- 17 de fev.
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Atualizado: 1 de mar.
Frankenstein ou O Prometeu Moderno Mary Shelley
Texto Original Completo (em domínio público)
“Acaso te pedi, Criador, que do barro me moldasses homem? Acaso te roguei que, das trevas, me elevasses?”
Paraíso Perdido.
Volume I
Prefácio
O acontecimento em que esta ficção se funda foi tido, pelo Dr. Darwin e por alguns escritores fisiológicos da Alemanha, como algo cuja ocorrência não é impossível. Não se deve supor que eu atribua o mais remoto grau de fé séria a tal imaginação; ainda assim, ao assumi-la como base de uma obra de fantasia, não me considerei como quem apenas tece uma série de terrores sobrenaturais. O acontecimento de que depende o interesse da história está isento das desvantagens de um mero conto de espectros ou encantamento. Recomendou-se pela novidade das situações que desenvolve; e, por mais impossível que seja como fato físico, oferece à imaginação um ponto de vista para delinear as paixões humanas mais amplo e imponente do que qualquer um que as relações ordinárias de acontecimentos reais possam proporcionar.
Assim, empenhei-me em preservar a verdade dos princípios elementares da natureza humana, embora não tenha hesitado em inovar nas suas combinações. A Ilíada, a poesia trágica da Grécia — Shakespeare, em A Tempestade e Sonho de uma Noite de Verão — e, sobretudo, Milton, em Paraíso Perdido, obedecem a essa regra; e o mais humilde romancista, que busca dar ou receber divertimento de seus labores, pode, sem presunção, aplicar à ficção em prosa uma licença — ou antes uma regra — cuja adoção produziu tantas combinações primorosas do sentimento humano nos mais elevados exemplos de poesia.
A circunstância em que se apoia a minha história foi sugerida em conversa casual. Ela começou, em parte, como fonte de divertimento e, em parte, como expediente para exercitar recursos mentais ainda não testados. Outros motivos se misturaram a esses, conforme a obra avançou. Não me é de todo indiferente a maneira como quaisquer tendências morais existentes nos sentimentos ou personagens aqui contidos venham a afetar o leitor; contudo, minha principal preocupação, nesse aspecto, limitou-se a evitar os efeitos enervantes dos romances do presente, e a expor a amabilidade do afeto doméstico e a excelência da virtude universal. As opiniões que naturalmente brotam do caráter e da situação do herói não devem, de modo algum, ser concebidas como existindo sempre na minha própria convicção; nem se deve tirar, com justiça, das páginas seguintes, inferência que prejudique qualquer doutrina filosófica, de qualquer espécie.
Há ainda, para a autora, um interesse adicional: esta história começou na região majestosa onde a cena se desenrola principalmente, e numa companhia cuja perda não pode deixar de ser lamentada. Passei o verão de 1816 nos arredores de Genebra. A estação foi fria e chuvosa, e, à noite, amontoávamo-nos em torno de uma lareira de lenha ardente e, vez por outra, divertíamo-nos com algumas histórias alemãs de fantasmas, que por acaso nos vieram às mãos. Esses contos despertaram em nós um desejo brincalhão de imitação. Dois outros amigos (um conto saído da pena de um deles seria muito mais bem recebido pelo público do que qualquer coisa que eu possa um dia esperar produzir) e eu combinamos escrever, cada qual, uma história fundada em algum acontecimento sobrenatural.
O tempo, porém, de súbito serenou; e meus dois amigos me deixaram para uma viagem pelos Alpes e, nas cenas magníficas que eles apresentam, perderam toda memória de suas visões fantasmagóricas. O conto a seguir é o único que foi concluído.
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