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  • 19 de abr.
  • 5 min de leitura


Memórias de Martha Júlia Lopes de Almeida

Texto Original Completo (em domínio público)


XI

O meu noivo era um homem singular na sua simplicidade. Eu nunca havia reparado nele: posso muito bem afirmar que só o vi depois de lhe ter dado o sim, na tarde em que, com satisfação comedida foi agradecer a minha resolução.

Recebi-o com toda a calma, sem amabilidade, friamente; sorria com esforço, e procurava em vão sacudir de mim a antipatia que o casamento naquelas condições me inspirava! Minha mãe remediava a minha concentração, falando muito, rindo mesmo, lembrando ao bom Miranda frases de uma ou de outra carta minha que o tinham feito dizer: "A sua filha é uma joia rara; feliz do homem com quem ela se casar! Eu não intervinha; ouvia os elogios quase sem protestos, abatida, vazia de ideias, semimorta.

Chegou um instante em que minha mãe, num esforço de suprema agonia, teve a coragem de relatar a morte de meu pai e a amarga herança que dele recebêramos.... Julgava aquilo um dever de lealdade, não lhe fossem dizer depois que ele tinha desposado a filha de um ladrão....

Miranda fê-la calar-se, um pouco vexado; e eu levantei para ele meus olhos tristes, espreitando-lhe os movimentos, com susto e com vergonha.

Ele sorriu-me. Era um homem de estatura mediana, gordo, calvo, com muitos fios brancos a luzirem-lhe na barba preta; de feições miúdas, dentes pequeninos, e peito robusto.

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