- 1 de mai.
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Análise dos Personagens
Sócrates — Protagonista, narrador e condutor filosófico do diálogo. É ele quem relata, no dia seguinte, a conversa ocorrida no Pireu. Sua função é interrogar, refutar definições insuficientes de justiça e, depois, construir a imagem da cidade justa para compreender a alma justa. Ele não aparece apenas como personagem, mas como eixo intelectual de toda a obra.
Glauco — Interlocutor mais importante depois de Sócrates. Surge logo no início, acompanhando Sócrates ao Pireu, e depois se torna o principal parceiro na construção da cidade ideal. No Livro II, recusa o encerramento prematuro do debate e exige uma defesa mais profunda da justiça; apresenta o mito do anel de Giges e força Sócrates a provar que a justiça vale por si mesma, e não apenas por suas recompensas. Ao longo dos livros seguintes, é quem mais impulsiona a investigação sobre luxo, guardiões, música, ginástica, comunidade dos bens, mulheres e filhos, filósofos-governantes e, no Livro X, poesia imitativa.
Adimanto — Irmão de Glauco e segundo grande interlocutor da obra. Aparece no início com Polemarco e, a partir do Livro II, aprofunda o desafio lançado por Glauco. Sua função é mostrar que a educação moral comum elogia a justiça por seus prêmios externos — reputação, cargos, vantagens matrimoniais, recompensas divinas — e não por sua natureza interior. Ele exige que Sócrates explique o efeito da justiça e da injustiça na alma. Nos Livros III e IV, é especialmente importante nas discussões sobre educação, poesia, censura moral e felicidade dos guardiões.
Trasímaco — Principal antagonista intelectual do Livro I. Sofista agressivo, impaciente com o método socrático, entra no debate para propor a definição mais provocadora de justiça: “o interesse do mais forte”. Defende que os governantes fazem leis em benefício próprio e que a injustiça em grande escala, sobretudo a tirania, é mais vantajosa que a justiça. Sua função narrativa é elevar o debate de definições morais convencionais para uma contestação política e cínica da justiça. Mesmo depois de ser refutado, continua presente como ouvinte e reaparece aprovando a interrupção de Sócrates no Livro V.
Polemarco — Primeiro responsável por levar Sócrates à casa onde se dará o diálogo. Aparece quando manda seu servo deter Sócrates e Glauco no caminho de volta do Pireu. Depois herda de Céfalo a discussão sobre justiça. Sua tese, inspirada em Simônides, é que justiça consiste em dar a cada um o que lhe é devido, isto é, fazer bem aos amigos e mal aos inimigos. Sócrates desmonta essa posição ao mostrar que o justo não pode tornar ninguém pior. Mais tarde, no Livro V, Polemarco reaparece discretamente ao cochichar com Adimanto para impedir Sócrates de “escapar” da discussão sobre mulheres e filhos.
Céfalo — Pai de Polemarco e anfitrião da conversa. É o primeiro interlocutor filosófico efetivo. Representa a velhice, a riqueza moderada, a piedade tradicional e a moral convencional. Sua função é introduzir o tema da justiça a partir da experiência prática de um homem idoso: para ele, a riqueza é útil porque permite não enganar, pagar dívidas, cumprir obrigações religiosas e aproximar-se da morte com consciência tranquila. Sua definição inicial — justiça como dizer a verdade e pagar o que se deve — é a primeira a ser examinada e refutada.
Clitofonte — Participante secundário do Livro I. Intervém brevemente em defesa de uma interpretação mais favorável a Trasímaco, sugerindo que “interesse do mais forte” poderia significar aquilo que o mais forte julga ser seu interesse. Sua função é quase técnica: tentar salvar a tese de Trasímaco de uma contradição imediata.
Lísias — Irmão de Polemarco, encontrado na casa de Céfalo. No diálogo, não exerce papel argumentativo relevante. Sua presença compõe o círculo social e intelectual reunido no Pireu.
Eutidemo — Também irmão de Polemarco e presente na casa de Céfalo. Como Lísias, aparece como participante da cena, mas não conduz nenhuma etapa relevante da argumentação.
Nicérato, filho de Nícias — Surge com Polemarco e Adimanto no início, vindo da procissão. É um participante de cena, sem papel filosófico ativo na discussão. Sua presença reforça o ambiente aristocrático e culto do encontro.
Charmântides, o peânio — Está entre os presentes na casa de Céfalo. Não tem função argumentativa relevante; integra o grupo de ouvintes e acompanhantes do debate.
Servo de Polemarco — Figura mínima, mas funcional. É ele quem alcança Sócrates e Glauco, segura Sócrates pela capa e transmite a ordem de Polemarco para que esperem. Sua função narrativa é iniciar a interrupção que levará os personagens à casa de Céfalo.
Timeu — Não participa da conversa principal em A República, mas é citado na moldura narrativa: Sócrates narra o diálogo, no dia seguinte, a Timeu, Hermócrates, Crítias e uma pessoa sem nome. Sua função é de destinatário externo da narração, ligado ao enquadramento que será desenvolvido no diálogo Timeu.
