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  • 17 de abr.
  • 6 min de leitura

Atualizado: 25 de abr.


Memórias de Martha Júlia Lopes de Almeida

Texto Original Completo (em domínio público)


V

Os meses foram correndo. Eu estudava muito, mas, ou pelo esforço intelectual, ou por fraqueza física, estava sempre nervosa, irritada e magra. A minha preocupação constante era ser vítima de um desastre imprevisto.

Nunca cheguei a casa que não esperasse encontrar minha mãe morta, nunca atravessei uma rua que não imaginasse ser esmagada por um carro, nunca desejei uma viagem que não temesse um naufrágio.

Escondia essas coisas com recato, mas não podia fugir delas, numa obsessão imperiosíssima!

Minha mãe não compreendia bem o meu mal, então procurava distrair-me. Eu ia agora raramente à casa da ilhoa. O Maneco perturbava-me; sempre a tremer, muito desmaiado, com as orelhas decaídas para a frente, a cabeça raspada à escovinha, cheia de falhas de cabelo, das cicatrizes, dos seus trambolhões. Tinha o olhar parado, muito aberto; os ossos pareciam furavam-lhe a pele, franzida e mole, de um branco opilado.

Doía-me ver aquela pobre criança, cerrando os dentes aos alimentos, sumida dentro da sua velha roupinha, que parecia crescer a cada uma das sacudidelas que ele lhe imprimia.

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