmente quando as relações práticas da vida cotidiana oferecerem ao homem nada além de relações perfeitamente inteligíveis e razoáveis com seus semelhantes e com a natureza.
O processo vital da sociedade, que se baseia no processo de produção material, só se despe de seu véu místico quando é tratado como produção por homens livremente associados e conscientemente regulado por eles de acordo com um plano estabelecido. Isso, contudo, exige da sociedade uma certa base material ou conjunto de condições de existência que, por sua vez, são produto espontâneo de um longo e doloroso processo de desenvolvimento.
A economia política de fato analisou, embora de modo incompleto, o valor e sua grandeza, e descobriu o que está por baixo dessas formas. Mas jamais formulou sequer a pergunta de por que o trabalho é representado pelo valor de seu produto e o tempo de trabalho pela grandeza desse valor. Essas fórmulas, que trazem estampado em letras inequívocas o fato de pertencerem a um estado da sociedade no qual o processo de produção tem domínio sobre o homem, em vez de ser controlado por ele, aparecem ao intelecto burguês como uma necessidade autoevidente imposta pela natureza, tanto quanto o próprio trabalho produtivo. Por isso, as formas de produção social que precederam a forma burguesa são tratadas pela burguesia mais ou menos do mesmo modo como os Padres da Igreja tratavam as religiões pré-cristãs.
Até que ponto alguns economistas são enganados pelo fetichismo inerente às mercadorias, ou pela aparência objetiva das características sociais do trabalho, mostra-se, entre outras coisas, pela disputa enfadonha e tediosa sobre o papel desempenhado pela natureza na formação do valor de troca. Como o valor de troca é uma maneira social definida de expressar a quantidade de trabalho empregada num objeto, a natureza não tem mais a ver com ele do que tem a ver com a fixação da taxa de câmbio.
O modo de produção em que o produto assume a forma de mercadoria, ou é produzido diretamente para a troca, é a forma mais geral e embrionária da produção burguesa. Por isso, ele aparece cedo na história, embora não da mesma forma predominante e característica que hoje. Daí ser relativamente fácil perceber seu caráter fetichista. Mas, quando chegamos a formas mais concretas, até essa aparência de simplicidade desaparece. De onde surgiram as ilusões do sistema monetário? Para ele, ouro e prata, quando serviam como dinheiro, não representavam uma relação social entre produtores, mas eram objetos naturais com estranhas propriedades sociais. E a economia moderna, que despreza com tanta arrogância o sistema monetário, não deixa transparecer sua superstição tão claro quanto a luz do dia sempre que trata do capital? Há quanto tempo a economia descartou a ilusão fisiocrática de que as rendas brotam do solo e não da sociedade?
Mas, para não antecipar, contentemo-nos com ainda outro exemplo relativo à forma mercadoria. Se as próprias mercadorias pudessem falar, diriam: nosso valor de uso pode ser algo que interessa aos homens. Ele não faz parte de nós como objetos. O que, porém, nos pertence como objetos é nosso valor. Nosso intercâmbio natural como mercadorias prova isso. Aos olhos umas das outras, nada somos senão valores de troca. Agora escutem como essas mercadorias falam pela boca do economista:
— Valor — isto é, valor de troca — é uma propriedade das coisas; riquezas — isto é, valor de uso — são propriedade do homem. Valor, nesse sentido, implica necessariamente trocas; riquezas, não.
— Riquezas — valor de uso — são atributo dos homens; valor é atributo das mercadorias. Um homem ou uma comunidade é rico; uma pérola ou um diamante é valioso...
Uma pérola ou um diamante é valioso como pérola ou diamante.
Até agora, nenhum químico jamais descobriu valor de troca numa pérola ou num diamante. Os descobridores econômicos desse elemento químico, que, diga-se de passagem, reivindicam especial perspicácia crítica, constatam, contudo, que o valor de uso dos objetos lhes pertence independentemente de suas propriedades materiais, enquanto seu valor, por outro lado, forma parte deles como objetos. O que os confirma nessa opinião é a circunstância peculiar de que o valor de uso dos objetos se realiza sem troca, por meio de uma relação direta entre os objetos e o homem, enquanto seu valor, por outro lado, só se realiza pela troca, isto é, por meio de um processo social. Quem deixa aqui de lembrar nosso bom amigo Dogberry, que informa ao vizinho Seacoal:
— Ser um homem bem-apessoado é dádiva da fortuna; mas ler e escrever vem da natureza.
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