Hermócrates — Também pertence à moldura narrativa, não ao debate interno da casa de Céfalo. É um dos ouvintes posteriores a quem Sócrates teria contado a conversa.
Crítias — Outro destinatário da narração posterior. Como Timeu e Hermócrates, não intervém no conteúdo filosófico de A República, mas faz parte do enquadramento dramático mais amplo.
Ouvintes silenciosos / “os demais” — Grupo indeterminado presente na casa de Céfalo. Inclui os que acompanham, aprovam, pressionam ou reagem à discussão, mas sem fala individualizada constante. São importantes porque o diálogo não é uma conversa privada: há uma pequena assembleia que testemunha, incentiva e, às vezes, impede que alguém abandone o debate, como ocorre com Trasímaco.
Giges — Não é personagem da cena dramática, mas personagem interno de uma narrativa exemplar contada por Glauco no Livro II. Pastor lídio, encontra um anel que o torna invisível, seduz a rainha, mata o rei e toma o poder. Sua função é testar a tese de que ninguém seria justo se pudesse cometer injustiça impunemente.
A rainha da Lídia — Figura do mito de Giges. É seduzida por ele e participa da conspiração contra o rei. Sua função é instrumental dentro da narrativa: viabiliza a tomada do poder por Giges.
O rei da Lídia — Figura do mito de Giges. É o governante traído e assassinado. Representa o obstáculo político removido por Giges quando este descobre que pode agir sem ser visto.
Er, filho de Armênio, panfílio — Personagem do mito final do Livro X. Guerreiro morto em batalha, retorna à vida e relata o que viu no além: julgamentos das almas, recompensas e punições, escolha de novas vidas e responsabilidade moral da alma. Sua função é encerrar a obra ampliando a defesa da justiça para além da vida presente.
Juízes do além — Personagens do mito de Er. Julgam as almas, enviando os justos pelo caminho celeste e os injustos pelo caminho subterrâneo. Sua função é dramatizar a ordem moral do cosmos.
Láquesis — Uma das Moiras, filha da Necessidade, no mito de Er. Está ligada ao passado e preside o momento em que as almas recebem sortes e escolhem novas vidas. Sua função é marcar a responsabilidade da escolha: o destino não é simplesmente imposto, ele é escolhido pela alma.
Cloto — Outra Moira, associada ao presente. No mito, participa da harmonia cósmica e confirma o movimento do fuso da Necessidade. Sua função é integrar a imagem cosmológica do destino.
Átropos — Terceira Moira, associada ao futuro. Confirma de modo irreversível o destino escolhido pelas almas. Sua função é simbolizar a fixação da escolha feita.
Necessidade — Figura cósmica do mito de Er, sobre cujos joelhos gira o fuso do universo. Não é personagem dramática no sentido comum, mas atua como personificação da ordem cósmica.
Profeta de Láquesis — Figura do mito de Er. Organiza as almas e proclama a regra central da escolha das vidas: cada alma escolhe seu próprio destino e é responsável por essa escolha.
Sereias — Figuras cósmicas do mito de Er, situadas nos círculos do fuso celeste. Cantam notas que, juntas, compõem a harmonia do universo. Sua função é dar forma poética à ordem matemática e musical do cosmos.
Odisseu — Aparece como referência literária e, no mito de Er, como alma que escolhe uma vida privada e tranquila, desprezando a ambição depois de suas experiências anteriores. Sua função é exemplar: representa a escolha prudente de uma vida moderada.
Homero — É uma presença intelectual recorrente, especialmente na crítica à poesia. Sócrates o trata como mestre da tradição trágica e épica, mas questiona se sua poesia produz conhecimento verdadeiro ou apenas imitação sedutora.
Simônides — Poeta citado por Polemarco como autoridade para definir justiça. Sua função é fornecer a fórmula “dar a cada um o que lhe é devido”, que Sócrates submete à refutação.
Sófocles — Citado por Céfalo na conversa sobre velhice e desejo. Sua função é ilustrar a ideia de que a velhice pode libertar o homem das paixões corporais.
Píndaro — Citado por Céfalo e depois por Adimanto. Em Céfalo, aparece associado à “doce esperança” do homem justo diante da morte; em Adimanto, aparece como referência poética usada para pensar o conflito entre justiça e vantagem.
Hesíodo, Museu, Orfeu e outros poetas religiosos — Não atuam como personagens, mas funcionam como autoridades culturais examinadas criticamente. Adimanto os invoca para mostrar que a tradição elogia a justiça por recompensas externas e sugere que sacrifícios, ritos e encantamentos poderiam compensar injustiças.
Deuses, heróis e figuras míticas em geral — São personagens indiretos das histórias criticadas por Sócrates, sobretudo nos Livros II e III. Sua função é pedagógica: Platão discute que imagens dos deuses e heróis devem ou não ser admitidas na educação dos guardiões. Sócrates rejeita narrativas que mostrem deuses e heróis como violentos, mentirosos, dominados por paixões ou moralmente degradantes.
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